Ensaio sobre a cegueira e como somos nossos próprios carrascos

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago nos apresenta a um mundo onde os nossos maiores carrascos são nós mesmos e nem ao menos percebemos
José Saramago, autor de Ensaio sobre a cegueira
José Saramago, autor de Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira é um grande romance, disto poucos duvidam. A jornada dos seus personagens pelo período da cegueira branca revela o que há de mais nocivo em nossa sociedade. No entanto, muitas vezes não discutimos alguns fatores óbvios sobre ela.

Primeiro, temos a cegueira social. A difusão do mal branco demonstra a desintegração de uma ordem social estabelecida. Com o avanço da situação, as instituições, principalmente o governo, não compreendem o problema principal (a cegueira branca), nem suas consequências: como lidar com os afetados, que medidas tomar frente à epidemia que se alastra, entre outros.

A questão deve ser resolvida, não importando os meios. Assim, a opção adotada é o isolamento de parte da população contagiada.

O poder excludente

Acompanhamos a jornada dos personagens sem nome, trancafiados num manicômio para o bem da maioria. Portanto, o governo, sem saber como agir frente ao desconhecido, prefere sacrificar e excluir parte dos seus.

É interessante notar que a população no geral não se opõem a esta ação. O governo usa do medo como instrumento de poder e dominação. Mesmo que o poder não seja ditatorial em Ensaio sobre a cegueira, ele coage a população até então infectada ao exílio dos seus, relegando-os ao isolamento, pois os trancafia num manicômio abandonado, isolados do resto do mundo.
De fato, não se vê nenhuma crítica por parte da população em relação a exclusão de parte dela mesma. Na verdade, o que se vê é o alívio de parte dela na esperança de que o problema se resolva de alguma forma.

Por certo, deve-se dizer o que ocorre: o governo aprisiona parte da população num lugar insalubre, cercado por forças militares como garantia de que não haverá fugas, na esperança de que a cegueira branca suma ou os afetados por ela morram.

O governo sem rosto no manicômio

Ainda, o governo se apresenta como algo sem nome. Seu único contato com os aprisionados se dá via mensagens por alto-falante.

“O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidémico de cegueira. provisoriamente designado por mal-branco – e desejaria poder contar com o civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio – supondo que de um contágio se trata. Supondo que não estaremos apenas perante uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis” (p. 49-50)

O incrível desta passagem é a mensagem excludente posta como algo positivo. Na verdade, na sequência desta fala, a voz do alto-falante diz:

“O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser. as responsabilidades que lhes competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações, um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional.” (p. 50)

Espera-se os infectados assumam um suposto fardo por terem sido infectados. Dessa forma, seu dever enquanto cidadãos deve ser o sacrifício e a exclusão do resto para o bem maior.

A ironia desta passagem repousa no seguinte fato: ninguém neste ponto faz ideia de como se dá a transmissão da cegueira branca ou como ela age. Portanto, em meio ao desconhecimento e ao medo, a exclusão serve como mecanismo lógico de combate ao desconhecido.

O exército e a prisão

Além, Saramago mostra outra faceta da humanidade: o poder pela força.

Os infectados são vigiados constantemente por soldados, que garantem que não haverá fugas. Portanto, é subentendido que qualquer tentativa de saída resultará no uso da força.

“Alto, voltem já para trás, tenho ordens para disparar, e logo, no mesmo tom, apontando a arma, Nosso sargento, estão aqui uns gajos que querem sair, Não queremos sair, negou o médico, O meu conselho é que realmente não queiram, disse o sargento enquanto se aproximava, e, assomando por trás das grades do portão, perguntou, Que se passa, Uma pessoa que se feriu numa perna apresenta uma infecção declarada, necessitamos imediatamente antibióticos e outros medicamentos, As ordens que tenho são muito claras, sair, não sai ninguém, entrar, só comida, Se a infecção se agravar, que será o mais certo, o caso pode rapidamente tornar-se fatal, Isso não é comigo, Então comunique com os seus superiores, Olhe lá, ó ceguinho, quem lhe vai comunicar uma coisa a si sou eu, ou você e essa voltam agora mesmo para donde vieram, ou levam um tiro”

É a primeira vez que encaramos a verdadeira face da humanidade. A sequência deste mesmo diálogo deixa isso claro.

