Caminhos de Clarice através de Joana e Loreley

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Os distanciamentos e aproximações entre dois dos mais famosos romances de Clarice Lispector

Ao contrastar as protagonistas e a linguagem dos livros Perto do coração selvagem e Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, observamos características de escrita que se aperfeiçoaram não linearmente ao longo dos anos. Elas constituem a marca de Clarice Lispector.

Percebemos que o primeiro romance da autora, Perto do coração selvagem, possui diversos pontos de contraste e de igualdade com Uma aprendizagem, sua sexta obra.

A solidão de um coração selvagem

O primeiro livro enfoca a busca solitária por autoconhecimento feita por Joana. Em determinada altura, já uma moça e contrariando sua natureza desprendida, ela se apaixona por Otávio e eles se casam. Porém, o casamento vem somente para que ela perceba que de fato não precisa de alguém ao lado. Joana é feita para a liberdade e para a solidão. Ela é cavalo novo – forte, arisco, solto:

“porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”

Independente, a protagonista não sabe amar, não sabe o que fazer com o amor. O amor não é para ela:

“eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequena.”

A certa altura da história, Joana descobre que o marido a trai com uma mulher chamada Lídia, que está grávida dele. Antes de decidir se separar, ela se encontra por algum tempo com um amante – o qual, no entanto, também a abandona. Passado o choque de saber abruptamente que está só de novo, a personagem vai se identificando com a solidão, que lhe é familiar e até mesmo agradável.

Um aprendizado, a dois

Já o aprendizado de Loreley, se dá na união ao outro pelo amor. Lóri, seu apelido, ao final da preparação ao longo da trama, entrega-se sem receio a Ulisses, o professor de Filosofia que se tornou seu guia. Para se entender mais, a personagem precisou da condução dele, necessitou de outra pessoa ao seu lado guiando-a. Sozinha, não chegaria longe como chegou; sozinha, Lóri nem ao menos tentaria se entender ou se entregar sem medo ao amor – continuaria vivendo escondida, evitando amar para não sofrer:

O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam – ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a dor – senão se sofreria o tempo todo. (…) Sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma de contato. 

Ao final, essa protagonista vence todas as barreiras internas que a impedem de se conhecer e amar.

Divergências e convergências 

A caminhada de Loreley culmina na união; a caminhada de Joana, na solidão. No entanto, ambos os percursos têm o mesmo foco: o desvelamento interno.

Um ponto de convergência nos dois textos é a existência de um guia. Assim como Lóri, Joana busca o auxílio do professor (aparentemente, sua paixão de infância). Ele era a única pessoa que conseguia entendê-la, além de direcionar seus raciocínios:

Fugiu mais uma vez para o professor, que não sabia ainda que ela era uma víbora… O professor admitiu-a de novo, milagrosamente. E milagrosamente ele penetrava no mundo penumbroso de Joana e lá se movia de leve, delicadamente.” 

Contudo, a relação entre eles não é duradoura como a de Lóri e Ulisses. Joana vê o professor já velho pela última vez antes de se casar com Otávio.

Também chama a atenção o fato de a protagonista Lóri não ser tão inteligente e questionadora como a protagonista Joana. Esta última é voltada para seu interior, seus pensamentos profundos. Tenta incontrolavelmente entender a si e a tudo o que a rodeia.

Sempre entregue ao seu perscrutar, Joana se basta. Já Loreley mais sente do que pensa. Pensar pra ela é sentir. Não é muito dada a raciocínios profundos: “Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender.”

Para Joana, seus questionamentos não lhe aliviam, uma vez que são compulsivos. Isso é algo inerente à sua natureza. Joana sente inveja ao se deparar com a placidez de Lídia, a amante de seu marido. Ela, para Joana, é segura e serena como um animal pastando. Ou seja, Lídia é domesticada, vive na paz de espírito. A paz que Joana não consegue nunca ter e nem dar para alguém.

