A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe

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A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, é um livro repleto de metáforas que lança um olhar minucioso sobre o sentimento do povo lusitano nos tempos de hoje

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Valter Hugo Mãe

No livro a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe, título e o cunho do nome do autor estão em letras iniciais minúsculas, é um olhar cheio de minúcias desse escritor quase português, quase angolano, sobre o sentimento do povo lusitano nos tempos de hoje. Digo “quase” para embaralhar uma totalidade de percepções que nos é passada diante de cada linha. Como a história mais próxima de nós, das naus do império passando pela ditadura de Salazar até a democracia de hoje, se funde no coração do cidadão português.

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A escrita refinada, embebida num bálsamo poético desse jovem escritor de coração e alma lusitanas, nos trás a tona uma linguagem moderna, cheia de elementos de mais puro enlevo. E, na voz principal de um senhor de oitenta e quatro anos, após perder a grande companheira de toda uma vida, Laura, nos insere numa narrativa apaixonante, vibrante e cheia de lições de vida, de amor e morte. O existencialismo permeia cada parágrafo, como assim o é de ser, pois não obstante, nada mais nada menos do que a ilustre figura de Álvaro de Campos, com seu olhar também cheio de minúcias para além da Tabacaria, para servir de pontapé inicial para o que permeia cada capítulo do livro.

Internado no Lar da Feliz Idade, António Jorge da Silva, pela perda do amor e da liberdade, se constrói em sua casmurrice, e é iniciado em poesia, esta que o acompanha, mas sem a ter para si, e no vislumbre e contemplação da morte que o ronda nas imagens dos corvos da noite, vai ao encontro da metafísica que nunca tivera. Ser velho é estar sempre à espreita de não existir: “o nosso inimigo é o corpo. ser velho é viver contra o corpo até chegarmos a um momento em que a luz do sol nos parece uma dádiva inestimável e vale a pena viver apenas para fazermos a fotossíntese das tardes”(pág. 146).

E para ter a resiliência de a chuva não poder trazer laura de volta, António Silva se prestava mais a observar “um conjunto de abandonados a descontar pó ao invés de areia na ampulheta do parco tempo”, pág. 28. Uma alusão à felicidade contraditória estampada no nome do asilo. E essa dor, aos poucos, é levemente anestesiada com o cultivo de alguns poucos amigos que o personagem, timidamente, vai fazendo ao longo da história. A perda da esposa era uma dor que se negava a abandonar. Não permitia tirarem de si esse último direito: o de sofrer e ter saudade. “eu queria ir ver o lugar onde ela estava e talvez desfazer-me em átomos por não o suportar” (pág. 51). Pois a vida é um novo modo de ter saudade, ou de lhes sobreviver.

Traz desde o inicio um embate com o Silva da Europa, entusiasta do comunismo, na verdade um embate consigo mesmo. E esse embate carrega disfarçado nas entrelinhas a premissa, talvez mais importante de toda a narrativa, de apresentar o atual sentimento estigmatizado do povo português. Esse sentimento, que nos tempos das grandes navegações o enchia de orgulho, agora se “contenta” ou se ver obrigado a andar pelo revés da Europa moderna. O autor tenta configurar, em aspectos mais políticos, o contexto social sofrido pelo país na época Salazarista e que configurara um sentimento de mais pura letargia. Renegar o entusiasmo do amigo Silva é assumir o mais adequado naquele momento:  ir às missas todos os domingos, cultivar a família, e assistir aos heróis nomeados do futebol, como Euzébio, “o pantera negra, jogador do Benfica, para esquecer a grande opressão e depressão em que estavam afundados. Onde a paz estava escondida na pele da ignorância. “a ignorância é que nos pacifica” (pag. 154).

Ao mesmo tempo em que a idade adquirida ao longo do tempo trás certas reflexões, estas possibilitam uma abertura tão maior quanto a aceitação vhm3do fim. O fim adquirido diariamente e, com o surgimento do homem sem metafísica, o mesmo da tabacaria, “esteves” “era como dar pele a um poema e trazê-lo à luz do dia” (pág. 51).  E as peripécias dos velhos soavam como pequenas loucuras, ou travessuras resgatadas de uma infância para fazer com que a perda da sanidade, ou mais romanticamente, a eminência da morte, não surtam tanto efeito. E nesse desespero por escapar dessa clausura de envelhecer para além das capacidades físicas, onde se aprecia no jardim brotando pelas frestas da janela ao longe, as flores secando decadentes, é que as coisas acontecem.

É um livro cheio de metáforas, e, na busca pelo entendimento da vida ou do que venha a ser a morte, descobrir a metafísica em pequenos detalhes, como escrever cartas de amor para uma velha para reanimar sua ânsia por amor. Ou acolher, num último abraço, o amigo que mais tarde feneceria ao tempo como folhas secas desgarradas no outono.

A máquina de fazer espanhóis é uma obra prima, nos impele para profundas introspecções e a voltar os olhos para um estágio da vida para o qual nunca estamos preparados. Além dessas reverberações acerca do sentimento que um povo carrega no contexto histórico e social, resgata-nos para elementos essenciais, e por isso mesmo, mexe tanto com nosso eu interior. É um livro para não esquecer de que a vida é repleta de poesia. E, por ser poeta, o autor consegue nos aproximar dessa catarse de palavras.

António Jorge da Silva nos ensina a reconhecer nossas fragilidades e nossas falhas, nossas omissões e a regenerar nossas crenças e fortalecer nosso poder de adaptação do corpo com o meio, da alma com o sofrimento.