A escrita gótica e romântica em “Os Mistérios de Udolpho”

O que você precisa conhecer sobre Os mistérios de Udolpho, romance precursor do gênero gótico, escrito pela autora inglesa Ann Radcliffe

 

Precursores

O romantismo foi um movimento artístico e filosófico que se iniciou no final do século XVIII e durou até a metade do século XIX. Foi caracterizado por ser um movimento contrário ao ideal aristocrático e por buscar uma identidade nacional. Por conta dessa busca, o movimento trouxe um sentimento de idealização do herói medieval – aquele que lutou em cruzadas e defendeu a sociedade cristã contra os muçulmanos – e sob esse herói construir uma ideia de nação.

Na literatura, o romantismo se iniciou com a publicação d’Os Sofrimentos do Jovem Werther, que traz grandes característica do romantismo: individualismo, subjetivismo, idealização e sentimentalismo. Após a publicação de Werther, uma série de livros com temáticas semelhantes foram escritos.

Concomitante ao surgimento do romantismo, outro movimento também nasceu, o gótico, e ele traz algumas diferenças do romantismo, como o imaginário sobrenatural, mistério e terror. O gótico teve seu início com a publicação do livro O Castelo de Otranto, e da mesma forma que Os sofrimentos do Jovem Werther, Otranto influenciou muitos escritores e livros posteriores.

Tanto Otranto quanto Werther foram escritos no final do século XVIII, 1764 e 1774, respectivamente, e ambos deram início a movimentos artísticos que influenciaram o mundo. É sob as características desses dois livros e os movimentos criados por eles que será possível analisar o livro Os mistérios de Udolpho.

Os mistérios de Udolpho

A obra Os mistérios de Udolpho foi escrita por Ann Radcliffe, uma escritora inglesa que viveu no final do século XVIII e início do século XIX, considerada pioneira no gênero gótico e grande influenciadora na consolidação do mesmo. Radcliffe trouxe para o gótico a forte presença do mistério – e por consequência a presença do sobrenatural também. O livro foi publicado em 1794 e é considerado um dos mais conhecidos da autora, por conta do livro A Abadia de Northanger, de Jane Austen, no qual a personagem principal cita diversas vezes Os mistérios de Udolpho.

Os mistérios de Udolho apresenta uma enredo gótico e uma estrutura romântica. No início do livro, a personagem principal, chamada Emily Aubert, vivia com a sua família no campo e por consequência de enfermidades, ela perde seus dois irmãos e sua mãe. Por conta dessa perda, o pai de Emily, Sr. Aubert, fica doente e tem que viajar para Languedoc, um local de bons ares. Durante essa viagem, a família Aubert conhece o aventureiro Valancourt, e logo se tornam amigos, visto que tanto a família Aubert quanto Valancourt amam paisagens.

Uma obra híbrida?

Nesse período do livro é possível perceber a estrutura romântica da obra, visto que as paisagens possuem uma descrição bem detalhada, chegando a ser cansativa, e a presença de uma linguagem extremamente poética.  No decorrer da viagem, a saúde do Sr. Aubert fica mais debilitada, principalmente quando eles chegam perto de um castelo abandonado o qual pertenceu a alguém que o Sr. Aubert conhece e estima muito.

Ao falecer, o Sr. Albert deixa Emily incumbida de uma missão: voltar a sua antiga residência e destruir antigos documentos que envolviam o antigo dono do castelo abandonado, e também deixa Emily sob os cuidados de sua tia Madame Cheron. Ao voltar para sua antiga casa, Emily descobre que Valancourt está apaixonado por ela; nesse mesmo momento de declaração surge a sua tia,  que por sua vez censura a sobrinha por ela estar a sós com um homem.

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Assim, Emily vai morar com a sua tia e, nesse período, o seu amor pelo jovem Valancourt se intensifica, entretanto, madame Cheron não permite esse casamento, ao mesmo tempo em que ela se casa com o italiano Montoni. A relação da madame Cheron com o italiano Montoni é de interesse financeiro e ao perceberem que ambos não são tão ricos, o casamento se torna um “inferno”. Ao perceber que não vai conseguir muito dinheiro, Montoni resolve se aproveitar de Emily, contudo a paixão entre a menina e o jovem aventureiro atrapalha os planos do italiano, e por isso ele se muda com a esposa e sobrinha para o castelo de Udolpho.

Montoni tem um amigo que é conde e ele se chama Morano. Esse conde se apaixonou pela Emily, mas ao perceber que Morano não possuía muitos bens, Montoni proibiu o casamento com entre eles, fazendo com que Morano quisesse raptar a menina. Por conta da ganância, Montoni tenta possuir os bens da Sr. Montoni (antiga madame Cheron), contudo ela reluta em passar seus bens para ele, ocasionando assim sua prisão no castelo de Udolpho.

Assim, Emily também fica presa no castelo, mas diferente de sua tia, ela pode andar pelo espaço e é nesse momento da narrativa que o gótico se manifesta com mais força, pois a imagem do castelo, aliado com os mistérios que permeiam a vida da protagonista, revelam o enredo gótico da obra. Ao final, quando todos os mistérios são revelados, o leitor percebe que era somente mistério mesmo, pois não havia de nada sobrenatural envolvendo o castelo “mal-assombrado” ou até mesmo a questão familiar.

O que sobra da obra?

Enfim, Ann Radcliffe escreveu um dos principais romances do gótico, mesmo este não tendo nada de sobrenatural e também um romance bastante romântico, vide a linguagem poética e as descrições das paisagens. Mesmo que a busca do romantismo seja encontrar uma ordem e identidade e o gótico busca pelo místico e sobrenatural, fica a revelação do híbrido que a obra Os mistérios de Udolho é.

Gabriel Inácio Luz Autor

Formado em Estudos Literários pela Unicamp. Gabriel é um amante das narrativas, independente do formato ou da mídia.