Literatura e futebol: o “país do futebol” ainda nos deve um grande romance do esporte bretão?

Sérgio Rodrigues e José Trajano em duas grandes homenagens ao futebol brasileiro

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Se encarássemos a literatura brasileira como uma seleção de futebol, talvez, no lugar da sonhada e mítica seleção de 1970 (para os desavisados ou com pouca lembrança, eis a escalação: Félix, CA Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Gérson, Clodoaldo, Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino), teríamos algo como José de Alencar no gol para defender a meta da pátria, auxiliado pelos zagueiros Graciliano Ramos e Érico Veríssimo, que por sua vez seriam assistidos pelos laterais Lima Barreto e Manuel Antônio de Almeida. No meio campo, a versatilidade dos Andrade, Oswald e Mário, pois atacam e defendem como ninguém. E no ataque, a agilidade de Drummond mesclaria com o improviso de um Guimarães Rosa e com o fuzilador Gregório de Matos. Nessa altura do campeonato, Machadão já teria se aposentado e seria técnico (“Machado de Assis, o novo Zagallo” tem 26 letras, o dobro de 13, portanto, mais mítico ainda).

Teríamos ainda o luxo de ter no banco de reservas um time composto por Tomás Antônio Gonzaga, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Raduan Nassar, Jorge Amado, Álvares de Azevedo, Monteiro Lobato, Dalton Trevisan e Antônio Vieira, que enfim teria optado pela nacionalidade brasileira, para completar os 23 convocados. Daria pra fazer mais umas três ótimas seleções. Do time sub-23 de escritores contemporâneos teríamos algo mais ou menos como João Anzanello Carrascoza, João Gilberto Noll, Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Ricardo Lísias, Lourenço Mutarelli, Milton Hatoum, Domingos Pellegrini, Marcelino Freire e Cristóvão Tezza. Isso para falar somente dos homens, pois o time das mulheres também seria genial – alguém aí se habilita a escalá-lo?

Em uma eventual Copa do Mundo da Literatura, eu me arrisco a dizer que faríamos frente, sem medo algum, a Portugal (teríamos que resolver o problema de marcar bem Camões e Pessoa), Espanha (do García Lorca a natureza cuida), Argentina (não deixar o Borges jogar), Inglaterra (vai que alguma tragédia acontece com o Shakespeare), EUA (não manjam do esporte) e Grécia (nem mandariam uma seleção por conta da crise). O problema seria enfrentar, em fases precoces, seleções como a França, a Alemanha e a Rússia que, para mim, seriam as francas favoritas a levar o troféu para casa. Obviamente essas são opiniões subjetivas de um amante da literatura. Não dá pra levar a sério.

Imaginações à parte, essa brincadeira com futebol serve para mostrar como literatura e futebol parecem estar distantes. Em uma das várias conversas que já tive com amigos estudantes de literatura e também fãs de carteirinha de futebol (daqueles que acompanham até as segundas e terceiras divisões de campeonatos estaduais e campeonatos B de países europeus), um dos integrantes afirmou: “A literatura nacional ainda deve um grande romance sobre futebol”. Aquilo ficou reverberando na minha cabeça. Revirei grandes obras da nossa literatura, revisitei textos e encontrei coisas muito tímidas relacionadas a futebol nos livros de ficção. O esporte aparece sim, mas está em geral reduzido a uma determinada cena, seja uma brincadeira de criança ou uma lembrança de adulto. Raramente é tema de um livro.

Na minha memória, retornando anos a fio, encontrei um livro chamado A vingança do Timão (1981), de Carlos Moraes. Li o livro quando estava no ensino fundamental, antiga sétima série, se a memória não me falha. Embora meus amigos corintianos corressem desesperados para pegar o livro na biblioteca para lerem e encontrarem referências do time de coração, o romance infanto-juvenil falava das dificuldades de um treinador em montar um time com meninos em um bairro da periferia de Porto Alegre. Eu, santista de carteirinha e já informado da “falácia” do título, li o livro de uma outra maneira, tentando aproveitar o máximo as dicas de dribles, embora eu não fosse propriamente um craque, para tentar executar na esquina de casa.

