Romance de Alex Andrade é, ao mesmo tempo, social e existencial

Antes que Deus me esqueça, de Alex Andrade, apresenta situações sociais que são recorrentes na realidade brasileira, mas que muitos insistem em não representar
Alex Andrade, autor de Antes que Deus me esqueça
Alex Andrade, autor de Antes que Deus me esqueça

Estudiosos da literatura brasileira contemporânea, como Beatriz Resende e Schollamer, têm apontado que a nossa produção literária tem enfrentado temas que até poucos anos eram tabus, ou assuntos indignos de serem apresentados na arte literária. Temas como violência, estupro, tráfico de drogas, prostituição e vícios e crimes diversos têm cada vez mais surgido nas obras contemporâneas, buscando e até problematizando aquilo que temos de realidade, quebrando o mito de um país cordial e lisonjeiro em que tudo é belo ou tem um final feliz.

Antes que Deus me esqueça, romance do carioca Alex Andrade, publicado pela Confraria do Vento, é uma dessas obras que abordam temas sociais e ao mesmo tempo existenciais, apresentando assuntos e fatos que podem ser vistos como desagradáveis por um leitor mais conservador.

Joaquim, ou Joca, o personagem principal e narrador nos apresenta sua vida, formada por uma sucessão de armadilhas e tragédias desde o dia em que foi concebido. Joca é fruto de um estupro e é parte de uma família pobre e religiosa, que não aceitou a gravidez de sua mãe.

Sobre o romance de Alex Andrade

O romance, dividido em três partes, conta a vida do personagem principal e também de sua mãe. No início, temos Joca preso. Sua narrativa dá saltos ao passado, apresentando momentos antes mesmo de seu nascimento. Conta a história de vida de sua mãe, Joana, as dificuldades enfrentadas por ela e sua família, que lavavam roupas para garantir o sustento de cada dia.

As dificuldades não param só na questão de sustento, Joca, como mencionado, é filho de mãe solteira. Joana, apontada na narrativa como negra, gorda, feia, uma mulher pela qual os homens não se interessavam, sofreu com um tremendo ato de violência e machismo brutal e acabou engravidando. A família não aceitou a gravidez e a vizinhança se escandalizou com o acontecido. Joana foi posta para fora de casa.

Assim começa a saga de Joca e sua mãe pela busca de uma vida digna no subúrbio do Rio de Janeiro, enfrentando preconceito, olhares machistas e acusadores. A partir daí, o narrador-personagem nos conta sobre sua infância, adolescência e vida adulta. Fases todas conturbadas, marcadas por violência e por um fanatismo religioso que separa famílias e destrói lares.

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Além da temática do machismo, sempre ao lado de atos violentos, e do fanatismo religioso, há outras temáticas que surgem na obra de Alex Andrade, mas não como mero pano de fundo, uma vez que se tratam de situações que compõem, de fato, a vida de Joca. São elas: a violência policial, o autoritarismo, tráfico de drogas e o vício por estas, jogo do bicho e o questionamento existencialista sobre a existência e o amparo de Deus.

A literatura de Alex Andrade é poderosa, pois consegue, em uma só obra, apresentar situações sociais que são recorrentes na realidade brasileira, mas que muitos insistem em não representar. Não só sua produção literária é importante no sentido temático, mas também no que diz respeito aos personagens e à linguagem.

Os personagens são aqueles que estão excluídos, em grande parte das vezes, tanto do convívio social quanto da literatura. Mães solteiras, filhos de estupro, mulheres negras e homens negros, traficantes, trabalhadores comuns, entre outros. Por sua vez, a linguagem aponta a realidade mesclando o narrativo e o poético, de modo ágil, cortante e até doloroso.

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela