Por que existem tantos romances sobre a ditadura?

Literatura e ditadura militar no Brasil: 9 romances que retratam e denunciam a brutalidade do período ditatorial

As memórias estão na ficção há muito tempo e têm como característica uma narração que constrói imagens, reflexos do coletivo, do social por meio das metáforas ou por meio das alegorias.  No que diz respeito à ditadura militar, os romances que se enquadram historicamente nesse período, ou seja, os romances que se passam no período ditatorial brasileiro (não que foram, necessariamente, publicados nessa época) são marcados por memórias e costumam observar tanto de dentro quanto de fora os acontecimentos e os fatos históricos de um período tenebroso do Brasil.

Os romances sobre a ditadura militar fizeram e ainda fazem sucesso na contemporaneidade, por representarem um período de extrema violência, medo e brutalidade da história brasileira, que ainda é uma incógnita de certa maneira. A literatura, nesse sentido, é um meio de reconstruir a história do que aconteceu, de modo mais detalhado e mais humanista, diferente das notícias jornalísticas, muito objetivas, a respeito do assunto.

Por que até hoje muitos romances que se passam no período ditatorial são publicados? Pode ser uma tentativa de entender esse momento histórico. Pode ser um meio de tentar montar esse quebra-cabeças histórico que até hoje tem peças perdidas. Ou pode, ainda, ser também um modo de quebrar o silêncio ao qual esse período histórico obrigou a todos durante muitos anos. Muitas podem ser as explicações. O que fica é a certeza de que a ditadura militar não é, ainda, uma página virada em nossa história, pois muitos fatos ainda não foram explicados, nem mesmo expostos claramente e muitas pessoas desapareceram ou foram dadas como desaparecidas nessa época.

Como mencionado, muitas ainda são as publicações de romances que retratam de alguma maneira o período de ditadura no Brasil. A literatura, nesse sentido, parece ser um meio de reconstituição da história, diferente daquele discurso tradicional e muito raso apresentado nas mídias oficias sobre o assunto. Para curiosos, listaremos aqui 9 romances que se passam nesse período e que denunciam as suas marcas, que são a tortura, a violência, a morte, os desaparecimentos, o sofrimento, as incertezas e a tristeza.

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1. Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva

O romance Ainda estou aqui (2015) representa a luta de uma família pela verdade: o que aconteceu, de fato, com Rubens Paiva, pai de Marcelo Rubens Paiva, durante a ditadura militar. O romance apresenta, na busca dessa verdade, a história de vida de Eunice Paiva, mãe de cinco filhos e casada com Rubens Paiva, que hoje sofre e luta contra o Alzheimer. Ela passou a criar os filhos sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela voltou a estudar, tornou-se advogada e defensora dos direitos indígenas. Ao falar de Eunice, de sua luta para criar os filhos, suportar as dores e, mais recentemente, lutar contra o Alzheimer, o escritor  Marcelo Rubens Paiva apresenta memórias de sua infância e, também, mergulha num momento pavoroso da história recente brasileira, que é a ditadura militar no Brasil.

2. K.: Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski

K.: Relato de uma busca (2011) narra a história de um pai em busca da filha que desapareceu, como tantos outros, durante a ditadura no Brasil. Filha esta chamada Ana Rosa, professora do departamento de química da USP que até hoje está viva para os bancos e operadoras de cartão de crédito, pois frequentemente são enviadas correspondências a ela, uma destinatária viva para o sistema. A narrativa de Kucinski é feita de capítulos quase que independentes, os quais apresentam de vários ângulos a mesma história, visando a representação da ausência de uma filha e da impunidade dos militares, independentemente das atitudes por eles tomadas no período ditatorial brasileiro.

3. Tropical sol da liberdade, de Ana Maria Machado

Em Tropical sol da liberdade (1988), de Ana Maria Machado, temos uma voz feminina da personagem Lena, uma jornalista, que narra acontecimentos do período ditatorial, numa tentativa de recompor sua vida após o exílio. A narrativa permeia, portanto, o período da ditadura militar no Brasil, época em que muitos foram mortos, torturados, exilados e subjugados. Sem contar os fatos ocorridos nos porões das delegacias e quartéis. A autora do romance passou por esse período na vida real e, posteriormente, tratou de trabalhá-lo em uma obra literária. Por isso, Ana Maria Machado está em Lena, a visão da escritora é a de quem esteve no cerne do conflito, de quem foi participante e lutou pela liberdade de expressão. O livro não teve o objetivo de retratar grandes heróis, líderes ou mártires, pois este apresenta pessoas comuns daquele período, que sofreram durante um regime opressor e autoritário, mas que não se calaram e reivindicaram direitos na medida do possível.

