7 livros para entender política

7 livros essenciais sobre política que todos deveríamos ler ao menos uma vez na vida

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Há eleições em outubro. Há também lava-jato, operações com nomes engraçadinhos, políticos sendo presos e cassados. Há principalmente uma enorme insatisfação por parte da população com a política e os políticos. Não quero me ater ao porquê dessa insatisfação. O importante é dizer que se querem cabeças, culpados para rechaçar e tirar o peso de nossas responsabilidades enquanto cidadãos, culpados para purgar outros além de nós no que não passa do resultado de nossas escolhas enquanto sociedade.

Muito se fala em política desde o início das manifestações em 2013. Passamos por multidões nas ruas, uma eleição majoritária a nível nacional, um impeachment. Culpados são apontados com base em: 1) coxinha ou petralha; 2) ser de direita é bom e ser de esquerda é ruim (ou vise-versa); 3) eu acho que (inserir discurso pronto).

É provável que nunca antes na história desse país se tenha discutido tanto o tópico política de forma tão ampla e abrangente. Também é provável que nunca antes na história desse país a discussão tenha sido tão fútil e vazia. Todo alargamento requer perda de qualidade. Para recuperar o mínimo possível, sugerimos a leitura de sete livros sobre o tema. São livros que quem estuda política e quer se dizer minimamente entendido sobre deve ler. Não me importo com escolhas políticas ao fazer a lista, pois, como um ser com mínimo discernimento, sei que não ler isto ou aquilo por ser do outro lado (risos) mostra não apenas limitação intelectual como também pessoal.

Divirta-se.

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A república, Platãoimage001

Poderia citar a Política, livro dedicado exclusivamente ao tema. No entanto, creio que A república seja o livro mais indicado para esse momento. Girando em torno do tópico justiça, Platão moldou a ideia básica do que temos deste sistema, incluindo suas contradições e problemas. Imaginando Calípole, o autor discutiu todos os prós e contras do sistema, de como torná-lo mais eficiente, entre outros pontos. Escrito como diálogos, é uma boa introdução ao tema, além de mostrar que política não é um tópico isolado de outros da área de ciências humanas. Se a visão platônica lhe parecer um tanto fascista, lembre que esta foi a primeira obra ocidental a questionar e analisar a política em toda sua complexidade social. As respostas podem ser ruins para alguns, mas ainda sim são propostas que devem ser analisadas – não aceitas.

 

O leviatã, Thomas Hobbeshobbes

Escrito no século XVII na Inglaterra, O leviatã trata de um tema importante dentro da política: o contrato social. Composto em meio ao caos social da Inglaterra, atravessada por anos de Guerra Civil e problemas políticos que a originaram e que eram originados dela, Hobbes propôs um governo soberano. Baseando-se na ideia de Bellum omnium contra omnes (a luta do homem contra o homem), ele propõe esse contrato social e escolhe a centralização do poder num modelo absolutista enquanto analisa todos os benefícios e malefícios em todas as instâncias da sociedade (política, religião, poder, entre outros). Um bom texto para entender que se deve abrir mão certas liberdades para que haja o bem comum.

 

Democracia na América, Alexis de Tocquevillealexis_de_tocqueville_bio

Tocqueville era um monarquista convicto, ele mesmo um aristocrata. Depois de um longo período na América do Norte, ele descreve o novo sistema que surge na então jovem nação chamada Estados Unidos da América no início do século XIX, opinando sobre suas características, vantagens e desvantagens. Uma longa e complexa visão sobre o novo sistema, mostrando que a propensa liberdade talvez seja mais um artificio político da democracia do que um fato real, Democracia na América nos apresenta muito bem o que era o jogo político dos homens livres. Além disso, previu por meio da observação, que esta nação, bem como a Rússia, teriam papel importante na atuação política do mundo inteiro. Uma obra sobre o tema política que deveria ser lida por todos.