Depois não encontrei mais nenhum livro que tivesse o futebol como tema principal ou que lhe desse um espaço generoso. Hoje em dia, há inúmeras publicações sobre futebol. Porém, elas se limitam ao espaço clubístico. Os grandes clubes do país contam com vários títulos relatando os feitos gloriosos da história de cada time. O museu do futebol em São Paulo, por exemplo, possui um acervo assaz interessante sobre o esporte bretão nas terras tupiniquins. Estamos aparentemente bem servidos nesse gênero. E nem falarei da crônica esportiva, tão bem representada ao longo da história. Contudo, a ficção ainda dedicou, a meu ver, pouquíssimo ao futebol.

Esse esporte que, sendo ópio do povo ou não – aqui não há espaço para essa discussão, mas é uma afirmação muito limitadora e de senso comum – é um esporte que faz parte de nossa cultura, atingindo desde as camadas mais deficitárias até os ricos e intelectuais. Chico Buarque é fã da bola de capotão e ainda bate uma bolinha quando tem tempo. Nelson Rodrigues era apaixonado pelo seu Fluminense. Outros tantos escritores e personalidades intelectuais acompanham futebol e torcem por algum time. O tão odiado Galvão Bueno (atenção, não o cito como um intelectual) disse uma coisa que talvez seja verdade,  que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes que temos em nossas vidas. Julgo, e talvez esse julgamento seja inocência minha, que ele se refira a coisas básicas para a vida das pessoas: saúde, educação, acesso a bens de consumo, a bens culturais, segurança e outros. Segundo Galvão, durante uma Copa do Mundo, o futebol passa então a ser a coisa menos importante entre as mais importantes. Esporte que, sendo assim, em minha opinião, é muito mais do que uma simples competição e que pode/deve servir de tema para a arte.

Mas as coisas parecem estar mudando. Recentemente dois grandes romances sobre o tema foram publicados. O primeiro deles é O drible (2013), de Sérgio Rodrigues, vencedor do Prêmio Portugal Telecom de 2014. O livro tem um dos inícios mais espetaculares e belos dentro de tudo o que já li sobre futebol. Dois personagens assistem e comentam sobre um acontecimento da Copa de 1970. O lance é do mítico jogo Brasil 3×1 Uruguai, válido pela semifinal. Mesmo quem não acompanhou essa edição do mundial, assim como eu, já deve ter visto o lance no qual Pelé dá um “drible da vaca” no goleiro Mazurkiewicz e chuta a bola para fora. Não me atrevo a transcrever o trecho comentado. Lá vai o original:

Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol. Você entende isso? A intervenção do sobrenatural, o relâmpago de eternidade que caiu à esquerda das cabines de rádio e TV do simpático Jalisco, 17 de junho de 1970?

A descrição do lance dialoga diretamente com o imaginário do futebol para os brasileiros: Pelé, não o Edson Arantes que fala tanta bobagem que chegou a ser chamado de poeta calado pelo Romário, mas aquele Pelé mítico, driblador, finalizador, aquele Pelé que chegou a parar uma guerra, brincando de desafiar Deus. Não é à toa que o futebol é visto, muitas vezes e por muita gente, como uma espécie de religião. Ele tem esse poder. Acrescenta-se aí o fato de que o futebol é o menos previsível entre os esportes coletivos. Dificilmente no vôlei, no basquete, no handebol e no rúgbi, o time favorito perde. Pode ser que até perca um jogo ou outro, mas no final vai levar o campeonato. São sempre os mesmos times que levam. No futebol, é muito possível que um pequeno derrote um grande (nem discutamos aqui o fato de que há uma bipolarização no futebol europeu e que isso tende a se espalhar pelo mundo – esse é um tema a ser discutido por um blog sobre o esporte). Daí a crença na intervenção do sobrenatural no futebol. Isso levou Nelson Rodrigues a criar o personagem Sobrenatural de Almeida, um sujeito travesso feito um Saci que atrapalhava atacantes, beques e goleiros no Maracanã – geralmente em favor do Fluminense, time de coração do escritor.

