O particular e o universal em “Mayombe”, de Pepetela

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E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?

Pepetela
Pepetela

A literatura africana vem trazendo gratas surpresas ao público brasileiro, desacostumado, até pouco tempo atrás, com seus autores e temas. Mia Couto e Ondjaki, só para citar dois nomes, passaram a ser mais estudados no país e trouxeram toda a sua linguagem poética, os seus cenários habituais, aos nossos leitores. Da mesma forma, chegou por meio dos vestibulares a belíssima Mayombe, obra do angolano Pepetela, apresentando uma realidade política de forma extremamente humana.

O autor escreveu a história a partir de sua experiência na década de 60 como guerrilheiro. O conflito do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) com os portugueses durou quinze anos, de 1961 a 1975, até que o país finalmente conseguisse a independência. O livro direciona o olhar para um grupo desses guerrilheiros que passa a maior parte do tempo embrenhado numa base em meio à floresta do Mayombe, promovendo ataques para enfraquecer o inimigo.

A obra tem diversos méritos. Um deles é o formato da narração, que se alterna entre um narrador onisciente, externo à ação, e uma série de narradores em primeira pessoa que “tomam a palavra” de tempos em tempos, de forma a nos contar sua história pessoal e o modo como enxergam as situações que os rodeiam. Esse recurso nos mostra como é difícil ser uma unidade, sendo que cada sujeito possui um passado diverso, crenças pessoais diversas, colidindo o tempo todo com os companheiros. É o que acontece, por exemplo, quando vemos um personagem afirmando que adoraria ser transferido para outro campo-base, para logo em seguida acompanharmos a voz de certo narrador sustentando que obviamente estava sendo deslocado de seu posto para que o outro assumisse seu lugar. É mentira, e como leitores sabemos disso. Percebemos a verdade sem que ela precise ser dita, verbalizada. Ela fica clara apenas no contraste entre os fatos e as narrações pessoais.

O segundo grande trunfo é o protagonista. Apesar da polifonia que domina a obra, um personagem se destaca no conjunto: trata-se de Sem Medo, o comandante dos guerrilheiros. Confesso que a primeira coisa que ouvi sobre a obra de Pepetela é que era mais política que a de outros autores africanos, o que, a princípio, me desagradou. Achei que as questões locais ganhariam o foco da história, deixando pouco espaço para desenvolver o resto. Como estava enganada! O livro é de uma profundidade psicológica impressionante e trabalha uma série de questões universais, principalmente no que diz respeito a essa personagem.

Sem Medo é um homem bem educado, que abandona a faculdade de Economia para se juntar à guerrilha. Nas vozes dos subordinados, quando estes assumem a narração, percebemos que ele não é unanimidade: alguns questionam sua etnia, outros as suas decisões, outros ainda as suas motivações. Não importa. Parece que ele paira acima de tudo isso, atento a essas impressões sobre si, mas sem deixar que elas dirijam o seu comportamento. Sem Medo, apesar dos trinta e cinco anos, é dono de uma enorme maturidade, que lhe vem a calhar nos momentos em que precisa exercer sua liderança. Ele pondera de forma equilibrada, como quando decide não sacrificar um traidor do grupo por entender que ele fora contaminado por uma sociedade desonesta, e nunca toma decisões apressadas ou arbitrárias. É um líder na melhor acepção do termo, algo que nos vai sendo revelado aos poucos, conforme ele vai sendo obrigado a se posicionar ou debater.

mayombe-capaOs temas de seus discursos vão do amor à política, e ele fala de todos com a mesma desenvoltura. Frases de efeito, como “Ninguém pode ser livre quando tem uma Revolução a fazer”, deixam o leitor pensativo. Talvez sua maior virtude seja ser um questionador em tempos de guerra. Enquanto o guerrilheiro médio é cheio de certezas, o chefe do grupo é cheio de dúvidas. Isso escancara ao leitor sua humildade intelectual, fazendo com que levemos a sério as suas angústias, que passam a ser também nossas. Ele mesmo ressalta a importância de se perguntar sobre tudo:

 

— E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?

— Todo o homem tende para isso, sobretudo se teve uma educação religiosa. Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do fato. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. Preguiça intelectual ou falta de cultura. Mas é a primeira que é grave. Claro que também é uma covardia.

