A onda, o Clube da Luta e o que estamos fazendo com a Política

O que o Clube da Luta e o filme A Onda têm a nos ensinar sobre Política e o fascismo político que praticamos hoje?

Bertolt Brecht disse que a cadela do fascismo está sempre no cio. Nada é mais verdadeiro hoje, em 2016, ao vermos como agimos e reagimos em meio ao ódio e polarização política. Mas antes de chegar ao ponto, quero fazer uma rápida reflexão.

Todos precisamos do sentimento de pertencimento. Nossa personalidade é construída com base nas identidades que temos (sexo, gênero, credos religiosos e políticos, preferências etc.). Em meio às inúmeras possibilidades, selecionamos o que nos agrada e o que não nos agrada. É um processo natural e, mantendo-se os limites e o respeito pelo espaço alheio, pode ser uma forma enriquecedora. O caso, porém, é que nem sempre isso acontece. O Homo Literatus, por exemplo, resulta disso. Pessoas gostam de Literatura. Pessoas que gostam de Literatura buscam por pessoas e meios que falem de Literatura. Pessoas que gostam de Literatura encontram pessoas que gostam de Literatura e interagem – discutem, concordam, festejam, discordam, debatem, propõem e assim por diante.

Há grupos, porém, mais hostis que outros. Grupos incapazes de aceitar a diferença que são calcados no medo e na submissão desses gostos coletivos.

Na Literatura, há inúmeros exemplos desse fenômeno, o mais conhecido, hoje, graças à adaptação cinematográfica, é O Clube da Luta.

Há uma pessoa que não se encaixa no conjunto por determinados motivos – o que é normal. A partir de determinado ponto, essa pessoa cria um grupo no qual outros como ele se reúnem com o mesmo fim, no caso, lutar entre si para esquecer o stress da vida moderna. Até esta parte, não há nada de absolutamente problemático com O Clube da Luta. Ao menos que você tenha medo de perder alguns dentes, montar um clube para se digladiar entre si, sabendo dos limites e sendo consentido, não é errado. A grande virada acontece quando um clube com fins precisos interage hostilmente com inimigos. N’O Clube da Luta, os inimigos são o sistema – seja lá o que essa palavra juvenil queira dizer hoje. Faz-se de tudo para destruir esse inimigo, inclusive deter quem discorde do que está sendo ponto em prática, mesmo que signifique abater o criador da coisa. N’O Clube da Luta, assim como no Integralismo, Fascismo, Nazismo ou qualquer outra ideologia que não respeite o outro e o pessoal, o indivíduo, importante para a construção de um coletivo em constante aperfeiçoamento, é aniquilado com vista no todo homogêneo. Esse todo raivoso que estabelece um inimigo por determinados motivos – via de regra é uma mistura de insatisfação social, desejo de vingança rápido e pouca informação (ou o fato de querer ignorá-la pela vingança rápida).

(Se ainda querem outra citação literária que pode ser analisada da mesma maneira, leiam O Senhor das Moscas e vejam algo parecido em um contexto alegorizado.)

O que erigiu O Clube da Luta também foi a base de todos esses movimentos centralizadores em figuras tirânicas e autoritárias. Essas figuras, também via de regra, são centralizadoras da força em si mesmas (Adolf Hitler, Mussollini – e Tyler Durden).

Não se enganem, o belo Brad Pitt que faz sabonete com gordura humana não passa de proto-fascista que se aproveita da fraqueza emocional e coletiva para montar um grupo que tem como objetivo empoderá-lo. Aqui chego ao segundo ponto. No filme A onda, de 2008 (a versão original deste filme é americana, sendo um filme feito para televisão e, apesar da tentativa, de qualidade inferior), o professor que cria a experiência que dá nome ao filme não se diferencia muito da figura de Durden ou dos ditadores supracitados. A diferença, porém, é a tomada de consciência do personagem de que em uma semana alunos alemães se transformaram naquilo que eles conheciam e abominavam – o Nazismo.

E aonde quero chegar?

Hoje, 2016, em meio às discussões políticas, o que temos no geral é isso: fascistas. Fascistas de direita, fascistas de esquerda. Parece não haver mais espaço para o diálogo e o debate – debater no sentido de discutir uma ideia, não do uso comum hoje de bater boca e dizer o meu é certo e o teu não. Se sou de direita, creio que tudo é culpa do lado oposto (esquerda), elejo inimigos, ataco-os constantemente – na maior parte do tempo, sem ao menos saber o porquê e reproduzindo de forma irrefletida chavões no mínimo dúbios – não penso. Entro na massa que protesta – no caso contra o governo – e certa parcela até já elegeu um messias – ironicamente, um proto-fascista chamado Jair Bolsonaro. Se você é de esquerda, faz o mesmo, mas na direção oposta.

Nos tornamos fascistas políticos no Brasil de 2016, sendo incapazes de ter uma discussão sadia e construtiva. Na maior parte do tempo, estamos dentro do grupo da direita ou da esquerda sem ouvir o que o outro lado tem a dizer. Discussão política virou sinônimo de discussão de baixo calão, com xingamentos (coxinha e petralha, reaça ou comuna) que não levam a nada. Isso, em suma, é fascismo. Não o proposto por Mussolili, mas de certa forma atinge o objetivo por ele proposto: silenciar aqueles que discordam de mim. O militante mais agressivo de ambas as partes se sente feliz de ver gente concordando com ele, de ler textos e ver vídeos dizendo o que ele quer ouvir e sai xingando ao ver o diferente (ISTO VAI EM CAIXA ALTA E NEGRITO PARA QUE NINGUÉM ME COMPREENDA MAL. QUANDO DIGO ENTENDER A DIFERENÇA, NÃO ME REFIRO DE FORMA ALGUMA A POSTURAS AGRESSIVAS CONTRA QUALQUER GRUPO, OU SEJA, RACISTAS, HOMOFÓBICOS, INTERVENCIONISTAS OU QUALQUER OUTRO GRUPO DO TIPO.).

Se você quer fazer a diferença na política nacional, não seja um fascista. Aprenda com O Clube da Luta e com A Onda. É agradável viver em um meio no qual ninguém discorda contigo, em que todos temos pensamentos homogêneos. Isso, no entanto, resulta no controle da massa e na aniquilação daquilo que nos faz únicos: nossas escolhas. Aprenda a conviver com a diferença política e debata-a – sem clichés de mataram milhões aqui e ali, de que você fez isso e você aquilo, sem posts ou cartazes de Facebook ou, o que parece estar na moda, com argumentos de House of Cards (risos, muitos risos).

Repito, deixe de ser fascista político e aprenda a conviver com a diferença – desde que essa não seja nociva.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)