O Perfuraneve

Entre a ficção científica e o estudo sociológico, O Perfuraneve é um assustador retrato do passado, presente e futuro da humanidade

o-perfura-neve-editora-aleph-feat

Eis um resumo do que é O Perfuraneve:

Algo deu errado nas relações humanas, houve uma catástrofe provocada por nós mesmos e agora tudo se tornou uma grande imensidão branca e fria. O último bastião da humanidade sobreviveu em um gigantesco trem cuja trajetória infindável ele persegue na esperança de que um dia, quem sabe, o gelo derreterá e tudo voltará a ser como um dia foi.

A premissa acima diz tudo e nada ao mesmo tempo. Talvez ela esconda a grandeza dessa obra. Dentro do trem que corta o gelo, todos estão a bordo: os neuróticos, os autoritários, os malucos que estão à espreita do poder e todos os outros indivíduos de uma sociedade complexa. Há o poder central, o povo iludido, a classe média acomodada. É incrível ver como os criadores (os franceses Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette) conseguiram sintetizar em três partes e 280 páginas a complexidade e as contradições da sociedade. Se você está esperando uma história vazia, repleta de acontecimentos fantásticos e clichês abundantes, esta não é a tua história.

9788576572121
O perfuraneve (Aleph, 2015)

Na primeira parte, também intitulada O Perfuraneve, Proloff, o anti-herói, decide romper a ordem dos fundistas (grupo pobre dentro do perfuraneve), invadindo os vagões perto da santa locomotiva – com um pequeno detalhe: ele o faz pelo lado de fora. Após ser capturado e conduzido aos comandantes da máquina, cruzando com todos os níveis, sociais e estruturais do trem, a situação se complica devido a sua passagem, levando Proloff a tomar uma atitude que vai mudar o destino de toda a humanidade.

Em O explorador, descobrimos que nosso mundo não se restringe apenas a um trem. Encontramos um grupo muito mais complexo e problemático, recheado de líderes religiosos cínicos, ditadores petulantes, militares inescrupulosos e toda a gama de malucos que recheiam nossa sociedade. Puig Vallès, uma criança criada dentro do perfuraneve que se torna um explorador, se revolta ao notar que suas missões fora do trem são um capricho da elite comandante e que nada tem a ver com o futuro da humanidade. Puig se revolta, se envolve com a filha do ditador e nos apresenta a complexidade dos vagões: viagens imaginárias pelo mundo passado, uma seita não-oficial que prega uma verdade diferente e apocalíptica (seu líder diz que não estão em um trem, mas numa nave espacial, perdidos no nada), as pequenas trapaças das camadas médias que se acham muito mais do que realmente são dentro do conjunto, ou seja, nada. Com um final surpreendente, somos conduzidos à terceira parte.

O-Perfuraneve-GEEKNESS-2Em A travessia, temos o colapso desse sistema social e de todos os seus atores. Todo O Perfuraneve converge para o fim desesperado, no qual o trem segue o sinal de rádio distante em busca de outros sobreviventes. O caos impera após uma explosão no meio do trem, fazendo com que os líderes decidam, pelo bem de todos, deixá-los sós, abandonando-os. Um misto de esperança e desespero é o que os autores conseguem neste último trecho.

Os desenhos são um capítulo à parte. Se a primeira seção está mais próxima do quadrinho clássico, nas subsequentes encontramos um expressionismo belo e sufocante. Muito da trama se desenrola nos pequenos detalhes, nos traços periféricos, dando um poder a mais ao já complexo e profundo mundo do O Perfuraneve – o que explica por que a obra se tornou um clássico do gênero.

perfuraneve1O Perfuraneve é uma obra que, apesar de vendida como apenas mais uma em meio à ficção científica, alcança o patamar de um livro complexo, belo e reflexivo. Uma obra essencial para esses tempos conturbados.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)