Conto: Eu deveria ter morrido em Waterloo

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CAPA_12

Ainda derramando sangue, o carrasco a ergueu pelos cabelos e a multidão explodiu com gritos de Viva a República! A cabeça erguida tinha os olhos fixos no futuro imperador. Era a própria morte a olhá-lo. Então ele notou que não era a da rainha, mas a sua própria cabeça que estava pendurada nas mãos do carrasco e assim despertou. Este pesadelo já não produzia o mesmo efeito de quando o sonhava nas primeiras vezes, agora o ex-imperador apenas acordava e esperava a consciência entender que saíra do mundo onírico para o real.

***

Um copeiro de confiança do governo britânico foi designado para administrar as tarefas domésticas e vigiar o exílio do ex-imperador na ilha de Santa Helena. Tinha uma lista de recomendações e um alerta: O francês é um homem muito perigoso. Mas o que o copeiro viu chegar foi um homem gordo, sisudo e baixinho, inofensivo fora dos campos de batalhas.

Após cinco anos de exílio, agora já magro e abatido, o ex-imperador tinha o coração amargurado pela derrota e as entranhas roídas pela grave úlcera. Transformou-se num velhinho prematuro, com apenas 51 anos incompletos. Lembrava-se das batalhas de terra e de cama, do mesmo prazer que sentia ao conquistar um território ou uma mulher inalcançável. Sofria com a separação da família, com a dor de não ver tornar-se homem o herdeiro menino que foi forçado a deixar para trás e do exército que nunca mais comandaria. O orgulho permanecia intacto e também a língua afiada.

– Malditos ingleses. Se a intenção era me matar de calor porque não me mandaram de uma vez ao inferno?
– Trouxe os seus remédios, senhor, precisa da mais alguma coisa?
Ele engoliu as pílulas.
– Sente-se comigo, os outros são importantes demais para conversar com um francês?
– Algum problema?
– É o pesadelo outra vez. Aqueles olhos me encaram com cada vez mais sede. Isso é um mau presságio.
– Talvez não devesse pensar tanto no que aconteceu à antiga rainha.
– Já lhe contei das vezes em que estive com ela?

O ex-imperador repetiu essa história tantas vezes que o copeiro já sabia de cor. Mas sempre lhe emprestava os ouvidos e a paciência atrás de um detalhe ou informação oculta nas versões anteriores.

– A primeira vez foi na ocasião de sua ascensão ao trono como delfim. Meu pai nos levou de Ajaccio para Paris, eu era uma criança. A rainha estava vestida como uma francesa, mas ainda era uma austríaca. L’Autre-chienne, um apelido tão desrespeitoso, mesmo para uma monarca tão libertina e perdulária. Pude vê-la de relance, no momento da coroação. Ela ofuscava até o marido.
– Tem uma boa memória, senhor.
– Meu problema é no estômago e não na cabeça. Falo do que ouvi nos anos seguintes, creio que é uma memória formada pelas memórias dos outros.
– Guarda alguma lembrança mais viva?
– De quando a vi pela segunda vez, pouco antes daquele caso do colar. Eu estava me formando pela Escola Militar de Paris. Ela saia das Tulhérias de volta à Versalhes. Estava tão enfeitada que mal vi seu rosto em meios a tantos adornos. Não era exatamente bela, mas não entendo como o rei ainda não a tinha deflorado.
– Ela já era rejeitada pelo povo?
– Nunca foi aceita.
– Sempre ouvi que a visão da rainha era marcante, o senhor concorda?
– Sim, mas era vergonhoso vê-la ostentando tanta riqueza no meio do povo miserável. Mas essa não é a imagem mais marcante que guardo dela.
– É a do pesadelo não é?
– Exatamente. Soube do julgamento e fui á Paris para ver a execução. Cheguei à Praça da Revolução quando um carro aberto a trazia. Estava lívida, toda vestida de branco e sem nenhum luxo. Envelhecera tão rápido quanto eu desde que cheguei a esta ilha e não foi só a doença dela, mas também a humilhação, os ultrajes e o afastamento da família.
– Se identifica?
– Padecemos do mesmo mal por motivos diferentes.
– O que mais viu?
– Ela subiu no patíbulo. Guardava orgulho suficiente para não baixar a cabeça. Depois de estar presa à guilhotina em poucos segundos a lâmina desceu, ouvi um estalo seco e os gritos da plebe. Pensei nos gritos dos judeus na crucificação do Cristo.
– A simpatia que nutre pela figura da rainha é maior do que eu pensava. É capaz de compará-la a Jesus?
– Absolutamente não. Maria Antonieta estava longe de ser uma santa, mas foram tempos difíceis para ela, como são para mim hoje.
-Sente piedade?
– Talvez. Era culpada, mas enfrentou tudo sozinha. Sem o apoio do povo e abandonada pelos amigos, se tornou o bode expiatório da Revolução.
– E o que o atormenta? Tem medo de que lhe cortem a cabeça?
– Não tenho medo, até preferiria isso. A rainha e eu representamos ideais. Ela era a maior representante da monarquia corrompida e eu do império caído e nisso estamos unidos. Ela poderá ser vista, quem sabe, como uma mártir pelos saudosistas da monarquia, mas nunca terei essa possibilidade. Eu deveria ter morrido em Waterloo.
– Pensa em suicídio?
– Já tentei uma vez, no primeiro exílio, fui salvo por um acesso de vômito involuntário. Para matar-se é necessário mais coragem que para matar outra pessoa e acredito que esse é um tipo de coragem que só se tem uma vez na vida. A rainha teve uma morte rápida e limpa, apesar de todo o sangue derramado. Eu me encaminho para morrer sem derramar uma gota de sangue, mas é uma morte suja. Os ingleses querem me desmoralizar ao tentar me apagar da história e ainda me matar aos poucos, como um rato esquecido numa gaiola.
– Então não teme a morte?
– A morte não é nada, mas viver vencido e sem glória é morrer todos os dias.

 

***

Quero agradecer a todos que acompanharam o projeto 12 Contos. Amadureci como escritor e agora sei que é isso o que quero fazer da minha vida.