 

A noção da contestação surge inclusive quando ele se refere ao próprio partido, à própria causa, pela qual luta diariamente e com afinco, embrenhado no meio da floresta. Nota-se que todo o seu ímpeto vem de um lugar realista, um entendimento mais preciso e profundo de como funcionam as organizações sociais e o ser humano quando inserido nelas. Ele afirma:

 

— Os homens? – Sem Medo sorriu tristemente. – Os homens serão prisioneiros das estruturas que terão criado. Todo organismo vivo tende a cristalizar, se é obrigado a fechar-se sobre si próprio, se o meio ambiente é hostil: a pele endurece e dá origem a picos defensivos, a coesão interna torna-se maior e, portanto, a comunicação interna diminui. Um organismo social, como é um Partido, ou se encontra num estado excepcional que exige uma confrontação constante dos homens na prática – tal uma guerra permanente – ou tende para a cristalização. Homens que trabalham há muito tempo juntos cada vez têm menos necessidade de falar, de comunicar, portanto de se defrontar. Cada um conhece o outro e os argumentos do outro, criou-se um compromisso tácito entre eles. A contestação desaparecerá, pois. Onde vai aparecer contestação? Os contestatários serão confundidos com os contrarrevolucionários, a burocracia será dona e senhora, com ela o conformismo, o trabalho ordenado mas sem paixão, a incapacidade de tudo se pôr em causa e reformular de novo. O organismo vivo, verdadeiramente vivo, é aquele que é capaz de se negar para renascer de forma diferente, ou melhor, para dar origem a outro.           

 

São reflexões modernas, que poderiam ser feitas hoje – particularmente no Brasil, que vem enfrentando momentos políticos turbulentos. Será que temos questionado nossos dogmas ou os caminhos que vêm sendo traçados? O que tem sido aprendido, o que tem sido modificado? Para Sem Medo, conforme vimos acima, o organismo realmente vivo precisa estar em constante mudança.

E é com essa mesma maturidade que ele discorre sobre tópicos da vida cotidiana, como o amor. Quando o Comissário, seu protegido e subcomandante, passa a ter problemas amorosos e lhe pede conselhos, Sem Medo faz uma análise precisa da relação daquele casal, expondo, para além de suas peculiaridades, as suas fragilidades:

 

— Já te disse que uma mulher deve ser conquistada permanentemente – disse Sem Medo. – Não te podes convencer que ela ficou conquistada no momento em que te aceitou, isso era só o prelúdio. O concerto vem depois e é aí que se vê a raça, o talento, do maestro. O amor é uma dialética cerrada de aproximação e repúdio, de ternura e imposição. Senão cai-se na rotina, na mornez das relações e, portanto, na mediocridade. Detesto a mediocridade! Não há nada pior no homem que a falta de imaginação. É o mesmo no casal, é o mesmo na política. A vida é criação constante, morte e recriação, a rotina é exatamente o contrário da vida, é a hibernação. Por vezes, o homem é como o réptil, precisa de hibernar para mudar de pele. Mas nesse caso a hibernação é uma fase intensa de autoescalpelização, é pois dinâmica, é criadora. Não a rotina. Evita a rotina no amor, as discussões mesquinhas sobre os problemas do dia-a-dia, procura o fundamental da coisa. Para ti, o fundamental é a diferença cultural entre os dois. Ainda não te livraste desse complexo. Ao falar dela, há uma admiração latente pela sua maneira de se exprimir, uma procura das suas frases, da sua pronúncia mesmo. No entanto, tu és mais culto que ela. Os teus estudos foram menos avançados, mas tens uma compreensão da vida muito superior. Ela conhece mais Física ou Química, mas é incapaz de compreender a natureza profunda da oposição entre os dois pólos do elétrodo e da sua ligação essencial. Tu pouco conheces de Física, mas és capaz de a compreender melhor, porque conheceste a dialética na vida. A tua ação na luta, em que estás a contribuir para transformar a sociedade, é um fato cultural muito mais profundo que todos os conhecimentos literários que ela tem. Vocês os dois podem completar-se, pois têm muito para ensinar um ao outro. Mas tu fechas-te no teu complexo, na consciência da tua incultura que, afinal, é só aparente; ela sente isso e considera-se intelectualmente superior, daí até ao desprezo só vai um passo. És tu que a levas a dar esse passo.

 

Estamos falando de um homem sensível e atento, dono de uma percepção aguçada a respeito do outro. Os mais entendidos na área da psicanálise certamente identificarão, inclusive, conceitos e interpretações freudianas em seus discursos, que não carecem de nomeações, no entanto, para atingirem de modo eficaz o leitor. O desenrolar das ações mostra que Sem Medo, via de regra, está certo nas suas interpretações do mundo. Assim, ele não apenas conquista os que se encontram a sua volta, no seu jeito discreto e reflexivo, mas também a nós, encantados com a honestidade de seus pensamentos.

A obra renderia ainda muitos outros caminhos de análise, que não caberiam neste texto. O importante é reconhecer o belíssimo trabalho feito por Pepetela em Mayombe a partir de uma realidade muito única do seu país. É nessa transição do particular para o universal que, em muitos casos, se revelam os grandes romancistas.