 

Manifesto comunista, Karl Marxkarl_marx

Se você é de direita no Brasil de 2016, uma palavra provavelmente está no top 3 de pecados políticos: comunismo. Chega a ser irônico, porém, o que se põe como o termo em comentários de redes sociais, memes políticos – a nova base do embasamento político da classe média em geral –, na Veja. Nessa obra curta, Marx expõe a visão política do que é o comunismo, suas razões de ser e por quais meios agir. Você, pessoa de direita no Brasil de 2016, ao invés de ler fantasias políticas como o famoso (risos, gargalhadas) Decálogo de Lenin, dedique duas horas da sua vida para entender o comunismo, Marx e suas motivações numa obra chave. Ninguém quer que você o ame ou se converta a uma pessoa de esquerda, antes que compreenda a base da esquerda contemporânea, o que é sua política e o porquê seu pensamento se mantém importante, mesmo que você não goste, e influente para entender a conjuntura política mundial.

 

O contrato social, Jean-Jacques Rousseaurousseau_fb

“O homem nasceu livre e é preso por tudo a sua volta”, inicia, em livre tradução, Rousseau em seu O contrato social. Partindo do mesmo pressuposto de Hobbes e outros, o autor suíço aponta que o problema não é o homem, e sim a sociedade na qual vive. Esta o obriga a se degenerar. Claro, a complexidade desse resumo, assim como dos outros, não chega às obras de fato. No entanto, é interessante ver uma ideia ser discutida a partir de outro de ponto de vista (social, histórico e político) e notar quais são as implicações na política apresentada por ambos. Se Hobbes propunha a submissão do indivíduo às instituições políticas, Rousseau comenta que o contrato social é um acordo coletivo para que se crie uma sociedade igual, não submissa. As funções e obrigações do Estado são amplamente discutidas, o que pode, quem sabe, clarear algumas ideias um tanto quanto bizarras pregadas em 2016 – principalmente aquela que diz que, pelo bem de todos, devemos perder a nossa liberdade política e social.

 

A riqueza das nações, Adam Smithadam-smith

Mesmo sendo uma obra mais voltada à economia do que à política, não deixa de ser interessante de ver como Adam Smith, ao analisar e projetar o nascente capitalismo, percebeu, e até mesmo apontou, a sua interdependência com a política, os problemas dessa relação incestuosa e as consequências negativas para um e outro quando o contato feito foca apenas a vantagem individual. É incrível, mesmo irônico, como muitos liberais se cegam a estes apontamentos, muito claros para quem a obra, e não percebam que a base do que viria a ser o pensamento marxista já estava lá. Adam Smith mostrou como política e economia são interdependentes e devem sempre ser vigiadas enquanto conjunto e áreas separadas. A influência excessiva de uma sobra a outra, não importando o vetor, pode causar grandes estragos sociais, econômicos e políticos.

 

O príncipe, Maquiaveltopelement

A frase mais famosa atribuída a esta obra fundamental sobre política é a alegação de um comentarista de que os fins justificam os meios. Nada mais errado. Se você quer realmente conversar sobre política em qualquer nível, deve ler e reler O príncipe. Sistematicamente, Maquiavel apresenta o fato de que política é um meio duro, no qual quem quer sobreviver deve ser temido, não amado. Política não depende de justiça ou de bem feitorias, antes dos jogos de poder entre quem está no comando político e quem quer tomar este. Maquiavelismo não significa uma visão dura e fria dos fatos no mal sentido do termo. Maquiavelismo significa uma visão fria e dura dos fatos enquanto eles são: um jogo duro e nada justo que foca o poder, como mantê-lo ou alcançá-lo. Se você tem uma visão idílica da política, chegou a hora da leitura de O príncipe. Se você ainda discorda e acha errado, recomendo fortemente que veja House of Cards. Se mesmo assim persistir a visão positiva sobre política, a escuridão eterna está de braços abertos à sua espera.

José Figueiredo Author

Coeditor do HL, participante do 30:MIN, idealizador e editor da Pulp Fiction. Um completo desastre na vida.