Tyler Durden e a raiva pelo diferente

O que Tyler Durden, protagonista d’O clube da luta, pode nos mostrar sobre a agressividade do nosso século e como as replicamos sem ao menos perceber?

Brad Pitt como Tyler Durden em Clube da Luta

Tyler Durden é um proto-fascista. Já afirmei isto alguns anos atrás ao falar sobre O clube da luta e a sua relação com o filme A onda. De fato, se pensarmos no que aconteceu na semana em que escrevo (massacre na escola de Suzano; ataques a mesquitas na Nova Zelândia), isso faz mais sentido do que nunca.

Pode parecer bobo, mas Tyler Durden é o protótipo do homem do século XXI. Se digo homem, para começo de conversa, é porque esse grupo tende a se sentir mais deslocado, principalmente quando pensa, de alguma forma, que não está sendo o centro das atenções.

Você pode conhecer algum Tyler Durden pela internet. Alguém que não se encaixa em algum grupo por uma ou outra razão e tende a demonizar o que não compreende ou não faz parte. Claro, esse sentimento não é anormal. Todos nós passamos por isso em algum nível e algum momento. No entanto, Tyler Durden transforma isso num motivo de revolta. Se ele não possui um sentimento de pertencimento, cria o seu próprio grupo de excluídos. O que poderia ser o fim de uma história clichê começa a tomar traços mais sinistros agora.

As pessoas do tipo Tyler Durden tendem a demonizar e querer submeter o diferente, tornando não um outro, e sim um inimigo. Nada que não entre na forma do que ele acha correto está errado, logo estará do outro lado. Essa equação simplista é bem mais comum do que imaginamos. Infelizmente, a diferença, em qualquer nível, tende a nos afastar, principalmente homens à la Tyler Durden.

Dizer que a violência é algo novo no mundo seria errado, mas a visão que temo dela, sim. Historicamente, ela tem sido evitada, mesmo que falsamente, pelo seu custo, seja financeiro, seja de vidas. Tyler Durden e afins gostam de elevá-la como a única forma de se viver. Não só em ações extremas como matar ou espancar o(s) outro(s) na rua, como também com agressões virtuais. Não por acaso, as redes sociais se tornaram o ambiente de encontro e ação de muitos deles. Isolados na sua insatisfação raivosa, gritando ao mundo que não tem o lugar que supõem merecer, o mundo que merecem ter, eles se unem como uma manada de trolls contra tudo e todos que não se encaixam nas suas regras – ou seja, qualquer coisa que não seja um reflexo deles.

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São autoritários e cruéis, gostam de público, de serem amados por este público, e de manipular as pessoas para a sua própria causa. O diferente se torna automaticamente estranho para Tyler Durden. Logo, deve ser expulso e exterminado. Existe uma tábula rasa de valores que deve ser preservada para ele, não importa a qual preço. Quando encontra outros igual a si, Tyler Durden dissemina essa ideia e encontra terreno fértil para tanto.

É irônico pensar que Brad Pitt talvez seja a melhor materialização do que Tyler Durden representa. Uma idealização de um mundo perfeito capaz de resolver os problemas à volta (não vai). Um homem forte e corajoso pronto para combater por uma causa maior (que não faz sentido). Enfim, uma ilusão da cabeça de um homem, normalmente branco entre 16 e 60 anos, que se sente insatisfeito com o mundo e com a vida e culpa os outros e não a si mesmo por isso.

Tyler Durden é um radical vazio como muitos hoje. Não que não sinta uma revolta dentro de si, e sim pelo fato de que sua revolta, se for pressionada, não encontra nada no fundo além de preconceito e do ódio ao outro. Procure perguntar ao Tyler Durden mais próximo de você por que ele se comporta assim e mostre as contradições em que ele vive para ver o que acontece. O mundo de Tyler Durden é plano e chato. Não há talvez, nem nuances. Ele só quer pertencer a algo, odiar alguém, uma pessoa, um grupo, uma ideia, e se sentir querido por aqueles que odeiam tanto quanto ele. Se for no conforto do anonimato, melhor ainda. Atrás da tela de um celular ou no anonimato da multidão vestida com a mesma camisa, Tyler Durden esbraveja sua raiva por não ser compreendido pelo outro sem ao menos querer compreender a diferença deles.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)