Ouse crescer e tornar-se criança com O Pequeno Príncipe

O pequeno príncipe normalmente é tratado como uma leitura leve para crianças. No entanto, uma leitura mais atenciosa pode revelar grandes surpresas

O pequeno Príncipe

Quem foi Antoine de Saint-Exupéry , autor de O Pequeno Príncipe?

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry nasceu no dia 29 de junho de 1900, em Lyon. Foi o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe, vindo a estudar no colégio jesuíta Notre-Dame de Saint Croix e no Colégio dos Maristas, em Friburgo, na Suíça. Escreveu os seguintes livros: O Aviador (1926); Correio do Sul (1929); Voo Noturno (1931); Terra dos Homens (1939); Carta a um Refém (1944); Cidadela (póstumo, 1948), e O Pequeno Príncipe – obra da qual trataremos aqui.

O Pequeno Príncipe já foi traduzido para mais de 250 idiomas, e não foi à toa. O livro trata de questões universais de maneira simples, porém profunda. É acessível a indivíduos de qualquer faixa etária, cada um alcançando diferentes aspectos de significação a partir das experiências próprias de vida.

Aliás, a experiência que inspirou Saint-Exupéry a escrever (e ilustrar) o livro parece ter sido um acontecimento traumático para o autor: em 1935, a aeronave que pilotava caiu no Saara, e ele passou quatro dias sofrendo de desidratação, fome e alucinações, até ser resgatado. Não teria nascido aí o romance O Pequeno Príncipe, no qual um piloto cai no deserto e é acordado por um estranho pedido: “Por favor, me desenha uma ovelha”?

Contexto de O Pequeno Príncipe

Assim, o livro foi escrito em 1943 e dedicado a Léon Werth, então morador da França ocupada pelos nazistas (a ocupação alemã na região se iniciara em maio de 1940 e iria se estender até dezembro de 1944). A referência a Leon, que “passa fome e frio e precisa ser consolado”, já demonstra não estarmos diante dum livro apenas para crianças. Estar num deserto correndo risco de morrer de sede não parece tema infantil, assim como a referência a um indivíduo vítima do Nazismo, feita logo na primeira página.

Portanto, ao longo de seus 27 capítulos, a obra abre espaço para múltiplos questionamentos. O personagem-narrador (o piloto que cai no deserto do Saara) nos fala de suas tentativas de desenhar quando tinha seis anos de idade, mostrando que os adultos nunca entendiam seus desenhos. Assim, ele acabara desistindo da pintura e entrando no mundo dos adultos, sem jamais se identificar plenamente com eles. Mas passou a fingir uma identificação: “Falava de bridge, de golfe, de política e de gravatas. E o adulto ficava satisfeitíssimo por ter conhecido um homem tão sensível”.

Sozinho no deserto, ele se encontra consigo mesmo e com a criança que recalcara dentro de si. O menino que surge ao seu lado, após a primeira noite que dorme na areia do deserto, veio do espaço e visitou diversos planetas antes de chegar à Terra.

Os planetas

Dessa forma, no capítulo 10, conhecemos uma terra habitada por um rei. Tudo que ele manda fazer, já seria realizado mesmo sem suas ordens. Tudo aquilo que proíbe, já não seria feito mesmo. É possível enxergar aqui uma crítica a nossa mania de acreditar na necessidade de governos. Para a sociedade fazer o que é necessário a ela própria, é preciso que alguém mande?

Noutro planeta, o Pequeno Príncipe conhece um homem de negócios. Este faz cálculos sem parar e não tem tempo sequer para acender seu cigarro, apagado há muito. Torna-se proprietário das estrelas, simplesmente porque ninguém antes se lembrou de reivindicá-las. Então ele as “deposita no banco”, ou seja: escreve, num papel, a quantidade de estrelas, depois coloca-o numa gaveta, que tranca com chave. Entretanto o homem de negócios não tem vínculo algum com sua “propriedade”, pois mal lembra que aqueles pontinhos luminosos se chamam estrelas.

Assim, conversando com o homem de negócios, o Pequeno Príncipe questiona o vínculo irreal com as coisas, estabelecido por simples formalização documental. Afirma: “…se eu tiver um cachecol, eu posso colocá-lo em volta do pescoço e levá-lo comigo. Se eu tiver uma flor, posso pegar a minha flor e carregá-la comigo. (…) Possuo três vulcões. Limpo-os todas as semanas (…). Assim, serve de alguma utilidade, tanto para os meus vulcões como para a minha flor, que eu os possua. Mas tu não és útil para as estrelas”.

O questionamento do conhecimento

Portanto, seria possível relacionar esses questionamentos com algumas teorias sobre o instituto da propriedade privada, como, por exemplo, as teses do anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), que afirmava que só é legítimo possuir aquilo que se usa de forma direta. Nesse sentido, em sua célebre obra O Que É a Propriedade? (1840), Proudhon escrevera que a posse é condição da vida social, enquanto a propriedade é o suicídio da sociedade. No livro O Pequeno Príncipe, não seria uma morte em vida o “proprietário” ficar sozinho num planeta só acumulando bens? É vida permanecer sem tempo para si e sem contemplar o universo a sua volta, universo belo e sem dono?

O conhecimento compartimentado e formalista também é questionado no capítulo 15, quando nos é apresentado um geógrafo que sequer conhece o próprio (e pequeno) planeta. Ele nunca sai de seu escritório pois se considera “importante demais para ficar dando voltas”. Tal tarefa é reservada exclusivamente aos “exploradores”, que lhe deveriam relatar tudo o que viram em suas viagens. Mas, como há falta de exploradores, o “importante” geógrafo nada faz pela ciência.

Há ainda o asteroide habitado pelo “vaidoso”, que só pede para ser admirado, apesar de isso não servir para nada. De forma análoga se comporta o “alcoolista” em seu planeta, onde se embriaga continuamente para esquecer da vergonha que sente em estar sempre se embriagando.

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Dessa forma, presos a comportamentos automáticos, irrefletidos, também estamos nós, habitantes do gigantesco planeta Terra, depois visitado pelo Pequeno Príncipe. Trata-se dum lugar cheio de adultos: pessoas sem imaginação, presas por hábitos, escravas de convenções, sempre complicando a vida. Que tal mudarmos este planeta nos tornando um pouco crianças e lendo (mais uma vez) O Pequeno Príncipe?

Winter Bastos Autor

Autor do livro de crítica literária Malandragem, Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto (Editora Achiamé, 2005). Em 2011, recebeu menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto – Prêmio Prefeitura de Niterói com "O Anão", posteriormente publicado. Em 2013, obteve menção honrosa no 7º Prêmio UFF de Literatura, com o conto "(Des)encontro", incluído em antologia publicada pela EdUFF. Em concursos de contos do Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói (CLARON) ganhou 1º lugar (em 2016), 2º lugar (2017) e 7º lugar (2018). No Concurso Literário Bram Stoker (contos de terror), foi contemplado com o 10º lugar em 2018.