O futuro sombrio do Brasil segundo Ignácio de Loyola Brandão

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Em “Não verás país nenhum”, Ignácio de Loyola Brandão retrata o futuro de um Brasil que já é.

As ameaças do futuro atual

Temperatura escaldante. Bolsões de calor assassinos. Ar irrespirável. Nascimento de pessoas deformadas. Doenças e pragas desconhecidas. O mar é preto e estático. Não há mais rios, ou plantas alguma. Nem animais, a não ser alguns insetos e ratos. Não há mais empregos de verdade. Livros e jornais foram banidos. Não se deve criticar os governantes. Não se deve falar da crise para não atrapalhar os governantes. Professores foram cassados. Cientistas foram cassados. A história foi reescrita. O ensino se torna estritamente técnico. Militécnos” dominam o poder. “Civiltares” controlam a população.

O parágrafo acima serve de resumo para Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. A partir desses elementos, diversas questões são abordadas, desde as mais amplas às mais pessoais: as consequências do desmatamento e do aquecimento global, o esgotamento da água, a escassez de alimentos, o surgimento de novas doenças, a disputa de classes , o desemprego, a exploração do país pelos povos estrangeiros, a liberdade de imprensa e de conhecimento, o apagamento e a reescrita da história, a corrupção do sistema governamental, a solidão, a falta de sentido da vida.

Seria uma mera coincidência qualquer semelhança com ameaças atuais?

Um furo na mão, outro no sistema

A ideia inicial de Não verás país nenhum nasceu do conto de Loyola intitulado “O homem do furo na mão”, que integra a coletânea Cadeiras proibidas (1976)Pelo sucesso da história, o personagem principal e algumas das circunstâncias que o cercam foram retomados e desenvolvidos no romance, publicado em 1981.

No livro, é o próprio protagonista quem nos conduz pela narrativa. Souza é um funcionário público que exerce há alguns anos uma função inventada e desnecessária. Originalmente, ele era professor de História em uma universidade (antes de o ensino se tornar técnico, quando anda havia professores, universidade e pensamento livre), mas foi aposentado compulsoriamente pelo “Esquema”, organização autoritária que passou a governar o Brasil.

Certo dia ele é tomado por uma coceira estranha na palma de uma das mãos, acompanhada de uma vermelhidão que se assemelhava a uma picada de inseto. Depois de algum tempo, observa que aquela sensação incômoda lhe havia feito surgir um buraco na mão! Isso mesmo: um buraco perfeitamente redondo e cicatrizado.

A partir desse insólito acontecimento, a cabeça se lhe vai abrindo também. O “furo” não parecia ser na mão, pois vemos que Souza vai mudando seu comportamento. Seria um código, quem sabe um símbolo de uma insurreição contra o “Esquema” que dominava, terceirizava e sucateava o que restara do Brasil?

Este homem vai rir se eu disser que minha cabeça se abriu a partir deste furo na mão. Às vezes olho para ele e penso que não existe. Não está aí. É um produto de minha alucinação. Do sol sobre a cabeça.”

Seria aquela deformação mais uma das doenças estranhas, fruto dessa realidade apocalíptica em que Souza é obrigado a viver.

Predições drasticamente acertadas

E a realidade em que Souza é obrigado a viver é de um Brasil já despedaçado, retalhado e reduzido tão somente a uma São Paulo escaldante, onde nunca chove, com toda a comida proveniente de laboratório, com água reciclada a partir da urina e cuidadosamente racionada, e cidadãos dopados para não se revoltarem contra aquele estado de coisas causado pela ganância humana.

Souza, agora um deformado pelo advento do furo, vê-se converter em uma pessoa rejeitada socialmente. Perde seu emprego, a única coisa que lhe garantia um lugar naquele arremedo de sociedade. Começa a se mostrar uma pessoa incômoda, inquieta, que cada vez mais expressa seus questionamentos sobre a realidade em que vive. Com o tempo, perde a esposa. Capítulos à frente, perde o apartamento.

