Baratas, de Scholastique Mukasonga

Baseado em suas memórias, Baratas, de Scholastique Mukasonga, apresenta o terror de um país dividido entre dois grupos e como o genocídio de 1994 se desenhou

Baratas não é um romance, antes um relato sincero sobre a vida da própria autora. Da infância e adolescência em meio a tensão étnica, o medo de massacres ocasionais aos tutsis, o exílio imposto, primeiro dentro do país, depois para o estrangeiro.

Assim, mesmo que não queria, Mukasonga apresenta um painel de um país dividido. A Ruanda da sua memória tem vários personagens e pessoas boas. No entanto, as figuras opressoras, que dividem e oprimem os inyenzis (baratas) sempre estão presentes.

Para a autora, lembrá-los é lembrar aqueles que perdeu em 1994.

 

Memória dos que morreram

A ideia de Baratas surgiu depois de que a autora retornou ao seu país em 2004. Passados dez anos do massacre contra os tutsis, no qual Mukasonga perdeu 37 familiares, ela retornou ao local onde seus pais viviam quando foram mortos.

A partir disso, da memória dos que já se foram, é que a autora escreve.

Mesmo compondo de forma linear, narrando desde o início da infância até partir para o estrangeiro, Mukasonga deixa clara a sua vontade de lembrar de todos que foram mortos e por quê.

De fato, a memória de tudo que aconteceu é o carro-chefe de Baratas. As perseguições étnicas, as dificuldades de uma vida incerta, a pobreza, a vida em família e a exclusão são os principais pontos dessa obra.

Baratas (Nós, 2018)

Pode parecer um livro cruel, porém não é o que temos. Em Baratas, Scholastique Mukasonga apenas relata o que viu e ouviu das pessoas que conheceu e do que pode colher na memória. Apesar dos horrores que acompanhamos, não é um livro cruel ou pesado. Parece que nunca foi a intenção da autora que assim o fosse. Antes, de não perder a memória daqueles que se foram.

 

Tutsis, as baratas

Ruanda, assim como o vizinho Burundi, é um país dividido primariamente entre dois grupos: hutus e tutsis. Apesar de semelhanças, físicas e culturais, a divisão entre eles se fez forte com o tempo.

Assim, após a independência, um governo hutu tomou o poder e seu ditador ajudou no controle e massacre ocasional das populações tutsis.

Mukasonga relata as constantes humilhações que ela, enquanto tutsi, foi obrigada a passar. Desde a perda das suas terras, o deslocamento para outra parte do país ao temor constante de ser assassinada pelos soldados do governo.

Baratas conta como é viver em um país de constante tensão étnica e como a autora conseguiu, quer por sorte quer pelo apoio da família, se salvar em meio ao caos. Portanto, seu relato abarca tudo: seus personagens, seus medos e preocupações, seus destinos.

Dessa forma, Baratas é um relato que transcende violência por todos os lados. Não há crueldade nas palavras de Mukasonga, claro. No entanto, em cada ação, em cada medo da narradora, vê-se a violência e o medo de uma excluída.

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Não esquecemos o passado

Baratas se põe lado a lado com outros livros de relatos de sobreviventes de outras grandes tragédias. Assim, não se deve negar ou diminuir o valor de seu relato. O genocídio de Ruanda, que matou por volta de um milhão de pessoas, deve ser lembrado, assim como o Holocausto.

Infelizmente, temos poucos relatos de algo tão atroz e tão próximos de nós (o genocídio aconteceu em 1994). No entanto, Baratas resgata a memória daqueles que foram mortos e não serão esquecidos, bem como a importância de uma parte da história africana contemporânea.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)