7 traidores trágicos de Shakespeare (ou o que nunca aprendemos em relação ao poder)

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Shakespeare traçou um grande painel de arquétipos nas suas peças – e nenhum, talvez, seja tão importante em maio de 2016 como o dos traidores

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Shakespeare (seja lá quem foi/foram) teve o raro talento de delinear a maior parte dos tipos que viriam a povoar, se já não povoavam, o mundo ocidental. Apaixonados, gananciosos, sonhadores, temerosos – acrescente o seu tipo preferido aqui. É difícil acreditar que personagens tão complexos e mundanamente comuns sejam o motor de suas tramas complexas, belas e, muitas vezes, sanguinárias.

Nas tragédias, em especial, o poder de delinear os protótipos chega a um limite absurdo que, mesmo receoso, chego a crer que foi perfeito.

O que surpreende hoje, maio de 2016, não é a complexidade ou esterilidade desses tipos, antes a clarividência que eles trazem aos arquétipos presentes – reais ou ficcionais. Os erros e trilhas se embaraçam, seguindo mitologias tão antigas que não somos capazes de remontar seu início – ou o fato de não conseguirmos nos livrar disto.

Para tanto (e para o momento), selecionamos sete traidores de Shakespeare, o tipo mais comum de todos. Preferimos nos restringir às tragédias, pois é o habitat natural deste tipo de personagem.

(qualquer semelhança com pessoas públicas ou privadas é mera coincidência)

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Lear

Você talvez se pergunte: por que Lear? Ele deu todas as suas posses às filhas, inclusive se revoltando com Cordélia, a única das suas crias a dizer algo terrível: a verdade (Lembrem: ela ama o pai como um filha deve amar, nada mais.). Isso revolta Lear que a deserda e a expulsa do seu reino agora dividido entre as outras filhas. Por que traidor? Ele se voltou contra a única pessoa que deveria se juntar: a que disse a verdade, a dolorosa, sofrida, angustiante verdade. O velho rei se voltou contra quem disse não aceitar nada além de seu amor, não suas posses. O resultado? Um velho abandonado e (risos) traído pelas filhas que o bajularam.

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Marcus Brutus

Até tu, Brutus? Sim, principalmente ele. Um conspirador criado pelo monstro Júlio Cesar. Brutus tramou contra aquele com quem conviveu e o ensinou a tramar. Retornando da Batalha de Munda, ele nota que o poder de Cesar é imenso. Ele é um tirano que tomou o poder para ajudar o povo e agora só faz a se autoeleger, esquecendo de nós (não são palavras de Shakespeare, mas um singelo resumo dos sentimentos de Brutus). Como acabar com o problema? Matando Cesar, esfaqueá-lo. O resultado? Leia a peça e veja que o bem e a prosperidade esperada pro Brutus não leva ao que ele esperava.

Cláudio

Caso não saiba quem é este, Cláudio é irmão e assassino de Hamlet, o rei morto, e tio de Hamlet, príncipe vivo da Dinamarca. Por que matou o irmão? Poder. Como chegou ao poder? Casando com a viúva do antigo rei – vulgo ex-cunhada. Uma vez no poder, Cláudio se torna benevolente e cínico. Trata bem Hamlet, o sobrinho, mas também o teme. Seu poder, transitório, acaba da mesma forma com que o ganhou: com a morte.

Rosencrantz e Guildenstern

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Gary Oldman (esquerda) e Tim Roth (direita) em Rosencrantz and Guildenstern are dead, adaptação cinematográfica da peça homônima.

Talvez você não se lembre destes dois personagens secundários em Hamlet. Ambos são/eram cortesões na corte dinamarquesa – e supostamente amigos do príncipe da Dinamarca. Sua função acaba se tornando mais suja do que a de Cláudio, o tio assassino e traidor. Shakespeare modela o padrão do cidadão comum: uma pessoa de baixo poder capaz de atraiçoar uma amizade por – quem sabe, talvez, sabe-se lá quando – uma migalha de poder de terceiros. Seu fim é o mais banal: morrem e são esquecidos pela história (ao menos até Tom Stoppard brincar com ambos outra vez).

Macbeth

macbeth11A lista de quem foi passado para trás por Macbeth é longa: Banquo (aquele que não será rei, mas será pai de reis), Duncan (rei da Escócia), Lady Macbeth (a própria esposa), a si mesmo. Vamos por partes. Banquo, quem o acompanha quando as três bruxas fazem profecias, morre por ser um perigo ao novo poder de Macbeth. Da grande amizade, Shakespeare cria uma grande traição. Duncan é o meio de se chegar ao poder. Sua morte durante uma visita ao território do seu amado e fiel (risos) servidor, perpetrada pelo próprio, um mero acaso na escalada ao poder. Lady Macbeth apoia o marido para chegar ao trono. No entanto, quando enfrenta os próprios demônios, é largada, abandonada. O novo rei tem apenas uma preocupação: ele mesmo. Por fim, ao ver toda sua corte se voltar contra si, Macbeth talvez note que a maior vítima das suas maquinações pelo poder a qualquer custo foi ele mesmo. Sozinho, acuado, louco, ele se entrega à morte ao notar que mais nada faz sentido em volta – e a culpa é toda dele.

Iago

Há uma longa lista de adjetivos a serem usados ao falar deste personagem de Shakespeare: infiel, traidor, traiçoeiro, perfidioso, desleal, sombrio, invejoso. Iago desponta como aquele que não consegue ver a felicidade alheia conseguida pelos próprios méritos; muito menos aceita sua falha – quem quiser mais sob este argumento, procure no youtube o professor da Unicamp, Leandro Karnal, discorrendo acerca de. Motivo de apunhalar Otelo: a inveja de uma promoção deste enquanto Iago, segundo ele próprio, foi passado para trás. Como consertar a situação? Manipular Otelo até o ponto dele não acreditar em mais ninguém além de Iago. Seu fim é igual ao da maioria dos traidores aqui: um breve momento de esplendor e então a queda – ou de uma forma menos poética, ele alcança seu fim e morre em seguida.