Neste ponto, Loreley também é diferente de Joana. Nas metáforas de Clarice, enquanto a última é cavalo liberto, indomado, a primeira (tal como a amante Lídia) é cavalo domesticado:

“Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde.” 

Por sentir mais do que pensar, ela manifesta dificuldade em se expressar através da palavra. No entanto, o professor de Filosofia Ulisses a instiga a escrever, tornando isso uma parte de seu crescimento. Ao superar etapas em sua evolução, Lóri chega ao fim da obra um pouco mais perspicaz.

Sobre silêncios

Outro tema presente nas duas obras é o silêncio: em Perto do coração selvagem, o silêncio parece marcar o indizível, preencher espaços em que Joana não conseguia expressar-se satisfatoriamente –

“Tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. (…) O melhor era mesmo calar.”

Mas Joana, entretanto, não vê outra saída para se entender senão a de procurar incansavelmente a palavra mais exata:

“E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Em Uma aprendizagem, o silêncio é pleno de significações. Ele acontece nos momentos exatos, quando a palavra deve calar para que haja um maior entendimento do que se passa.

O silêncio transpassa toda a narrativa, que, mediada pelo uso constante do diálogo, parece querer ainda assim enfatizar a importância da busca pela palavra exata e da falibilidade do signo em explicitar exatamente o que se quer:

“Continuaram em silêncio. Foi então deitados no chão que se amaram tão profundamente que tiveram medo da própria grandeza deles.”, e “Ficaram em silêncio muito tempo, um silêncio que não pesava.”

O trabalho árduo com a linguagem, com a palavra, está conectado com a expressão dos caminhos percorridos pelas duas protagonistas.

Brincando com as palavras

Em Perto do coração selvagem, há grande recorrência ao vocábulo “perscrutar”, diretamente ligado à Joana, posto que é a ação que ela mais realiza. Já em Uma aprendizagem, identificamos apenas uma vez tal palavra e ela aparece relacionada a Ulisses, pois é ele o guia da trama. Como Joana está em estado avançado de aprendizagem, a linguagem de Perto do coração selvagem parece mais profunda, mais rica de imagens inusitadas. Contudo, nas duas obras há um trabalho elaborado com a palavra, haja vista que os recursos narrativos de que se valem são basicamente os mesmos: narrador onisciente, discurso indireto livre, fluxo de consciência e monólogo interior.

Nos dois textos clariceanos se repetem significativamente vocábulos como: silêncio, palavra, sentir, pensar, humano, dor. Todas conectadas com superações e descobertas dos caminhos das protagonistas. Quanto à colocação e combinação de palavras de modo inusitado, criativo, Perto do coração selvagem se destaca mais. Aparecem onomatopéias, muitas repetições de palavras, comparações inusitadas, sinestesias. As imagens da obra são inúmeras. 

Uma aprendizagem brinca com as palavras também. Aparecem oxímoros, repetições, comparações, porém não é algo tão recorrente como em Perto do coração selvagem. Sendo Joana uma personagem mais complexa que Loreley, acontece na história um maior embate no plano do tecido textual.

Nos caminhos de Clarice

A evolução do estilo de Clarice se mostra não-linear. A primeira obra é mais elaborada em tema, história e personagens do que a sexta. No entanto, as duas protagonistas atingem seus objetivos de obter (e seguir obtendo) um maior entendimento de si e do mundo.

Apesar de manter traços de escrita, a narrativa dos dois romances é diferente, o que pode ser justificado pela experiência existencial maior que transpassa toda a escritura da autora. A tessitura de Clarice nos revela uma constante busca de respostas acerca do ser. E essa busca se dá por meio da linguagem.

Por fim, inferimos que a história de Joana e a de Lóri são uma tentativa de entender qual dos dois caminhos é o melhor: o da solidão ou o do amor? Por direções diferentes, elas culminam num mesmo resultado e, ao fim, resposta não nos é dada.

Referências:

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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