4. Em câmera lenta, de Renato Tapajós

Em câmera lenta (1977), romance de Renato Tapajós, é uma tentativa reflexiva de apresentar a tensão, o clima, as esperanças, o ódio e o desespero que marcaram a população brasileira durante a ditadura militar. O romance apresenta, ainda, aqueles que jogaram tudo para o alto para tentar mudar o mundo, lutar pela liberdade e pelo fim da repressão e da violência causada pela ditadura e seus militares, seja de modo ingênuo ou de modo consciente em relação a cada ação. Essa obra é uma das poucas que descreveram de modo explícito e sem grandes floreios os mandos e desmandos dos militares, as torturas realizadas e demais modos como a violência física e psicológica foram utilizadas como armas contra militantes e contra a população de modo geral.

5. Bar Don Juan, de Antônio Callado

Quarup (1967) é um dos romances mais famosos de Antônio Callado que apresenta questões referentes à ditadura militar no Brasil, mas deixemos esse livro de lado e falemos  de um menos conhecido: Bar Don Juan (1971). Esse romance apresenta um retrato crítico do Brasil durante o regime militar, de modo a mostrar a densidade existencial de um dos mais conturbados períodos da história recente do Brasil. De um lado, supressão das liberdades democráticas e violenta repressão. Do outro lado, jovens da Zona Sul carioca dispostos a enfrentar essa realidade tendo sobretudo a convicção de que nada poderia dar errado na sua luta pela liberdade, que lhes parecia justa e um direito de qualquer cidadão.

6. Zero, de Ignácio de Loyola Brandão

O romance Zero (1975) faz um retrato ácido da sociedade brasileira na década de 1960, atemorizada pela ditadura militar, pela censura, pela repressão, pelo autoritarismo e pela violência que gerou mortes. Nesta obra há um narrador que constitui o personagem central do romance: José, o homem que matava ratos de um cinema, conta a sua história, com sarcasmo e mau humor, e desvela uma sociedade que vivencia uma violência extrema, advinda de um contexto ditatorial brasileiro, dominada pelo vazio existencial, repleta de aberrações sexuais e de comportamento, permeada pela corrupção, o ódio, a mentira. Pessoas são exploradas das mais diversas formas e há quem é condenado pela morte do filho, que não recebeu atendimento adequado das instituições de saúde, após ficar de guichê em guichê procurando uma ajuda, uma solução.

7. Que isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

Que isso, companheiro? (1979), romance escrito por Gabeira, é autobiográfico. Apresenta a versão do escritor sobre o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969, alguns meses após a declaração do Ato Institucional Nº 5, que suspendeu todos os direitos civis dos brasileiros em 1968. Ao que parece, por meio deste livro, o autor buscou compreender não só o sentido de suas experiências no período de ditadura no Brasil, isto é, o seu envolvimento com a luta armada, com a militância numa organização clandestina, a prisão, a tortura e o exílio, mas também foi uma tentativa de elaboração de um retrato de um período obscuro e tenebroso do Brasil.

8. Sombras de reis barbudos, de José J. Veiga

O romance Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga, é um romance que representa a ditadura militar brasileira de modo alegórico. Nele, o garoto Lucas narra sobre uma empresa, a Companhia, que se instala em sua cidade e que aos poucos muda totalmente o modo de vida da comunidade. Toda a rotina é alterada e toda liberdade é subtraída em função das exigências instauradas pela empresa. Aos poucos a tal Companhia adquire poder total sobre a cidade, as pessoas, seus corpos e seu modo de pensar. Ela institui regras, proibições e muros altíssimos. Por meio de elementos fantásticos, a narrativa apresenta o domínio que a instituição passa a ter sobre a população e todos os seus atos, população esta que aceita todas as restrições e ordens sem muitos questionamentos, acaba por acostumar-se com toda e qualquer burocracia do e com a restrição de sua liberdade, pois quem não cumpria as regras estabelecidas acabava por  sofrer consequências.

9. Cabo de guerra, de Ivone Benedetti

O romance Cabo de guerra (2016) invoca fantasmas do passado militar brasileiro pela perspectiva incômoda de um homem sem grandes convicções e posicionamentos políticos, que foi transformado em agente infiltrado. No final da década de 1960, um rapaz deixa o aconchego da casa materna na Bahia para tentar a sorte em São Paulo e, em meio à efervescência política da época, ele passa a flertar com a militância de esquerda, vai parar nos porões da ditadura e muda radicalmente de rumo, selando não apenas seu destino, mas o de muitos de seus ex-companheiros.  De acordo com o que é apresentado na narrativa, este homem é dono de uma biografia banal e indiferente à polarização política, que marcou a década de 1970 e tem marcado o Brasil atualmente.

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Talvez a leitura destes romances indicados e de tantos outros, relevantes acerca da ditadura militar brasileira, possibilite a nós, leitores, dar resposta às perguntas que motivam este texto: afinal, por que tantos romances sobre a ditadura? Por que ainda lemos romances sobre este período tenebroso da história e da política brasileira?

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela