Cécile Hoodie e Aleta Valente: Das Virgens Suicidas à Ex-Miss Febem

Aleta Valente e Cécile Hoodie abordam com humor sarcástico temáticas contemporâneas relacionadas ao feminismo, questões sociais e existenciais. 

A conexão que agora faço entre a artista francesa Cécile Hoodie e a artista brasileira Aleta Valente é deliberada. Digo no sentido de que nunca soube da presença de trabalhos das artistas em uma mesma exposição ou qualquer outra aproximação e acho pouco provável que ela exista.

O universo das virgens suicidas de Cécile Hoodie

De fato, sobre Cécile Hoodie sequer encontro muitas referências relacionadas a exposições artísticas, galerias, textos críticos ou qualquer outro sinal de que ela encontre acolhida neste cenário, exceto por algumas breves menções. Sua galeria certamente seria o Instagram.

Em sua bio a artista contextualiza o espectador com um desejo, talvez tão sarcástico quanto seus trabalhos, “I would like to live in a Virgin Suicides world, with Air music in the background”.

Se o gosto pela trilha sonora dos seus conterrâneos é compreensível, habitar o universo de Virgens Suicidas parece controverso diante das mais de mil imagens produzidas por Cécile, que oscilam entre uma ode à sexualidade feminina e provocações contra o patriarcado e suas múltiplas perversidades.

Virgin Suicides, Cécile Hoodie's provocative world | Collater.al
Cécile Hoodie, Virgin Suicides

Seja qual for o caso, a artista escolhe elementos, cores e um modo de enquadramento das imagens que remetem à delicadeza, utilizando essa característica atrelada ao feminino como elemento sarcástico.

Protect yourself against STDs (Sentimentally Transmitted Diseases). Cecile Hoodie. Fonte: Instagram da artista

Mas as provocações de Hoodie ultrapassam as especificidades feministas: abarcam o consumismo e o manejo dos afetos na contemporaneidade, por vezes criando uma paródia com marcas, comportamentos e utilidades corriqueiras, dentro da paródia maior que é o espectro do seu desejo de ser virgem suicida.

A recorrência de temas como aborto, sexo, métodos contraceptivos, hábitos autodestrutivos e que ironizam costumes atuais estabelecem os elos que encontro entre o trabalho de Cécile e Aleta Valente, que igualmente apresenta recorrência desses temas.

O universo ex-miss Febem de Aleta Valente

Enquanto o universo de Cécile tem ênfase na ficcionalização a partir dos objetos ou recortes do seu corpo, Aleta Valente investe principalmente no autorretrato, pintando-se como ex-miss Febem.

A artista brasileira já tem certo reconhecimento no âmbito artístico, ao menos no país. É representada pela galeria A Gentil Carioca, indicada ao prêmio PIPA em 2016, presente em exposições e no discurso sobre arte.

Material Girl. Aleta Valente. Fonte: Prêmio Pipa (site)

A paródia que cria com a sua personagem fictícia, ou nem tão fictícia assim, é da ordem da pose glamorosa e sensual típica das modelos, contudo, inserida em cenários precários ou com elementos empobrecidos, sempre com a sensualidade interrompida pelo background improvável que inventa, com elementos do subúrbio, da pobreza, da ausência de glamour.

Cruzando universos

Tais escolhas, assim como acontece no trabalho de Cécile Hoodie, conferem um tom cômico à maioria das obras, ainda que elas carreguem consigo provocações e apontamentos sobre temas sérios, complexos e mesmo graves.

Os trabalhos de Cecile bebem da arte pop e conversam diretamente com algumas artistas contemporâneas, invocando imediatamente obras de Jenny Holzer e Barbara Kruger, mesclando essas referências a todo um universo alternativo musical e cinematográfico norte americano e europeu.

“I’m lovin’ it”. Cecile Hoodie. Fonte: Instagram da artista

Aleta Valente permite aproximações sutis com a linha dos trabalhos de Cindy Sherman e encontra-se imersa até o talo no que, por falta de maiores definições, chamamos arte contemporânea, particularmente a brasileira.

Penso que cada uma das artistas responde de maneira assertiva ao contexto em que vive, do qual pinçam aspectos facilmente reconhecíveis e acabam por criar obras que tocam tanto os familiarizados, quanto os desavisados sobre o “mundo artístico”.

Cecile explora abordagens mais globais, inclusive por lidar com elementos pop ou de um certo pop alternativo, do qual tanto Virgens Suicidas, de Sophia Coppola quanto os filmes de Quentin Tarantino são bons exemplos.

Ela também explora possibilidades vindas de sua própria experiência cotidiana e profissional, caso do frequente uso de objetos relacionados ao meio médico, no qual atua como enfermeira.

Aleta Valente encara a temática da desigualdade social e dos estereótipos relacionados à camada menos favorecida da população, conferindo a ênfase pouco usual no erotismo e no prazer como possibilidades desse contexto, que geralmente é vislumbrado pela via da violência, do indesejável e da vulnerabilidade.

Ascenção Social. Aleta Valente. Fonte: Prêmio Pipa (site)

As artistas criticam, apontam, denunciam, mas com humor e sagacidade, mantendo, cada qual à sua maneira, a celebração da vida como um modo de resistência.

Ainda que acessando e transitando entre os meios tradicionais, particularmente no caso de Aleta Valente, uma das potências do trabalho desta e de Cécile é o manejo desembaraçado que conseguem alcançar no uso das redes sociais, transformando esse espaço virtual em um meio de difundir e fazer arte ativa e incômoda, capaz de ampliar questões e discussões, que poderiam continuar abafadas apenas nos espaços dedicados a isso.

Instagram das artistas

@cecile_hoodie

@ex_miss_febem_

Paula Peregrina
Pesquisadora, artista visual e escritora. Mestranda em artes visuais, redatora publicitária, editora de pesquisa e projeto na Revista Desvio. Autora do romance Terras Secas (Pandorga, 2017), contos, poesias e outros textos em publicações diversas
Paula Peregrina
Pesquisadora, artista visual e escritora. Mestranda em artes visuais, redatora publicitária, editora de pesquisa e projeto na Revista Desvio. Autora do romance Terras Secas (Pandorga, 2017), contos, poesias e outros textos em publicações diversas
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