A beleza da melancolia nos poemas de Manuel Bandeira

Interpretações particulares de três poemas de Manuel Bandeira

Ô Manuel!
Ô Manuel!

Não sou uma leitora voraz de poesia. A prosa me ganha com mais facilidade, nas suas lapidações de figuras com diferentes graus de profundidade e nas tramas que me conduzem por outras vidas, das mais concretas às mais surreais. No entanto, não há como negar: alguns poetas me pegam pelo pescoço e me obrigam a sentar no cantinho, aguçando olhos e ouvidos, para que me assombre com sua capacidade de dizer o mundo. Um deles é Manuel Bandeira, parte do cânone brasileiro, que na sua simplicidade, como diria Drummond, “botam a gente comovido como o diabo”.

Existem alguns elementos interessantes que se destacam em sua obra, mas me chama a atenção o trabalho que ele faz com a melancolia. Para começar, porque o próprio conceito de melancolia não é facilmente compreendido, ao contrário de certas emoções mais diretas, como alegria ou raiva. Segundo o dicionário do Google, melancolia é um “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação”. Achei perfeita a definição. Ao explicá-la em sala de aula, sempre tento diferenciá-la da simples tristeza, sentimento que invade com violência o ser e frequentemente força o choro ou o desespero. A melancolia chega quieta, reflexiva, dá aquele nó na garganta, no máximo provoca aquela lagrimazinha sentida de canto de olho. Em tempos de formas cada vez mais grosseiras de contar histórias, como se tornou comum encontrar no cinema ou na tevê, acreditem, não são todas as pessoas que conseguem entender a potência da melancolia. É preciso um olhar um pouco mais treinado para se deixar levar por ela, uma percepção um pouco mais sutil da coisas para se emocionar.

Tendo essa dificuldade em vista, opto por trazer aqui alguns poemas do autor para comentá-los.

O primeiro deles é “Profundamente”:

 

Quando ontem adormeci

Na noite de São João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes, cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

 

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões

Passavam, errantes

 

Silenciosamente

Apenas de vez em quando

O ruído de um bonde

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

 

— Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.

 

*

 

Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João

Porque adormeci

 

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó

Meu avô

Totônio Rodrigues

Tomásia

Rosa

Onde estão todos eles?

 

— Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.

 

A beleza do poema reside em dois pontos essenciais: o contraste entre dois tempos, a infância e a vida adulta, e a dualidade da expressão “dormindo profundamente”. Como se pode notar, o tom do texto é sóbrio, sem exageros sentimentais – o que não nos impede de perceber que na cena do passado, retrato de uma festa de São João, há o deslumbramento do eu-lírico menino diante dos fogos, das cantigas, das bombas que estouram; mais que isso, há a satisfação de uma criança que “dorme profundamente” junto dos outros, depois de uma comemoração, entregando-se a um sono bom. A expressão aparece, portanto, no seu sentido denotativo. Já no presente do eu-lírico, o ar de festa acabou. A melancolia aparece quando ele afirma que “já não ouve mais as vozes daquele tempo”, ou seja, em oposição a um barulho que contenta, há um silêncio que incomoda. Ele prossegue nomeando essas vozes, dando rosto a elas, individualizando cada uma (“minha avó / meu avô / Totônio Rodrigues / Tomásia / Rosa”), assim indicando ao leitor a importância de cada uma no seu passado, para finalmente repetir que elas estão “dormindo profundamente”. Porém, a repetição da expressão é um golpe de misericórdia no coração do leitor, já que entendemos que ela agora significa outra coisa. Reconhecemos a experiência da passagem do tempo como algo universal, algo que leva sonhos e pessoas embora; sabemos que envelhecer traz perdas. Assim, sabemos que as pessoas do poema que “dormem profundamente”, no seu presente, estão mortas, o que desperta grandes saudades no eu-lírico. Mais do que isso: trata-se da consciência de um adulto sobre a vida, consciência que compartilhamos com o eu-lírico mais velho, e que sabemos que uma criança não tem. É como se Bandeira olhasse para nós, com seus olhos desiludidos, e nos dissesse: “Você sabe do que eu estou falando. Dessas amarguras inevitáveis que a vida traz. Que sorte não saber disso quando era mais novo”. É aí que encontramos o sentimento melancólico no poema.

