A Construção e a Desconstrução romântica em A Mão e a Luva

Saiba o que há de inovador em A mão e a luva, romance do jovem Machado de Assis

A Mão e a Luva, segundo romance de Machado de Assis, difere-se dos outros livros da fase dita ‘romântica’ do autor, devido ao “(…) seu trabalho analítico”, que “procura formular e poetizar — aí a surpresa — o interesse bem compreendido das partes, em questões de cooptação, no que procede com reflexão e audácia” (SCHWARZ, 2012, p.95). Publicado em 1874, narra a história de Guiomar, moça de origem humilde que ascende socialmente por ser afilhada de uma baronesa. O drama da heroína está na escolha de um marido entre seus três pretendentes: o romântico Estêvão, o frio Luís Alves e o preguiçoso Jorge.

O trunfo do livro é a abertura estética do romance brasileiro ao Realismo. Porém, a artimanha de Machado para atingir tal fim é perspicaz: ele introduz a novidade do real por meio da desconstrução do que seria seu antagonista: o Romantismo. Então, que é A Mão e a Luva? Um romance romântico, realista, ou nenhum dos dois? Veremos que a questão é mais complexa do que se pensa.

A construção do clima romântico na narrativa se dá, principalmente, por duas forças maiores: a influência do Romantismo estrangeiro e as referências ao movimento análogo no Brasil. Logo no início do livro, enquanto a personalidade das personagens ainda está se esboçando, o narrador cita um traço fundamental para a formação de Estêvão: “O rapaz acertara de abrir uma página de Werther; leu meia dúzia de linhas, e o acesso voltou mais forte do que nunca.” (ASSIS, 2005, p.17). O acesso em questão era o desespero causado pela rejeição primeira de Guiomar, que o colocou na posição de amante abandonado. Já a referência feita é ao romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, que se tornou molde para a estética ultrarromântica. O livro termina com o suicídio do protagonista, depois de uma vida amarga e depressiva, calcada na ausência da mulher amada. Werther e Estêvão são muito similares, já que apresentam personalidades depressivas e exageradas: “Apenas direi por alto que ele pensou três vezes em morrer, duas em fugir à cidade, quatro em ir afogar a sua dor mortal naquele ainda mais mortal pântano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espírito apenas um joguete de sensações contínuas e variadas. A força, a permanência do afeto não lhe bastava a dar seguimento e realidade às concepções vagas de seu cérebro – enfermo, ainda quando estava de saúde.” (ASSIS, 2005, p.72).

Estêvão é quase um Werther brasileiro, não fosse o seu desfecho. E até nesse ponto o narrador ironiza o seu destino no final de A Mão e a Luva: “A frouxidão do ânimo negou-lhe essa última ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ela.” (ASSIS, 2005, p.115). Ao concluir que o rapaz não teve sequer coragem de pôr fim à própria vida, o narrador deixa claro que a personalidade romântica é meramente discursiva e frouxa, ou seja, não está preparada para enfrentar ou questionar a realidade.

Seguido do romantismo alemão, o narrador convida também o inglês: “As mesmas quimeras tinha, e a mesma simpleza de coração; só não as mostrara nos versos que imprimiu em jornais acadêmicos, os quais eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. ” (ASSIS, 2005, p.21, grifo meu). Lord Byron, representante fiel do ultrarromantismo, é aqui citado para trazer consigo a ideia do spleen, do escape do sofrimento na boemia, e dos exageros românticos. Há ainda um inglês importante, mas que será matéria de outro tópico.

Após proporcionar esses diálogos com os estrangeiros, o narrador também estabelece uma ligação com os românticos nacionais. Estêvão é claramente um representante da 2ª geração — o mal do século — caracterizada pelo desejo da concretização do amor inalcançável, pela nostalgia da infância e o escape pela morte: “A ideia do suicídio fincou-lhe mais adentro no espírito […]. Não tenho outro recurso, pensou ele; é necessário que morra. É uma dor só, é a liberdade. Ao voltar para casa, uma criança que brincava na rua […] fê-lo […] invejoso daquela boa fortuna da infância […]. Mas a inveja da morte e a inveja da inocência foram ainda substituídas pela inveja da felicidade.” (ASSIS, 2005, p.72).

A desconstrução do Romantismo começa, entretanto, quando a personagem que materializa essa escola estética é constantemente criticada e satirizada. Estevão representa claramente os ideais ultrarromânticos, byronianos, com um estilo semelhante a Álvares de Azevedo na primeira parte da sua Lira dos Vinte Anos. Ao contrastá-lo constantemente com Luís Alves, homem frio e calculista, o narrador exalta a personalidade desse último em detrimento da do nosso romântico. Ao fim do livro, é clara a superação das tragédias românticas: a heroína, Guiomar, escolhe Luís Alves, que casava perfeitamente com a sua ambição: “Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.” (ASSIS, 2005, p.116).

