A Filha Perdida e a Maternidade Real

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O que Elena Ferrante nos conta sobre a maternidade em A Filha Perdida

Basta ler A Filha Perdida (La Figlia Oscura) para se apaixonar permanentemente pela escrita de Elena Ferrante, atual romancista italiana que tem tido merecida repercussão internacional.

O livro é narrado em primeira pessoa pela personagem Leda, uma professora universitária de 47 anos que resolve passar férias na costa jônica, litoral sul da Itália. O romance é, basicamente, a narração dessas férias de julho, mas com paulatinas revelações sobre a história de vida da personagem principal.

Quando as filhas Bianca e Marta se mudaram para a cidade de Toronto, no Canadá, onde o pai já trabalhava há anos, Leda se deparou com um sentimento diferente daquele que esperava ter. Em vez de imergir na conhecida síndrome do ninho vazio, sentir-se sem chão, sem função na vida, deixando de ter o papel de mãe; Leda sentiu alívio. Um alívio constrangedor. Não mais precisava controlar horários, se preocupar com as filhas, onde estavam, o que comiam, com quem se estavam se encontrando. A única obrigação que lhe restou em relação a elas foi telefonar uma vez por dia e tomar ciência de como iam as coisas.

Passou a comer numa trattoria próxima. Como num passe de mágica a casa passou a se manter arrumada, sem grandes esforços e sem necessidade de faxineira. Olhando-se no espelho, constatou: parecia até mais jovem.

Assim rejuvenescida, viajou. Férias sozinha. Um encontro consigo mesma. Um salutar egoísmo. Alugou um apartamento pequeno e barato, numa região litorânea da Itália. Assim, diariamente, pegava o carro, seguia pela estrada que margeava a costa. Estacionava. Atravessando a pé um pinheiral, alcançava a praia, luminosa. Deleitava-se com o mar, o sol e até com leituras e anotações acadêmicas que não abandonara de todo. Seu olhar se dividia entre a paisagem praiana, os papéis que levara e os banhistas que ali se prostravam. Aos poucos seu interesse pelos frequentadores da praia foi aumentando.

Travou contato com o salva-vidas Gino, a jovem Nina e sua filhinha Elena – esta sempre às voltas com a boneca Nani, também chamada de Nile, Nena ou Nennella.

O núcleo familiar em torno de Nina se tornou, aos poucos, uma verdadeira obsessão para Leda, que foi relacionando aquela ruidosa família napolitana às pessoas que fizeram parte de seu próprio passado.

Rosaria, grávida de seu primeiro filho aos 42 anos, surgia na praia sempre carinhosa para com a menina Elena, mesmo nos momentos mais tensos – irritantemente dando a entender que seria uma mãe melhor que a cunhada Nina (às vezes estressada).

Observando Rosaria, a narradora se reporta a seu casamento desfeito, a uma antiga conhecida, detestável, chamada Lucilla. Esta sempre brincava com Bianca e Marta de maneira descontraída, descompromissada com os ensinamentos de Leda. Aparecia fazendo papel de boa mãe, que tudo permite. Mas depois saía da visita que fora fazer junto com o marido Matteo, sem preocupação alguma com aquelas crianças que cativara tão irresponsavelmente. Sem preocupar-se com as repercussões das brincadeiras nocivas ao cotidiano doméstico, as vozinhas infantilizadas, os desestímulos à evolução rumo a uma certa maturidade que permitisse à mãe real ter algum espaço para si. Leda ficava com o papel de má, da que está ali todos os dias, que exige silêncio, ordem, respeito: a progenitora malvada. Já Lucilla surgia magicamente em momentos especiais e desfazia, em minutos, o que fora ensinado a duras penas àquelas crianças. Depois, endeusada, sumia para sua casa sem arcar com nenhum dos inconvenientes da maternidade.

            A Filha Perdida trata principalmente disto: dos inconvenientes da maternidade, praticamente um tema tabu ainda hoje. Nota-se que ao calabrês Gianni, ex-marido de Leda, as filhas nunca pesaram. A sociedade, mesmo atualmente, não confere ao pai obrigações tão intensas quanto as que exige das mulheres. Ainda neste nosso século 21, a mãe que não quer a guarda de sua prole, após a separação, é tida como desnaturada; mas ao homem divorciado só se exige que pague a pensão regulamentar para cooperar com o sustento material das crianças. Ao contrário do que ocorre com a mulher que sai de casa, ninguém lhe acusa de ter abandonado os filhos.

Entre as lembranças da narradora Leda, está a marcante Brenda (a quem só viu uma vez), inesquecível por ter tido a coragem de largar o marido e fugir com o amante, pegando caronas, sem se preocupar com o futuro que os esperava.

Pelos olhos de Leda, vemos a jovem Nina talvez tentada a fazer como Brenda, deixando a família para trás, arranjando um amante. Seria uma fuga? Ou libertação? Seria lícito ajudá-la nisso?

Até que ponto na atual sociedade o papel de mãe não seria também uma cadeia? Durante algum tempo assim foi para Leda. Valia a pena seguir presa às filhas, numa entrega constante, vendo-as crescer e irem se tornando desejáveis aos olhos dos homens, enquanto ela mesma envelhecia pouco a pouco? Qual a escolha certa frente a isso? Qual o sentimento correto perante essa realidade? Pode-se invejar as filhas? E arrepender-se de tê-las gerado?

Ao contrário das pseudo-literaturas açucaradas, neste livro não há heroínas ou vilãs. Muito menos musas, mocinhas ou virgens diáfanas. Só mulheres. E as mulheres ficcionais de Elena Ferrante são também muito mais reais que as imagens hipócritas difundidas por aí no dito mundo real.

            A Filha Perdida é um romance excepcional, que contesta as representações idealizadas da maternidade e das emoções da mulher em geral. É um livro de libertação dos estereótipos e abre caminho para discussões extremamente salutares nos dias de hoje. A nossa sociedade opressiva, patriarcal, precisa ser sacudida em seus alicerces. Frente a estes, A Filha Perdida é um abalo sísmico muito bem vindo.