O protagonista passa, então, a vagar como um andarilho pela cidade, impulsionado pelo acaso. Mantém contato com os pobres, os enjeitados e, aos poucos, vai descobrindo que aquilo que se passa no restante do Brasil é infinitamente pior do que a realidade da capital São Paulo.

Parte do território nacional havia sido vendido para a exploração de fora. Os povos dessas terras ou conseguiam trabalho nas novas indústrias estrangeiras ali instaladas ou fugiam para São Paulo – onde, porém, jamais conseguiam entrar.

Em meio a esse cenário trágico, tinham de enfrentar ainda as temidas regiões de quentura – os bolsões de calor, que surgiam com o nascer do dia e incineravam instantaneamente qualquer ser vivo que caísse dentro da área deles.

Ao longo do enredo, Souza vai sendo impulsionado em meio a uma atmosfera sufocante até finalmente conseguir se abrigar sob as Marquises Extensas, uma obra gigantesca construída para acumular a imensa massa de pobres famintos que tanto incomodavam a sociedade e o “Esquema”.

A essa altura, a história se encaminha para um final aberto e desesperançoso. Percorremos com Souza todo aquele enredo sufocante e saímos dele atordoados pela falta de perspectivas.

Em que medida a atmosfera ficcional engendrada pelo escritor pode nos assombrar hoje?

Ficção e realidade

Em 1981, quando da publicação de Não verás país nenhum, pouco se falava sobre as questões ecológicas. À época, os recursos naturais eram tratados como fontes inesgotáveis. Mas como podem os recursos serem infinitos num planeta finito?

Exatamente como no livro, naquela década os cientistas e os ativistas que ousavam levantar temas como “aquecimento globaledesmatamentonão eram levados a sério. E, na obra, Inácio de Loyola escreve:

Cientistas. Categoria mínima, marginalizada. Numa fase quase pré-histórica, o povo era alheio aos seus avisos.

Assim, a história criada pelo autor foi tomada como mero “universo ficcional absurdo”, jamais viável no plano da realidade. Supunha-se que o homem nunca levaria o planeta a tal ponto.

Na história, no entanto:

“Mais tarde, o Esquema percebeu a situação, manipulou jornais e televisão e fomentou a ironia. Foi quando se difundiu amplamente a expressão galhofeira paranoia científica”

Agora eis-nos

Três décadas depois da publicação do livro, aqui estamos. Lendo essa obra hoje, cada detalhe nos assombra. Trememos diante das semelhanças tão evidentes com ameaças atuais no campo climático (e até mesmo no político).

Atualmente, além dos cientistas, pessoas comuns como a menina sueca Greta Thumberg levantam também suas vozes para os perigos da exploração descontrolada dos recursos naturais. Greta viajou pelo globo todo para dar visibilidade à pauta do clima e é a personalidade atual mais forte pelo direito de as gerações futuras herdarem da atual um planeta preservado. Em contrapartida, há muitos que, por interesses maiores, criticam a causa ambiental e, assim como na história do homem do furo na mão, tentam diminuir e ironizar o tema.

Em 2020, constatamos que, a depender de como se encaminharem os esforços conjuntos pela ecologia, tão entranhados às decisões daqueles que comandam as naçõestalvez seja viável a possibilidade de não mais vermos país nenhum em um futuro não tão distante.

Comentários do Editor

Não verás país nenhum é um dos livros mais magistrais já escritos no mundo e demonstra claramente a típica predição do real que só se acha na escrita de escritores que refletem com acurácia o seu próprio tempo. 

As referências são inúmeras, um antagonismo enorme ao Brasil um país do futuro, do Stephan Zweig, um paralelismo belíssimo à atmosfera desesperançosa e sarcástica às falácias cívicas de um país corroído, típicas de um Vaca de nariz sutil, do Campos de Carvalho, uma demonstração de um êxodo rural sofrido de lugar nenhum a lugar nenhum típica de um Vidas secas, do Graciliano Ramos e um desespero típico dos dias atuais.

A acurácia do acerto de Brandão é louvável, basta olhar em volta e basta clicar em cada link expresso no correr desse belíssimo texto da Dri Calderaro.