O segundo texto apresentado é o singelo “Porquinho da Índia”:

 

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia.

Que dor de coração me dava

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele prá sala

Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

Ele não gostava:

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

 

– O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

 

Neste pequeno poema, vemos uma experiência infantil que tinha tudo para ser agradável e amorosa: ganhar um animal de estimação. O contraste aqui começa a ser elaborado na cabeça do leitor, que precisa recuperar seu conhecimento prévio sobre a relação entre uma criança e um animal, geralmente associada à felicidade. É então que Bandeira entra mudando a chave de interpretação – “que dor de coração me dava”. O verso indica que essa relação não foi tranquila como se espera, pois o bichinho fugia dele, escondendo-se debaixo do fogão. O tom melancólico fica mais evidente quando o eu-lírico nos explica todo o seu esforço para agradar o animal, levando-o “pra os lugares mais bonitos mais limpinhos”. Há um sentimento de amor que simplesmente não é correspondido, o que nós, como adultos, sabemos que é algo da vida. Porém, é difícil acompanhar a descoberta dessa emoção por uma criança de seis anos, que jamais parece ter experimentado a rejeição antes. Sabemos que ela provavelmente ainda vai passar por isso ao longo da vida, como o poeta também sabe. Por isso, ele termina o poema indicando o que o eu-lírico conclui quando adulto: “- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada”. Outras rejeições vieram, dessa vez de relacionamentos com mulheres, o que sem dúvida não as tornou menos dolorosas. Quem não se sente melancólico ao perceber as dificuldades que traz o amor?

Por fim, o terceiro poema, “Irene no céu”:

 

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

 

Imagino Irene entrando no céu:

— Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

 

Na primeira estrofe, o poeta nos oferece algumas poucas características de Irene que, no entanto, já dizem muito: ela é preta, é boa e está sempre de bom humor. Por ser preta, imagina-se logo que trata-se de uma serviçal, talvez uma ex-escrava, o que torna o fato de Irene “estar sempre de bom humor” um elemento agridoce. Estamos falando de uma pessoa agradável ao eu-lírico, claro, mas qual é a visão de Irene sobre seus sentimentos? Está de bom humor porque conforma-se com um destino difícil, talvez? Numa sociedade em que o negro passa por diversos tipos de violência e falta de direitos, quem sabe se trabalhar para uma família branca que a trata com brandura já não é uma grande conquista para essa mulher? Desse modo, o primeiro elemento melancólico é notar o bom-humor em alguém que provavelmente sequer tem consciência das dificuldades de sua condição. O segundo elemento chega junto da segunda estrofe, em que o eu-lírico revela que a Irene que acabamos de conhecer morreu. Independentemente de sua aparente alienação no que diz respeito à posição de desigualdade entre ele e Irene, fica óbvio o sentimento de carinho por ela, o que gera melancolia por sua perda. A própria recepção de um São Pedro bonachão no céu, dizendo que Irene “não precisa pedir licença”, é indício de que o eu-lírico acredita que ela é alguém que merece o Paraíso – por sua bondade, como afirma na primeira estrofe, mas também, quem sabe, por tudo o que lhe foi negado devido a sua cor. Há melancolia em pensar que somente no pós-vida uma pessoa como Irene pode ser recompensada. Remete a toda uma situação social injusta aceita no Brasil da época.

Esclareço que a visão apresentada sobre os poemas lidos é particular e, portanto, claramente deixa espaço para outras interpretações. Porém, acredito que pode auxiliar a enxergar a poesia de Bandeira em toda a sua delicadeza e profundidade, mesmo utilizando-se de vocabulário tão simples. Essas qualidades sem dúvida foram responsáveis por inscrever o poeta na memória literária nacional. Há outras, que o leitor atento pode desvendar nas suas leituras independentes a partir de agora.

Carolina Prospero Author

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.