Conto: Electra

Agora são dez contos! O projeto 12 Contos continua
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Olívia:
Eu o amo. Não me importo de limpar a casa, preparar a comida ou de tirar seus sapatos quando ele chega do trabalho. Espero ansiosa por seu abraço agradecido. Uma coisa eu detesto: quando ele se perfuma e sai. Sei que vai encontrar uma vagabunda qualquer. Será que ele não me enxerga? Ele é tudo o que tenho. Minha mãe, Isabel, morreu e meu irmãozinho se afogou na banheira. Quando achei que ele seria só meu, vieram as namoradas. Consegui afastar todas elas. A última era uma vizinha da rua de baixo, mas ela não é um problema, nunca mais será. Ele não precisa de mais ninguém. Não vou dividi-lo. Quero-o só para mim. Já fiz quinze anos e não sou uma menina. Ele já pode me receber como mulher. Preparei tudo para hoje à noite, troquei os lençóis, comprei uma lingerie no catálogo da revista, arrumei uma garrafa de vodca e ainda tenho um pouco do perfume que mamãe usava. Estou pronta.

***

Marcelo:
Acordei com a cabeça estourando e as pernas cansadas. Bebi demais. Lembro-me de voltar para casa, jantar e… Foi um sonho ou Isabel estava mesmo aqui? Ela se foi há tanto tempo, mas sinto o seu perfume. Sinto forte até demais! Ela está deitada ao meu lado? Eu posso tocá-la?! Mas não é Isabel. É Olívia?!

“O que faz aqui, você está sem roupa!”
“Bom dia! Você também está ou não percebeu?”
“O que aconteceu?”
“Não se lembra de nada?”
“Eu apaguei.”
“Eu posso te contar cada detalhe. Sou sua mulher agora.”
“Minha mulher? Mas isso é pecado. Como foi que aconteceu?”
“Não se culpe, tomamos muita vodca e eu quis me entregar.”
“Isso está errado! Precisamos nos afastar.”
“Eu não vou! Pertenço a você ainda mais que antes.”
“Não diga bobagens, isso é sério, é horrível e não pode se repetir. Vou mandar você para a casa da sua tia.”
“Eu não vou a lugar nenhum, não vou me separar de você. Acha que foi fácil afastar todas as pessoas para ter você só para mim?”
“Afastar todas as pessoas?”
“Sim! A mamãe, o Pedrinho, e as vagabundas que você namorou depois da morte dela.”
“Você os matou? Como foi capaz? Até sua mãe e seu irmão?”
“Eu queria você! Estavam todos no meu caminho e eu tinha que fazer alguma coisa.”
“Você é uma criança!”
“NÃO ME CHAME DE CRIANÇA! Eu sou sua mulher agora e nem tente se afastar de mim ou todos saberão o que houve aqui.”
“Você é um monstro!”

Num minuto tudo escureceu. Não existia nada ao meu redor. Senti entre meus dedos algo macio que eu apertava com força. Quanto mais eu apertava mais eu queria apertar. Estava quente, mas eu tremia como se sentisse frio. A luz foi voltando aos poucos. Eu não quis acreditar no que meus olhos me mostravam. Senti dor ao me beliscar. Não era um pesadelo. Sóbrio, bêbado ou de ressaca, não importa, agora eu também era um monstro! Revirei as gavetas procurando a única coisa que acreditava que poria um fim nisso tudo e logo escureceu outra vez.

***

Renato, o policial e Fernando, o delegado:
“E a cena do crime?”
“Estão imprimindo as fotos, senhor. Tudo aconteceu no quarto. Sobre a cama, os lençóis enrolavam a adolescente nua. Não apresentava marcas, exceto pelos hematomas do pescoço. Foi morta por enforcamento. Houve sexo horas antes da morte, mas não há indícios de estupro. No canto do quarto, mergulhado numa poça de sangue havia um homem, por volta de seus quarenta anos. Suicidou-se com um tiro na boca. Ele não tinha porte de arma e a numeração estava raspada.”
“Eram amantes?”
“Não senhor, eram pai e filha.”

Silvano Filho Autor

Escritor e designer gráfico. Pernambucano do interior. Casado com a mulher da sua vida. Autor do projeto literário 12 Contos (2015). Escreve sua literatura com a mão esquerda. Fanpage: facebook.com/silvanobsfilho