“Vamos, disse a mulher, não há nada a fazer, eles nem têm culpa, estão cheios de medo e obedecem a ordens, Não quero acreditar que isto esteja a acontecer, é contra todas as regras de humanidade, É melhor que acredites, porque nunca te encontraste diante de uma verdade tão evidente, Ainda aí estão, gritou o sargento, vou contar até três, se às três não tiverem desaparecido da minha vista podem ter como certo que não chegarão a entrar, uuum, dooois, trêêês, ora aí está, foram palavras abençoadas, e para os soldados, Nem que fosse um irmão meu” (p. 69)

Os excluídos que se excluem em Ensaio sobre a cegueira

A certa altura, após a epidemia se alastrar pela sociedade, novos cegos chegam ao manicômio. A partir daqui, neste segundo momento de Ensaio sobre a cegueira, chegamos ao ponto mais crítico da obra.

Sendo os excluídos, espera-se que os cegos trancafiados ajam de forma a se ajudar de a sua situação. No entanto, o que ocorre é exatamente o contrário.

Com a chegada de novos afetados pela cegueira branca, cria-se subdivisões arbitrárias dentro em vários níveis. Pelo local em que se encontram, as camaratas, e subgrupos dentro delas.

Não há cooperação ou ajuda pelos afetados, pelo contrário. As rivalidades logo sobem ao ponto de que uma das camaratas toma o poder, roubando todo o alimento.

O que se segue é o ponto mais baixo. A camarata que roubou o alimento mostra as suas intenções. Primeiro pedindo dinheiro e bens materiais – mesmo que ali dentro tais objetos não façam nenhum sentido.

Uma vez que terminada o primeiro saque, eles exigem mulheres para fazer sexo em troca de comida. Não gostaria de focar na discussão moral que há neste ponto, por mais importante que ela seja. De fato, apenas uma cena abaixo e deixo que você tire suas próprias conclusões.

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“Chupa, disse ele, Não, disse ela, Ou chupas, ou bato-te, e não levas comida, disse ele, Não tens medo de que to arranque à dentada, perguntou ela, Podes experimentar, tenho as mãos no teu pescoço, estrangulava-te antes que chegasses a fazer-me sangue, respondeu ele. Depois disse, Estou a reconhecer a tua voz, E eu a tua cara, És cega, não me podes ver, Não, não te posso ver, Então por que dizes que reconheces a minha cara, Porque essa voz só pode ter essa cara, Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupas, ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão, vai lá dizer-lhes que se não comerem é porque te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contares o que sucedeu.”

Entretanto, quando se pensa que a desumanidade da cena já chegou ao limite, vê-se que ela pode se alongar e ficar ainda mais cruel.

“A mulher do médico inclinou-se para diante, com as pontas de dois dedos da mão direita segurou e levantou o sexo pegajoso do homem, a mão esquerda foi apoiar-se no chão, tocou nas calças, tacteou, sentiu a dureza metálica e fria da pistola, Posso matá-lo, pensou. Não podia. Com as calças assim como estavam, enrodilhadas aos pés, era impossível chegar ao bolso onde a arma se encontrava. Não o posso matar agora, pensou. Avançou a cabeça, abriu a boca, fechou-a, fechou os olhos para não ver começou a chupar.”

Como somos nossos próprios carrascos

Thomas Hobbes, em O leviatã, usa o termo bellum omnia omnes, a luta de todos contra todos. Assim, ele afirma que a necessidade de um contrato social se faz necessária para coagir esse traço natural da humanidade.

Em Ensaio sobre a cegueira, o que vemos é isso. Em nenhum momento, sejam os citados acima ou outros, temos a realização por parte dos personagens de que não estamos agredindo outros além de nós mesmos. Infelizmente, o que vemos é como os personagens estão cegos pelos seus desejos mais primitivos.

Portanto, somos nossos próprios carrascos desde o início da Ensaio sobre a cegueira. Não conseguimos lidar com a situação de forma humana sem ser por meio da exclusão. O padrão de nos excluirmos da equação, mesmo quando somos os principais afetados, se mostra constante.
Enfim, ideias como as de Eric Hobsbawn em A era dos Extremos devem sempre ser retomadas.

“Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até esse ponto e por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.”

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A análise de Ensaio sobre a cegueira feita acima se baseia no meu tcc sobre o romance. Assim, caso interesse alguém uma leitura mais aprofundada sobre o tema, o arquivo, em pdf, está disponível gratuitamente clicando aqui.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)