“O poeta e o fantasiar”: do fingidor ao olhar freudiano sobre a escrita

Qual seria a função do poeta ao pensar e produzir a sua poesia? Estaria ele fantasiando ou de fato sentindo o que escreve?

poeta Fernando Pessoa

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”

O poema pessoano Autopsicografia, como o título nos indica, é obra que busca retratar aspectos psíquicos de um eu-lírico, neste caso, poeta.

Ao refletir sobre seu ofício, o eu-lírico assume que sua missão é fingir. Chega a enganar tanto e tão bem, que finge ser fingimento aquela dor que na realidade sente. Disfarça seus sentimentos em sua arte talvez?

Analisando este poema metalinguístico, somos levados a questionar o material do poeta. Com o que trabalha ele afinal? De onde viria sua inspiração?

Fernando Pessoa foi autor multifacetado. Ele precisou se transbordar em inúmeros heterônimos – outros eus também poetas, mas com vidas totalmente independentes e diferentes da dele. Dessa forma, ele vislumbrava apreender sua profusão interior, tangenciar a compreensão dela e transpor para o papel todas as dores que sentia sendo um só.

O fingimento do eu-lírico poeta de Autopsicografia se denuncia ao assumir que chega a fingir que é fingimento uma dor que o assola na verdade.

Ao fim, parece-nos lícito inferir que o material do poeta, para além de depender somente de sua criatividade, brota, em seu cerne, dele mesmo. E como poderia ser diferente se, como seres no mundo, sentimos com o mundo, carregamos nossas vivências e as reverberamos em nossas ações?

O que a psicologia pensa?

A breve interpretação dessa primeira estrofe do poema, datado de 1931, nos conduz às reflexões feitas por Freud em texto de 1908: O poeta e o fantasiar. Aí, o pai da psicanálise se debruça sobre o material da Literatura, faz uma reflexão sobre a fonte de onde bebe o poeta para criar.

Antes, todavia, e para uma melhor compreensão, faz-nos retornar às experiências iniciais de vida que temos com o mundo da fantasia.

Fantasiar é parte da condição humana.

O material da arte vem do mundo real, daquilo que se conhece. Ela se ancora na realidade, nela se inspira, tentando apreendê-la melhor e realizar, talvez, em um mundo paralelo aquilo não se consegue fora dos livros.

Para Freud, só fantasia aquele a quem a realidade não basta: “quem é feliz não fantasia”.

Para que serve, afinal, criar mundos de sonhos?

Dentro da vasta pesquisa freudiana sobre a psique, no contexto dos desejos, a fantasia se torna então matéria de estudo. Em O poeta e o fantasiar, Freud nos abre a percepção para um dos mais relevantes papéis da Literatura: fantasiar é uma forma de manter vivo o sonho!

Enquanto crianças, brincamos descaradamente diante de qualquer pessoa. Fantasiamos a sério, pois brincadeira de criança é coisa séria. Seu oposto é o mundo real.

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Um dia, porém, essa brincadeira vai deixando de fazer sentido até cessar completamente.

Já crescidos e tendo virado as costas ao mundo lúdico, resta-nos, seres humanos em sociedade, uma vida de seriedade – repleta de trabalho e prazos a cumprir.

Freud observa, porém, “que nada é mais difícil do que renunciar a um prazer que um dia foi conhecido” e, como saída, passamos a recorrer aos sonhos diurnos. Eles nos possibilitam obter novamente aquele contentamento antes conseguido através do brincar infantil.

As fantasias do adulto são um substituto para suas brincadeiras de outrora. Mais difíceis de perceber, no entanto, pois, em geral, são escondidas: temos vergonha de nossos delírios acordados, mas todos fantasiamos.

Em suas brincadeiras, a criança motiva-se pelos seus desejos, em especial pelo desejo de ser grande. O adulto, no fantasiar diurno, move-se igualmente por desejos ocultos que ele considera que não deveria mais apresentar, agora que já cresceu.

Desejos são o material dos nossos sonhos, quer durmamos, quer estejamos acordados. A fantasia vem corrigir uma realidade inadequada, infeliz. Ela é a salvação do quotidiano que esmaga o adulto.

Já o poeta é o sonhador acordado que é capaz de fazer criações artísticas a partir de seu fantasiar. Suas obras são a realização de seus desejos.

Arte da escrita, prazer da leitura

Nem todos dão para escritor na vida, haja vista o que Freud denomina de ars poética – aquele trabalho que é necessário ter com a palavra, a fim de se associar forma e conteúdo.

Se uma pessoa comum qualquer nos conta seus sonhos diurnos, não sentimos aí nenhum tipo de deleite. O fantasiar acordado só deleita o próprio ser que fantasia.

Sendo assim, como podemos sentir prazer em ler obras que não retratam nossos próprios sonhos? Se as criações servem de válvula de escape à necessidade de fantasiar de outrem, como nelas nos realizamos?

Aqueles que leem as obras literárias, mesmo vendo ali realizações de desejos que não são exatamente os seus, podem ser tocados e sentirem prazer com o texto: é a fruição que, segundo o autor, vem da libertação das tensões de nossa psique.

Seguindo pela mesma direção reflexiva, temos o que se coloca na segunda estrofe de Autopsicografia:

“E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que ele não tem.”

Nela, o eu-lírico deduz que os leitores se sentem reconfortados ao verem retratado um sentimento que não necessariamente é o do poeta ou o que a voz que fala no poema simula sentir: a obra os leva a uma interpretação única. Forma e conteúdo tocam cada ser que lê distintamente, levando a significações que partem de suas vivências.

Para finalizar estas linhas, transcrevemos a última estrofe do poema. Nela, razão e emoção são contrapostas, como parte do ofício de ser um fingidor (poeta):

“E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”

Dri Calderaro Autor

Uma curiosa da palavra escrita, contada, cantada. Leitora e questionadora incurável. Formada em Letras, especializada em Literatura. Amante de Filosofia e Psicologia.