O último dia, de T. Villela

O último dia narra uma história que reflete sobre as aspirações e problemas das redes sociais, além de um cenário distópico altamente reconhecível

O último dia, de T. Villela,

Daniel, o narrador de O último dia, de T. Villela, é um homem ressentido e amuado com a vida. Seu emprego numa grande empresa de tecnologia faz com que ele trabalhe com redes sociais e fique remoendo o fato de que a vida hoje se resuma a expor o que feliz que não existe. Não por acaso, ele lembra em muitos momentos o narrador de Memórias do subsolo, de Dostoiévski, com seu ressentimento por tudo e todos. Em outros momentos, as visões de Tyler Durden, de O clube da luta (como outras coisas), dão as caras na fala de Daniel.

A trama se desenrola quando Mario, irmão de Daniel, funcionário de uma empresa farmacêutica, descobre um segredo que mudará não apenas a história – e os lucros – do seu trabalho, mas também do mundo: o biogeno. Em resumo, isto seria um tratamento com o qual pessoas poderiam envelhecer aparentar a idade que têm, e melhor, quem já possui uma idade avançada poderia retornar à aparência da juventude.

A possibilidade de morrer com a aparência jovem muda completamente o funcionamento da sociedade. Se antes sabíamos quem eram os mais velhos pela aparência, agora isto se desfaz. Podemos encontrar alguém com uma aparência jovial aos noventa anos. Isso gera várias mudanças na sociedade, mudando a forma com que nos relacionamos com a vida, a morte, nossos corpos e a materialização de desejos.

No entanto, nada são flores, e existe um problema (e claro, para sabê-lo, você vai precisar ler o livro).

Misturando visões distópicas do mundo, uma investigação profunda sobre a psique da sociedade moderna com reflexões que lembram A caverna, de José Saramago, bem como a ideia dos irmãos para tentar sabotar a empresa criadora do biegeno, O último dia nos lança numa jornada reflexiva e caótica sobre o mundo atual. O poder e o vazio das redes sociais é debatido nas longas reflexões do protagonista.

Entremeado a isso, acompanhamos o crescimento de Mario de Daniel, suas memórias, dissabores e desenvolvimento até chegarem a vida adulta. Este ponto serve para entender melhor as motivações de ambos os personagens, bem como para dar uma perspectiva que os leva a arriscar tanto mesmo que não sejam obrigados.

O último dia, de T. Villela, traz uma narrativa interessante misturada com várias reflexões, por vezes pesarosas, sobre o mundo cada vez mais conectado e vazio das redes sociais. O último dia é o romance de estreia do autor, publicado de forma independente.

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*Esse post é um publieditorial.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)