CINE DRIVE-IN: acaso o cinema é feito só para motorizados?

Por acaso o cine drive-in, como alguns dizem, é mesmo uma forma de democratizar o acesso ao cinema em meio à Pandemia do Covid-19?

“É só equilibrar sua cabeça em cima do corpo
Procure antenar boas vibrações
Procure antenar boa diversão”

Antene-se, Nação Zumbi.

O cinema e a pandemia

Durante toda a sua construção, desde o finalzinho do séc. XIX, o cinema deixou de ser apenas uma forma de lazer e se tornou uma parte importante da cultura. A integração entre o lúdico e o sentimento de comunidade é uma das coisas mais poéticas que uma sala de cinema pode proporcionar. No entanto, é justamente o cinema um dos estabelecimentos da industria cultural mais afetados pela Pandemia do Covid-19, tendo em vista a impossibilidade de manutenção de grandes públicos em espaços fechados e refrigerados, típicos das salas de cinema, dada a possibilidade de contaminação.

Razão disso, as plataformas de streaming têm sido consideradas atualmente como a nova perspectiva de salvação do acesso ao cinema. No entanto, parece muito claro que o cinema visto de casa a partir de plataformas de streamings se torna uma espécie de fast food. O cinema, mesmo, não é isso. As pessoas se preparam para ir ao cinema, de modo que a coisa em si é tanto a arte, quanto o estabelecimento, quanto o costume social e a própria magia de ver filmes em companhia de dezenas de estranhos, com ou sem beijos na boca, numa sala escura combinada com pipoca e refrigerante.

Há, então, solução aos cinéfilos que amam a sensação de ver a arte nas telonas?

Resgatando o cine drive-in, mas e a segregação, parceiro?

Entre as décadas de 1960 e 1970 o Brasil importou com grande intensidade o modelo de cine drive-in, bastante difundido pelo imaginário dos filmes de Hollywood da época e do boom da indústria automobilística. Esse modelo, no entanto, parece ter perdido força no decorrer do tempo.

Todavia, com a chegada da pandemia do COVID-19 e as consequências de medidas sanitárias para controle da doença, os projetos desse estilo vêm experimentando um reaparecimento vertiginoso, agora sob o argumento de “entretenimento seguro”, no entanto, o que ninguém fala a respeito é que esse tipo de programa, ainda que sirva para salvar, de alguma forma, a indústria cultural dos cinemas, parece alargar ainda mais o abismo do acesso à sétima arte.

Num país tão desigual como o Brasil, no qual o carro não é um bem acessível a todos os cidadãos, essa modalidade se torna extremamente excludente. Não é à toa que, além da segregação gerada pela necessidade de ter um cargo para ter acesso, os ingressos para esses cinemas podem chegar a R$100,00 por carro nos lugares de exibição, o que é cerca de 10% de um salário mínimo.

Antes da pandemia, a distribuição do acesso que a população podia ter às salas de cinema já não possuía um custo baixo, tendo em vista que nenhum cidadão gastaria menos de R$50,00 em todo o processo de ida a um cinema – lembrando que estamos tratando de um país onde o salário mínimo sucumbe no pagamento das contas de praxe para a manutenção das casas, ficando muito abaixo de um valor necessário à sobrevivência.

Segundo Stuart Hall:
“as indústrias culturais têm de fato o poder de retrabalhar e remodelar constantemente aquilo que representam […] de forma a ajustá-las mais facilmente às descrições da cultura dominante”.

Nesse mesmo sentido, já alertavam Gilles Lipovetsky e Jean Serroy:

“Cada vez mais a arte aparece como uma mercadoria entre as outras, como um tipo de investimento de que se espera alta rentabilidade”

No caso, a geração de valor continua sendo uma máxima a ser explorada pelo sistema, o que perpetua as desigualdades no acesso à cultura.

É dessa forma que o sistema age, mesmo em pandemias. O consumo se reinventa e se mantém conectado à nossa vida. As mediações dos fenômenos adaptam os mercados, o que Slavoj Zizek chama de “animismo capitalista”.

Para além da habilidade do sistema econômico de se reinventar na busca de um consumismo inacabável, onde fica o fenômeno da inclusão social? E mais, onde fica a preocupação com uma “economia do bem comum”, dentro de um panorama pandêmico, como o atual?

Alternativa há: ver cinema da janela

Há salvação. Projetos de exibição de filmes usando fachadas de prédios e telas infláveis em algumas cidades do Brasil têm trazido o cinema para as varandas dos brasileiros que não podem ir ao cinema, em razão da pandemia, e que muito menos alugarão carros na Movida para fazê-lo. Um exemplo desses projetos é o “Cine Janela”, de Salvador.

Em um ponto do bairro Dois de Julho, as cineastas Jamile Coelho e Cíntia Maria e o gestor cultural Chico Assis – que são vizinhos – resolveram se juntar para transformar grandes paredões da cidade em salas de cinema a céu aberto. E isso no intento de unir as pessoas de forma gratuita em volta da ideia de cinema. Aquela de que falamos lá no início. Ao mesmo tempo em que garantem o necessário afastamento social dos novos tempos pandêmicos.

Além disso, preocupados com a paisagem democrática necessária aos bairros das cidades, os filmes são exibidos com legendas. Isso para que aqueles que não desejam assistir à exibição não se sintam perturbados com o som. Quem, no entanto, não gosta de cinema mudo, recebe da equipe do projeto, o áudio via rede social.

A iniciativa exibe longas e curtas metragens, vídeos, poemas, textos e charges. Tudo isso em uma “rede colaborativa e voluntária de projeção de afetos cinematográficos durante a quarentena”.

O Cine Janela se assemelha bastante a iniciativas como o projeto Windowflicks, que também anima a vida cultural berlinense. Duas vezes por semana, Olaf Karkhoff e sua equipe montam projetores e equipamentos de som na varanda de algum morador. E assim os vizinhos podem assistir a filmes como “Adeus, Lenin” ou “Loving Vincent”.

Vê-se, portanto, que há alternativas, para que o cinema como arte e como ideia continue em nossas vidas, mesmo em tempos pandêmicos. E essas alternativas não tem necessariamente que envolver mercado e alto padrão financeiro.

A arte é social demais pra ser de poucos

A arte não é para poucos, é para todos. Numa pandemia global em que as pessoas mais necessitadas de todo o mundo são as mais afetadas, a preocupação de uma sociedade que se preze deveria ser auxiliar o máximo de pessoas possíveis, do mesmo modo, garantir o acesso à arte e, também, ao cinema, ao maior número possível de pessoas e, sobretudo, àquelas que mais sofrem com os efeitos da pandemia.

Assim, iniciativas como o Cine Janela, no Brasil, ou o Windowflicks, na Alemanha, merecem todos os méritos.

Sobre o cine drive-in, que exista e quem desejar pagar a experiência que pague. Só não podemos encarar esse tipo de inciativa como “alternativa ao isolamento social”, ou “garantia de acesso à arte”, como muitos tentam pintar por aí afora. Essa pintura segregacionista, já está gasta.

Algumas referências

HALL, Stuart. Notas sobre a desconstrução do “popular”. In: Da diáspora: identidades emediações culturais. Liv Sovik (org); trad. Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003.p. 247- 264

LIPOVETSZKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo. Viver na era do capitalismo artista. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 46.

Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
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