Por que devemos ler best-sellers?

Você começou a ler por causa dos clássicos ou por causa dos best-sellers? Já pensou por que lê-los pode ser tão bom quanto uma “grande obra”?

best-sellers merecem ser lidos

Você passa os olhos pelas palavras, frase após frase, página após página, acompanhando a história de algum personagem com traços familiares. Pouco a pouco, conforme a narrativa vai tomando forma, os eventos começam a parecer cada vez mais previsíveis, alimentando um sentimento crescente de “eu já vi isso antes”. Se você for o que chamamos de “um leitor experiente”, você passa a reconhecer o modelo, a “fórmula”, a receita de bolo e, quando vira a última página, confirma o que já sabia que ia acontecer na metade do livro.

Aí vem a frustração, e o desapontamento.

Esse é um sentimento que é frequentemente descrito por leitores após finalizarem (ou abandonarem) os chamados best-sellers. Livros best-seller são frequentemente atacados pela crítica como criações literárias de baixa qualidade, às vezes chamados de baixa literatura ou nem mesmo de Literatura.

No entanto, milhões e milhões de leitores continuam a comprar e consumir essas histórias com um fervor que alimenta o mercado e mantém a indústria funcionando. Por quê?

Muitas explicações: as histórias são direcionadas para públicos-alvo específicos, moldadas para que sejam atraentes; ou representam as características de um grupo específico, como os young adults, e sua verossimilhança garante o sucesso. Tais explicações são usadas como munição pela Academia quando criticam os best-sellers, e talvez seja um argumento válido.

Contudo, será que eles têm algo mais a oferecer além de uma medíocre experiência de algumas horas?

 

Como me tornei leitor

Assim como muitas pessoas, eu não encontrei o meu interesse por leitura através de clássicos mundiais como Dom Quixote ou Shakespeare. No alto dos meus quinze anos,  perambulando um dia pela biblioteca da escola em busca de finalizar algum trabalho, me deparei com o olhar penetrante da Mona Lisa, me encarando da capa vermelha de um livro que repousava tranquilamente esquecido na estante; uma rápida passada de olhos revelou o título: O Código da Vinci, escrito por um tal de Dan Brown.

Embora (ainda) não gostasse de ler, era muito interessado por História, e talvez tenha sido isso que me levou a estender o braço e tirar o volume da estante. Outra rápida olhada, dessa vez pela sinopse na contra-capa, falando alguma coisa sobre um assassinato no Louvre, que eu vagamente recordei como um museu importante na França. Abrindo a primeira página, dei de cara com o Homem Vitruviano em toda a sua glória. Decido levar o livro pra casa, e logo estaria de volta àquela mesma sala, procurando por mais.

Naturalmente, ao terminar a minha primeira história de Robert Langdon, o famoso Simbologista de Harvard que vive várias aventuras e conspirações, eu achei que era a melhor coisa já escrita pela humanidade.

Não tinha nenhuma bagagem literária, e não percebi nenhum dos sinais descritos no primeiro parágrafo desse texto. No entanto, além da sede por ler mais histórias, o norte-americano Dan Brown também chamou minha atenção para outra coisa: a incrível quantidade de coisas interessantes que giram em torno da Mona Lisa, da arte renascentista, do próprio Leonardo da Vinci e das muitas ramificações históricas que a trama explora.

 

Como ainda continuo sendo um leitor

Dez anos de leituras depois desse dia me capacitaram para, hoje, reler Dan Brown e observar toda uma estrutura que se repete em seus outros livros, reproduzida por motivos bastante Fordianos: vende bem. Passando de O Código da Vinci para O Símbolo Perdido, Ponto de Impacto, Inferno, Fortaleza Digital.

Langdon (ou o protagonista que assuma seu lugar) invariavelmente se descobre em meio a uma conspiração que ameaça não só sua vida, mas o mundo todo, e é ajudado por um parceiro ou parceira, tendo que resolver enigmas e usar seus conhecimentos para impedir que o pior aconteça. Se o leitor parar por um momento agora e pensar sobre o que já leu ao longo da vida, possivelmente irá reconhecer esses elementos em vários outros títulos.

Então, não, Dan Brown não oferece nenhuma inovação linguística, nenhuma técnica narrativa surpreendente para sua época, nenhuma rede de núcleos narrativos complexos e tridimensionais. Mas têm duas coisas que o fazem permanecer em minha estante, tanto tempo depois: ele é um bom contador de histórias e um ótimo professor.

Afinal, aprendi muito sobre História e Simbologia com ele, assim como Susan me ensinou o que é Criptografia em Fortaleza Digital, e Rachel me contou sobre Glaciologia e a crise político-científica enfrentada pela NASA perante o público americano em Ponto de Impacto.

 

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Também é válido mencionar que ninguém consegue sobreviver apenas de clássicos. Seria pedir muito do limitado cérebro humano que consuma apenas livros que exigem concentração e análises constantes dos inúmeros personagens e seus complicados passados, presentes e futuros. Um fenômeno parecido com os guilty pleasures, aquele filme ou série que você abre na Netflix quando não quer fazer nada além de encarar a TV, dar umas risadas e relaxar.

Afinal, estamos sendo justos com best-sellers? Se Dan Brown me levou a aprender sobre o mundo e a ler Dante Alighieri, se Stephen King me levou a Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, se Jogos Vorazes me levar a George Orwell, por que não?

Enfim, talvez não devêssemos crucificar a literatura dos best-sellers. Antes, deveríamos amá-la como amamos um belo lanche. Ele pode sustentar, mas também tem coisas mais saborosas por aí.

Everton Missiagia Autor

Um solitário estudante de Jornalismo, entusiasta da Literatura e amante da palavra escrita.