No entanto, o grande trunfo do romance machadiano foi a inserção do drama na narrativa romanesca. Além das inúmeras referências a peças de teatro, a própria estrutura do romance foi modificada, mesclando elementos dramáticos com a prosa. Sobre este tópico, utilizarei o estudo de Ronaldes de Melo e Souza, O Romance Tragicômico de Machado de Assis.

Como aludido anteriormente, eis aqui o inglês que faltava: William Shakespeare. Porém, em A Mão e a Luva, é menos lírico e mais dramático. Mrs. Oswald nos apresenta a ele: “Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juízo.” (ASSIS, 2005, p.34), numa referência a uma das comédias shakespearianas. Assim como o futuro Bento Santiago, de Dom Casmurro, Estêvão assiste a uma apresentação de Otelo e a aplaude fervorosamente. Mais à frente na história, o nosso romântico se depara com uma indagação fatal, que também dialoga com os gêneros teatrais: “Estevão retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interrogação:  — Entro num drama ou saio de uma comédia? ” (ASSIS, 2005, p.31, grifo meu).

Entretanto, não são as referências a peças que fazem a “[…] revolução fundamental a que Machado de Assis submeteu a tradição narrativa brasileira.” (SOUZA, 2006, p.87); e sim o “mecanismo estrutural do enredo dramático na trama de efabulação romanesca” (SOUZA, 2006, p.87). Ou seja, em seu A Mão e a Luva, Machado inaugura uma nova maneira do fazer literário, focando principalmente no drama de caracteres. Logo na primeira advertência ao leitor, ele já deixa claro que o objetivo principal da narrativa será “[…] o desenho de tais caracteres […] servindo-me a ação apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis.” (ASSIS, 2005, p.12). Dessa forma, opõe o livro ao romance de costumes e ao romance psicológico romântico e realista.

E o fio condutor de tudo isso é o narrador. Irônico, debochado – ainda que não tão intruso quanto os da considerada ‘fase realista’ -, esse narrador de A Mão e a Luva se apropria da dramaturgia, regendo a narrativa como lhe convém. Constantemente lembrando o leitor tradicionalmente romântico de que ambos estão imersos em um mundo diegético ficcional, mas verossímil – “[…] é privilégio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras não veem ou não podem ver.” (ASSIS, 2005, p.79) -; de que ele não será um idealizador, e procurará representar fielmente a realidade — “Era melhor, — mais romântico pelo menos, que eu o pusesse a caminho da academia, com o desespero no coração, lavado em lágrimas, ou a bebê-las em silêncio, como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Ele foi daqui com os olhos enxutos, distraindo-se dos tédios da viagem com alguma pilhéria de rapaz, — rapaz outra vez, como dantes.” (ASSIS, 2005, p.18) — e que o seu trabalho maior é desvendar os segredos anímicos de seus personagens, sobretudo ressaltando que é ele quem escolhe as descrições dos perfis: “Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina a cega, nem fazê-la morrer de um amor silencioso e tímido. Nada disso era, nem faria.” (ASSIS, 2005, p.93).

A ironia mais mordaz do narrador é em relação aos estereótipos românticos, materializados nas figuras dos pretendentes de Guiomar: o ardor exacerbado de Estêvão, que é constantemente ridicularizado; o egoísta e frio Luís Alves; e o burguês preguiçoso e mimado Jorge, brilhantemente sintetizado na passagem: “possuir era seu único ofício.” (ASSIS, 2005, p.87).

E é esse narrador irônico que tomará as rédeas da história, tomando o papel do dramaturgo para si: “Na encenação do drama de caracteres, o narrador assume o papel do dramaturgo, que representa personagens, mas não se representa, e do ator que irrompe no palco e se converte no espectador privilegiado, que supervisiona ironicamente os atos representados.” (SOUZA, 2006, p.87).

Assim, podemos concluir que “A caracterização de A Mão e a Luva como romance romântico resulta do erro analítico da tradição crítica, que não consegue depreender a interação dialética da ironia do narrador e da tonalidade sentimental do evento narrado. O estilo narrativo oscila entre o sentimental e o irônico em conformidade com a representação dos caracteres e com a auto-representação do narrador.” (SOUZA, 2006, p.86)

Desta forma, podemos caracterizar, não só o livro abordado, como também toda a primeira fase machadiana, como “pré-realista”. Portanto, A Mão e a Luva e sua fase correspondente vieram para preparar o território para o Realismo pesado e crítico que Machado viria a nos apresentar com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra na qual é nítido que a estética realista triunfou: “[…] entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o Romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o Realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.” (ASSIS, 2010, p.59).

 

Referências:

ASSIS, Machado de. A Mão e a Luva. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda., 2005.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Editora Abril S.A., 2010.

SOUZA, Ronaldes de Melo e. “A Ironia do Narrador em A Mão e a Luva”, in: O Romance Tragicômico de Machado de Assis. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2006.
SCHWARZ, Roberto. A mão e a luva in O paternalismo e sua racionalização nos primeiros romances de Machado de Assis in Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2012 (6ª edição).

Bruna Kalil Autor

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/