14 características do fascismo, segundo Umberto Eco

Umberto Eco descreveu catorze características marcantes do fascismo em O fascismo eterno que podem ajudar você a reconhecê-las

Umberto Eco sabe o que fala ao comentar sobre o fascismo. Italiano, nascido em 1932, ele viu e conviveu com o governo de Benito Mussolini. Assim, em palestra proferida na Universidade de Columbia, nos EUA, fez um resumo das catorze principais características dele.

Porém, antes de apresentá-las, Eco apresenta um panorama da sua infância num país fascista, tecendo comentários a partir da sua experiencia vivida e dos seus estudos.

Ele, por exemplo, afirma que

O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, um alveário de contradições.

Além disso, mostra a diferença entre ser conservador, fascista e reacionário – estes dois últimos tendo uma relação umbilical. Eco também demonstra como os diversos tipos de fascistas que existiam até então, por mais diversificados que fossem, tinham muitos laços em comum.

Para quem quer uma leitura mais completa do tema, é só procurar o texto O fascismo eterno, publicado no livro de ensaios Cinco escritos morais. Assim, poderá ter uma versão completa das palavras de Umberto Eco.

 

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1. Culto a tradição

Basicamente, a tradição aqui é superexaltada e pode ter cunho ocultista – como tinham os nazistas, por exemplo. Existe uma ideia de mensagem original perdida dessa tradição que precisa ser recuperada. Uma ideia de que não pode existir avanço no saber, de que a mensagem já foi anunciada, é o mote deste ponto.

 

2. Recusa da modernidade

Em uma palavra: irracionalismo. Tudo que remeta ao Iluminismo, à idade da razão, é considerado degenerado. A modernidade seria a culpada de boa parte dos problemas, pois trouxe tais ideias. A tecnologia, mesmo sendo usada e exaltada, nunca pode ser o centro.

 

3. Culto da ação pela ação

Aqui é mais fácil deixar o próprio Umberto Eco descrever o fascismo.

A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração na medida em que é identificada com atitudes críticas

Eco também lembra do pavor de regimes fascistas aos intelectuais pelo seu abandono dos valores tradicionais.

 

4. Rejeição do pensamento crítico

Pensamento crítico seria uma distinção, e distinguir, portanto, seria um sinal de diferença, de modernidade. Logo, o pensamento crítico não faz parte do vocabulário fascista.

 

5. Medo do diferente

Consequentemente, se não há pensamento crítico, não há diferença. Logo, se não há diferença, não há o diferente. Pelo contrário, regimes fascistas tendem a homogeneizar o todo e temer aqueles que não fazem parte dele.

 

6. Apelo às classes médias frustradas

Ele pode vir de várias formas: após uma crise econômica ou política, uma humilhação. É fácil ver este movimento em qualquer livro de História. Dessa forma, o descontentamento e o sentimento de desvalorização são o combustível para o (re)surgimento do fascismo.

 

7. Nacionalismo

Nem todo nacionalista é fascista, mas todo fascista é nacionalista – e também xenófobo. Há sempre um outro grupo, os outros, eles, aqueles que estão contra nós, aqueles que querem o nosso mal. Esses inimigos da nação podem ser externos ou internos, dependendo da necessidade.

 

8. Inveja

A contradição apresentada por Eco fica clara neste ponto. Se por um lado o fascista sente inveja da riqueza e força do outro, do inimigo, por outro sentem que podem derrotá-los. “Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais”, afirma Eco.

 

9. Estado de guerra permanente

A paz e pacifismo são conluios do inimigo. O fascista está sempre em guerra, ele necessita dela para existir e se manter assim. Contudo, se ele busca o extermínio do outro (e alcançar), ele se verá obrigado a viver em paz por não haver mais inimigos – mais uma grande contradição.

 

10. Elitismo

De origem aristocrática e reacionária, todos do grupo fascista são os melhores, os mais fortes e mais capazes – ao menos assim se apresentam. Não há espaço nem sentimentos pelos fracos nesse contexto.

 

11. Heroísmo

No fascismo, todos são educados e criados para serem heróis. Como são os melhores, obviamente não se espera menos deles. Cria-se uma mitologia em torno deste fato. Portanto, e não por acaso, a morte não é temida, e sim desejada. Morrer significa realizar o seu heroísmo – mesmo que isso significa levar muitos outros consigo.

 

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais

Não é difícil esperar o encontro do raivoso com o sexo – e por sua vez com o machismo. Eco afirma que o fascismo condena de forma intolerante hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade.

 

13. Populismo qualitativo

O fascismo lança dúvidas sobre o poder dos governos parlamentares de representar o povo. Eco diz que este é o primeiro sinal (ou o cheiro) de um representante fascista surgindo. A dúvida do desejo da maioria e da sua representatividade – que por sua vez lança esta sobre si – é um grande sinal.

 

14. Novolíngua

Eco resumo de forma simples e direta a questão orweliana.

Todos os textos escolásticos nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)