Ana e os portais

Ana saiu naquela manhã ensolarada levada pela mão do pai. Estava feliz, adorava passear, mas nunca fora até o centro da cidade. Aquele era um dia especial, ela ia tirar fotografia. Todo mundo naquele tempo tinha uma foto em preto e branco, que a gente tirava no fotógrafo. Sua mãe lhe pusera o único e melhor vestido, cor de rosa de voal, com sapatinhos combinando e meias brancas. Não sabe porque não se lembra de mais nada antes desse dia, parece que tudo na sua vida aconteceu depois, como se tivesse atravessado uma espécie de portal, mas não tem certeza se não foi só uma impressão estranha. Gostou do barulho da cidade, das vitrines, dos carros, das pessoas passando, tudo muito novo para ela. Lembra que tirou fotografia sentada em um banquinho com as pernas cruzadas, sorrindo e segurando um urso marrom. Ana agarrou-se àquele bicho de pelúcia e não queria mais soltá-lo. – Quero levar o urso pra casa. Não pode – disse seu pai – é do homem, depois compro um pra você. Ana ficou decepcionada, pensou que o urso era seu. Mas logo passou, tinha muita coisa para explorar, o mundo era tão desconhecido e atraente, e tudo então lhe parecia enorme, talvez porque ela ainda fosse muito pequena: sua casa e os objetos eram imensos, as pessoas eram gigantes, as ruas muito longas atiçavam sua curiosidade para saber o que havia lá longe. Ana ainda levaria um tempo até perder aquela capacidade das crianças de se encantar com tudo.

Ana gostava de doces, qualquer coisa que tivesse açúcar, na falta de doces comia açúcar puro escondido, e gostava de correr, corria o tempo todo, tomava vários tombos, esfolava joelhos e cotovelos. Sua mãe era aquela pessoa presente mas distante, que lavava, passava, limpava e cozinhava, vai ver toda menina fazia a mesma coisa depois de grande. Lembra do ferro à carvão e do escovão usado para dar brilho no assoalho, tudo muito pesado. Sua mãe puxava água do poço, estendia roupas no varal e quarava lençóis na grama. “Quarar”, palavra estranha que ela guardou na memória, fora de uso, e significa clarear roupas brancas na luz do sol, que sua mãe costumava deixar antes de molho no anil, um produto azul usado para branquear roupas, e Ana achava bonito aquele contraste entre a brancura dos lençóis e o azul. Ela também sabia que de repente, sem mais nem menos, sua mãe podia brigar com ela e castigá-la, e às vezes não entendia bem o motivo, mas logo esquecia.

Crianças costumam ter amigos imaginários e Ana conversava longamente com seus amiguinhos imaginários e com os bichos no quintal: galinhas, patos, passarinhos, cachorro, papagaio. Só não tinha gato, seus pais não gostavam de gatos, diziam que os gatos pegavam os passarinhos. Ela gostava de subir em árvores e olhar seu pequeno mundo lá de cima, aquele microcosmo que ela enxergava em grande dimensão. Tinham várias árvores de frutas no quintal e suas preferidas eram os pés de mexerica e o de ameixas amarelas. Como bem disse o poeta Manoel de Barros: “meu quintal é maior do que o mundo”, o de Ana também era. Havia lá um balanço e ela gostava muito de brincar de balanço. A cada impulso sentia o vento bater em seu rosto e seus cabelos esvoaçavam enquanto cantava refrãos de músicas que ouvia no rádio. O balanço foi desaparecendo na névoa do tempo, o tempo que se arrastava no ritmo lento do tic tac do relógio que ficava no quarto em cima da cômoda, até se decompor na memória.

A mãe de Ana às vezes matava uma galinha para o almoço de domingo, e viu mais de uma vez seu pai matar patos para o mesmo fim. Não sabe como naquele tempo conseguia ficar olhando sua mãe quebrar o pescoço de uma galinha enquanto ela se debatia, ou seu pai cortar o pescoço de um pato. Ficava olhando aquelas cenas sem saber exatamente o que sentia. Seus pais faziam isso com tanta naturalidade, e depois todos  comiam felizes aqueles bichos no almoço. Mas ela gostava quando nascia uma nova ninhada de pintinhos e patinhos e nem pensava que um dia podiam virar almoço.

Ana tinha então os sentidos mais apurados, cada cheiro, cada gosto, cada som, tinham mais definição, clareza, sabor, e prestava atenção em detalhes que com o tempo deixaram de ter importância. Lembra do barulho dos sapos cantando no riacho nos fundos da sua casa, ainda mais barulhentos em dias chuvosos. O som abafado e longínquo ia provocando nela uma sonolência agradável, e gostava de adormecer sob aquela orquestra anfíbia. Em dias úmidos e frios era possível ouvir o chiado das torres de eletricidade que ficavam ali perto, e todas as tardes bandos de andorinhas barulhentas pousavam nos fios. Pela manhã o ruído do padeiro trazendo o pão e o leite, era sinal que chegara a hora de se levantar para tomar café. Havia nas proximidades uma Torrefação de Café e o ar costumava ficar impregnado com aquele aroma caloroso da bebida. Ela tinha também o costume de cheiras as maçãs que às vezes seu pai trazia enroladas uma a uma em papel azulado, e não sabe se com o tempo as maçãs perderam o aroma ou se ela perdeu seu sentido afinado do olfato. Na frente da casa havia um jardim, e jardins costumam ser habitados e visitados por pequenos seres, alguns barulhentos como a cigarra e os grilos, principalmente nas noites quentes de verão, outros silenciosos como a lagarta e a joaninha. Beija-flores, borboletas e abelhas sempre apareciam. Alguns não eram muito bem vindos, como formigas e pulgões.

Mas certo dia, Ana não lembra se estava em um sonho ou não, só lembra de ter ficado por alguns segundos naquela fronteira entre o sono e a vigília, e acordado com uma estranha sensação de não pertencimento. Não se reconhecia mais naquele lugar, de repente era uma forasteira. Havia atravessado outro portal.

Eliane Boscatto Autor

Formada em Ciências Sociais e Políticas, de natureza curiosa, acredita que não se deve ficar preso aos conceitos acadêmicos. Não é especialista em nada, mas se interessa por muitas coisas, em especial por tudo que cerca a Vida no planeta, seja humana ou não. Gosta das palavras, sejam elas em prosa ou verso.