Saramago e a pergunta: vivemos hoje o mito da caverna?

Um grupo de pessoas vive preso dentro de uma caverna escura. Diariamente, essas pessoas veem sombras projetadas nas paredes de objetos carregados pelos outros. Elas acreditam que aquilo é a realidade. Até que um dos prisioneiros, desconfiado, resolve se libertar das correntes que o prendem e sair da caverna. Assim que sai, ele é iluminado pela luz do sol, à qual seus olhos demoram um pouco para se acostumar. Maravilhado com suas descobertas sobre o mundo lá de fora, ele volta para contar aos colegas o que viu. Muitos não acreditam e o desprezam, porém alguns o acompanham rumo à liberdade.* Conseguiu identificar a história? Sim, trata-se do Mito da Caverna, desenvolvido pelo filósofo da Antiguidade grega Platão. Ok, e o que isso tem a ver com literatura?

Pensemos primeiramente nas interpretações do mito. Se tomamos a caverna como uma metáfora para a ignorância, as sombras projetadas na parede são as ilusões ou visões superficiais que possuímos da realidade. O prisioneiro que sai da caverna e enxerga a luz é o filósofo, que busca o conhecimento como libertação. Não é preciso entender filósofo apenas como aquele que trabalha diretamente com a filosofia e suas teorias, podemos adotar uma classificação mais generalizada: o homem que pensa, que reflete sobre as coisas e desenvolve um pensamento crítico. O homem que lê.

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‘A caverna’ é um dos livros de Saramago que fala sobre esta alegoria

José Saramago, em uma entrevista, declarou: “Hoje é que estamos a viver, de fato, na Caverna de Platão, pois as imagens que nos são mostradas da realidade, de certa maneira, substituem a realidade”. O escritor português faz uma crítica à linguagem audiovisual, dominante na contemporaneidade. Se não tomamos o cuidado de filtrar aquilo que assistimos, podemos acabar acreditando nas sombras dos objetos e ficando presos na caverna. Se não procuramos ler, debater, refletir, ouvir pontos de vista diferentes, ficamos limitados à escuridão da nossa própria ignorância.

A literatura liberta. É uma maneira de ler e sentir o mundo. Saramago, na mesma entrevista, ressalta a importância de uma pausa para respirar, olhar as flores, por exemplo, e observar seu crescimento. Num mundo em que somos bombardeados por informações de todos os tipos e pressionados a realizar as mais diversas tarefas, enfrentando uma rotina dinâmica, muitas vezes maçante, corremos o risco de perder as emoções mais preciosas e os pensamentos mais instigantes. Sem tempo para devaneios “inúteis”, corremos o sério risco de perder de vez a nossa sensibilidade e o nosso discernimento. Viramos máquinas, seres passivos, crentes, submissos, apáticos. A literatura ajuda a resgatar a nossa humanidade latente.

No vídeo da entrevista com Saramago, há também comentários de um psicólogo americano, que reitera a importância do ritual de contar histórias. Uma criança que pede para ouvir uma história antes de dormir (apesar de eu ter as minhas dúvidas se isso ainda existe), por exemplo, não está tão interessada no enredo da história em si, mas na potência criativa da ficção, que estimula a imaginação e o raciocínio. Somos feitos de histórias. De carne, osso e pensamento. Não devemos desperdiçar nosso potencial vivendo das sombras do que poderíamos ser.

Claro, a leitura é um ótimo caminho para o conhecimento, a ampliação dos horizontes, a reflexão crítica, etc. Você provavelmente já sabia disso. Você, nós, derivados do Homo Literatus. Então, vamos sair da caverna e perpetuar a raça.
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* Há versões em que o prisioneiro que saiu da caverna é assassinado por seus companheiros na volta, pois condenam os absurdos que ele diz.

Referências:

COELHO, Cláudia S. A Caverna de Platão: Um diálogo entre filosofia e literatura. In: Revista Conhecimento Prático Literatura – nº 52. Editora Escala.

Nicole Ayres Autor

É graduada em Letras port/francês pela Uerj. Apaixonada pelas palavras, desde que aprendeu a ler e a escrever, não parou mais. Amante da vida e das artes. De espírito quixotesco, ainda vai aproveitar a experiência de suas aventuras literárias para explorar o mundo. Mantém os pés no chão e a cabeça nas nuvens.