Sobrenaturais à parte, o romance de Sérgio Rodrigues narra a história de Murilo Filho (alusão a Mário Filho, outra figura icônica do nosso futebol?), jornalista esportivo já aposentado e que sofre de uma doença que o levará em breve à morte. Nos últimos meses de vida, Murilo volta nos seus arquivos para relembrar os fatos gloriosos do futebol e que consagraram sua própria carreira como cronista. Neto, seu único filho, tenta se reaproximar dele no fim da vida e tentar estabelecer pela primeira vez um contato familiar com pai, uma vez que eles nunca se deram bem na vida.

O futebol, se não é o personagem principal do romance, é o tema procurado para a reaproximação de pai e filho e a expurgação dos pecados de Murilo Filho, que se arrepende de não ter ajudado uma estrela promissora chamada Peralvo que, segundo ele, se não fossem adversidades ao longo da vida, contusões e perseguições, teria sido melhor do que o próprio Pelé.

O outro livro que tem como tema o futebol é Tijucamérica – uma chanchada fantasmagórica (2015) de ninguém menos que José Trajano, brilhante jornalista esportivo. Se o sobrenatural aparecia timidamente no livro anterior, nesse ele dá as cartas. O livro é uma espécie de autoficção misturada com realismo mágico ao melhor estilo Gabriel García Marquez. O escritor colombiano, também fã de futebol, é inclusive citado pelo narrador-personagem do livro, também chamado de José Trajano.

Cansado de ser zoado por ser um torcedor de um time decadente no Rio de Janeiro – o América Football Clube, sediado na mítica Campos Sales –, Trajano resolve recorrer à literatura para tirar o time da fila. Com uma ajuda de vários pais de santo, ressuscita todos os grandes jogadores do América quando estavam no seu auge para vencer o Campeonato Carioca. Porém, ao fazer isso, também ressuscita grandes craques dos clubes rivais. É claro que muitos problemas aparecem. Os jogadores não se acostumam a jogar com novos uniformes, gramados perfeitos e chuteiras e caneleiras modernas. O mundo inteiro tem notícia do feito, alguns são prós e outros são contras a intervenção do sobrenatural em um campeonato oficial. Até o Papa se pronuncia: como fã de futebol e torcedor do San Lorenzo, resolve apoiar o Campeonato Carioca com os ressuscitados.

O romance passa por várias histórias clássicas e icônicas do futebol nacional e é uma bela homenagem à nossa história. Ao mesmo tempo hilário e muito divertido, tem um grande tom saudosista – embora seja crítico ao próprio saudosismo –, bem como é rico em referências a pensadores, artistas e ícones do entretenimento e da história. Confesso que me surpreendi muito na leitura do livro. Sei da capacidade de Trajano dentro do futebol, mas não imaginava que pudesse ser um bom escritor. Ao fim de tudo, acabei me tornando um pouco americano também.

Temos aqui dois exemplos de bons romances sobre futebol – fica aí a dica para leitura. Se souberem da existência de mais romances com essa pegada, indiquem-me, por favor. Ainda estamos esperando o grande romance sobre o saudoso Grêmio Maringá, a ser escrito pelo amigo Nelson Alexandre, que teima em nunca chegar. Mas é fato que ainda devemos criar um nicho de grandes produções em homenagem ao esporte mais praticado no mundo e que faz parte do imaginário mítico de nosso país.

Luigi Ricciardi Autor

Luigi Ricciardi é doutorando em literatura (UNESP/Araraquara) e vive em Maringá/PR. Publicou dois livros de contos Anacronismo Moderno (2011), Notícias do Submundo (2014) e Criador e Criatura (2015). Quando se trata de livros é oniomaníaco (para vinhos e cervejas também). Gosta de uma mesa de bar, bebida, risadas e filosofia. É tarado por literatura. E por viajar. Vive buscando estradas.