O clube dos escritores que não aceitam críticas

Sobre o que os leitores têm a ensinar aos escritores.

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Um rapaz entra em um mercado para encontrar uma garota pela qual ele saiu de Londres e viajou até a Escócia. São oito horas de viagem. A garota está no corredor de cereais, o mercado é onde ela trabalha, e ela está agachada, conferindo os produtos, quando sente o golpe; algo forte atinge sua cabeça. Ela fica zonza, é ajudada por colegas e descobre que sua cabeça está sangrando. Ela acabou de ser atingida por uma garrafa, pelo mesmo rapaz que viajou tanto para vê-la. Algumas possibilidades, todas condenáveis, poderiam ter levado a um cenário assim: um ex-namorado zangado, por exemplo, disposto a reafirmar sua frágil masculinidade diante da garota que o deixou. Mas a verdade é bem mais estranha do que as primeiras suposições que passam pela nossa mente: o rapaz que atingiu a cabeça da garota é Richard Brittain, um autor, e a garota que ele feriu, que poderia ter ferido mortalmente, é uma usuária do GoodReads que ousou escrever uma resenha ruim sobre o livro dele.

Agora retornamos para o mês outubro: a autora Kathleen Hale escreve um artigo no Guardian, onde descreve como empreendeu uma perseguição à uma crítica sua, uma pessoa que ela jamais havia encontrado, mas o que não impediu Hale de, entre outras coisas, contratar um investigador particular para reunir informações a seu respeito. O artigo dividiu as pessoas entre aquelas que sentiam-se solidárias, geralmente também escritores, e as que achavam a coisa toda assustadora, e que enxergavam Hale cruzando um óbvio limite legal (considere-me parte do segundo grupo).

A briga entre autores e seus leitores não é novidade, mas a internet deu uma faceta a mais à disputa, com fóruns e sites de literatura, com Facebook e Twitter permitindo um confronto mais direto e, para alguns, mais pessoal. Richard Brittain é um autor auto-publicado, mas grandes bestsellers também parecem sofrer de um ego frágil: Anne Rice famosamente mobilizou seus fãs, em um post no Facebook, a atacarem a autora de uma resenha ruim que recebeu. A autora nada era além do que uma blogueira, escrevendo sobre aquilo que lia, e subitamente viu seu espaço pessoal invadido por pessoas virulentas e prontas a fazer ameaças: por causa de uma resenha. Quando a história ganhou a mídia, Anne Rice tentou se distanciar do que acontecia; disse que não havia incentivado seus fãs a nada, que apenas postara o link em sua página. Mas o que uma autora conhecida esperava que acontecesse se tem fãs tão fervorosos? Se Anne Rice não viajou quilômetros e atirou uma garrafa na cabeça da blogueira, se não seguiu-a até sua casa, se não fez ameaças de morte, ela ainda é culpada, mesmo que de forma indireta; você sabe o que pode acontecer quando cutuca um vespeiro.

A grande lição que muitos autores parecem ainda não ter aprendido é que, embora o que eles escrevam seja uma experiência única, embora nutram sentimentos únicos pelo que colocaram no papel, uma vez que a história está publicada e pertence ao mundo as pessoas que entrarem em contato com ela também terão experiências únicas e sentimentos únicos por aquilo que leram, e é um direito delas se expressar a respeito. O autor não pode ser um censor, porque não deve haver censores na leitura. Eu sei do que gosto e do que desgosto, mas sei que existem aqueles que são meu oposto, que odeiam o que eu amo e que adoram o que eu detesto. Não existe o certo ou o errado. Estão todos certos. Eu sei o que eu escrevo, e sei que algumas pessoas odeiam, e já li longos comentários nada lisonjeiros sobre coisas que eu havia escrito, mas a vida segue; que direito tenho eu de dizer que quem não gosta do que eu criei está errado?

Eu me lembro de todas as vezes em que encontrei minhas almas-gêmeas culturais, aquelas que abominavam certos livros tanto quanto eu, e também me recordo do prazer que existe em se falar mal deles em conjunto, um prazer muito parecido com o de se falar bem das coisas, de se unir com quem gosta do que você gosta para meia hora de gozo pop enquanto recapitula-se o que mais se admira (Star Wars; Borges; histórias de fantasmas japonesas). Fiquei pensando: “Que desgraça se alguém tentasse me tirar isso.” Ao mesmo tempo em que tinha plena consciência de que, algum dia, se eu acabasse por ser uma autora publicada, outras pessoas se uniriam em absoluto prazer para falar mal dos meus escritos (e que bom para elas; eu sei como é bom).

Richard Brittain demonstrou um comportamento quase psicótico; ele perseguiu e feriu alguém que não gostou do que ele escreveu. Richard Brittain, por enquanto, é uma anomalia dentro do embate de autor e leitor, e eu espero que ele seja punido pela lei de todas as formas cabíveis, e que novos casos similares não apareçam. Mas mesmo o autor que se contenta em perseguir seu críticos apenas no âmbito online já faz um gigante desserviço a todos os outros escritores, à literatura em geral, à relação com os leitores. Não seja como Kathleen Hale; não seja como Anne Rice; aceite que sempre haverá quem critique o que você escreve, porque assim é o mundo, porque é isso o que significa ser um escritor. Já ouvi um podcast com autores nacionais, supostos grandes nomes, que falavam abertamente sobre como boicotavam possíveis novos escritores com a ajuda de seus contatos em editoras, porque possíveis novos escritores haviam falado mal de seus livros na internet. A palavra “corja” foi usada para se referir aos leitores, aos possíveis novos escritores. Corja. Me faz pensar que somos todos a corja de alguém, nos dias de hoje, e que é preciso ser uma espécie de corja especial para alardear isso por aí – o peito estufado, a honra ferida.

Eu imploro: não seja essa pessoa; não seja esse escritor. Escreva, sim, escreva o que você ame, publique e continue a escrever. E, quando a crítica negativa chegar, respire fundo, beba um gole de chá de camomila e continue a escrever.

A vida segue.

Clara Madrigano Autor

Maria Clara Madrigano é escritora, jornalista e tradutora. Pode ser encontrada no @makeitsuntory.