Quais são os pequenos grandes gêneros literários?

Romances curtos, contos, microcontos, haikais e aldravias, alguns dos pequenos grandes gêneros literários que podemos encontrar em circulação hoje

Romances curtos, contos, microcontos, haikais e aldravias

Na contemporaneidade, em que vivemos atolados de afazeres e correndo contra o tempo, é natural que o fazer literário se modifique, moldando-se à época a que pertence. A tendência atual são os gêneros curtos, romances de menos de 100 páginas, contos, microcontos; na poesia, haikais e aldravias.

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A redução dos contos envolve uma maior agilidade narrativa e impacto rápido no leitor. Os microcontos ou minicontos apresentam, via de regra, apenas uma linha. O mais famoso exemplo é o do guatemalo Augusto Monterroso.

Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Pode-se imaginar uma história surrealista em que o personagem pensa acordar de um sonho, porém ainda se encontra preso nele; ou interpretar o dinossauro como uma metáfora, digamos, um cônjuge do qual já se esteja cansado ou um medo que se faça presente na vida do eu-lírico. Ernest Hemingway também possui um microconto conhecido:

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Está subentendido o drama que precede o anúncio: a morte prematura de um bebê, ocasionando a dor dos pais. Trata-se, portanto, de um exercício de concisão narrativa, em que a história permanece nas entrelinhas e cuja interpretação deve ser complementada pelo leitor.

Na poesia, podemos citar os famosos haicais da literatura japonesa. Tradicionalmente, eles possuem três versos sem rima obrigatória e a seguinte divisão métrica: 5-7-5, mas existem variações. Além da concisão, a forma também é valorizada nesse gênero. No Brasil, Paulo Leminski é um dos escritores que se arrisca no haicai: 

ROSA

Rosa (que exibida!)
que posa assim toda prosa
é prova de vida.

Agora falemos de um estilo pouco conhecido ainda: a aldravia. A origem da palavra vem de “aldrava”, aquela argola de metal que se usava para bater à porta, comum nos casarões antigos das cidades mineiras. Aldravias seriam poemas curtos, de seis palavras e seis versos (ou seja, uma palavra por verso), com ou sem rima, normalmente bem humorados ou com jogos de palavras. Seria um tipo de poema “que abre portas para as interpretações inusitadas dos eventos cotidianos, em relatos daquilo que só o artista viu”. O movimento poético surgiu em 2000, em Mariana (MG), com a criação do Jornal Aldrava Cultural. Em 2011, foi lançado no Rio de Janeiro o livro Aldravias a cinco vozes, apresentando os autores Edir Meirelles, Juçara Valverde, Luiz Gondim, Marcia Barroca e Messody Benoliel. Eis alguns exemplos de aldravias:

labirinto
de
teu
corpo
meu
absinto

(Edir Meirelles)

brisa
rodopio
passo
mas
deixo
rastro

(Juçara Valverde)

Poetas
são
loucos
mas
não
mentem

(Luiz Gondim)

Enfim, não há desculpa para a falta de leitura ou para o escritor que possui pouco tempo para a produção. Esses pequenos grandes gêneros podem contribuir para uma nova forma de criatividade. Afinal, a literatura deve se renovar e se atualizar sempre.

Nicole Ayres Autor

É graduada em Letras port/francês pela Uerj. Apaixonada pelas palavras, desde que aprendeu a ler e a escrever, não parou mais. Amante da vida e das artes. De espírito quixotesco, ainda vai aproveitar a experiência de suas aventuras literárias para explorar o mundo. Mantém os pés no chão e a cabeça nas nuvens.