Até que o suicídio nos separe – Beatles, Murakami, a adaptação cinematográfica e as possibilidades narrativas de Norwegian Wood

Haruki Murakami

Tudo começa com a paixão de um escritor japonês pelo ocidente. Deste contraponto, possível apenas após a ocidentalização do Japão a partir da Segunda Guerra, é donde nascem os romances de Haruki Murakami. Minha querida Sputnik, Kafka à beira-mar, ou sua recente trilogia 1Q84, algumas de suas obras. Mas entre os livros do escritor japonês, um título chama a atenção: Norwegian Wood.

É isso mesmo, Murakami se utiliza da canção dos Beatles para escrever o romance apelidado de “O Apanhador no Campo de Centeio japonês” e, em 2010, foi adaptado para o cinema.

A música Norwegian Wood

O blog Panda Beatles Culture Corner, de Sergio Aparecido Machado, que posta incríveis curiosidades sobre os garotos de Liverpool, traz dois depoimentos de Jonh Lennon sobre sua motivação ao compor Norwegian Wood:

Eu estava tentando escrever sobre um caso amoroso, então a letra era muito burocrática. Estava tentando escrever sobre um caso amoroso sem deixar minha esposa saber que eu estava tendo um. Eu estava meio que escrevendo sobre minhas experiências… apartamentos de garotas e coisas desse tipo.

Norwegian Wood é uma música inteiramente minha. Era sobre um caso amoroso que eu estava tendo. Eu fui muito cauteloso e paranóico, pois eu não queria que minha esposa Cynthia, soubesse que realmente havia algo acontecendo fora do ambiente doméstico. Eu sempre tinha uns casos amorosos “rolando”, então eu estava tentando ser sofisticado quanto a escrever sobre um caso amoroso… mas de forma nebulosa que não desse para distinguir. Entretanto, eu não me lembro de qualquer mulher específica que tivesse a ver com a música.

Cynthia e John Lennon

E isso tudo nos lança diante da pergunta: e por que o nome da música é este? Norwegian Wood, se traduzido ao pé da letra é: “Madeira Norueguesa”. Há várias suposições. Entre elas, que é o trocadilho com o apelido de uma espécie forte de maconha. Há quem diga também que é uma analogia de “madeira” com “ereção”. A única coisa que se tem certeza é que Norwegian Wood é nome de um fabricante de móveis refinados – o que não diz muita coisa.

Pronto, agora você já pode dar o play e, enquanto ouve a música, entender qual a ligação dela com o romance de Haruki Murakami.

O homem por trás do livro

Embora Norwegian Wood não faça referência ao livro de J.D. Salinger, é fato conhecido que Murakami traduziu O Apanhador no Campo de Centeio para a língua japonesa. O escritor – nascido em Kyoto, em 1949 – formou-se em estudos teatrais na Universidade de Waseda, mas contrariando o senso comum – ou nem tanto assim, pois hoje os japoneses se desapegam das suas origens e abraçam o ocidente (fato que o escritor Yukio Mishima contestou com a própria vida) –, Haruki Murakami teve como suas principais referências: Fitzgerald, Vonnegut e Capote, entre outros.

Murakami é tímido, corre maratonas – o que inspirou seu livro Do que eu falo quando eu falo de corrida –, ama gatos e não esconde sua paixão por música, elementos que aparecem em suas histórias. Antes de ser escritor em tempo integral, ele teve um bar de jazz em Tóquio que se chamava: “Peter Cat”.

Para se ter uma ideia de seu alcance no Japão, ao lançar em 2013 o livro Colorless (ainda sem tradução para o português), e anunciar que faria uma entrevista coletiva, multidões se aglomeraram em frente às livrarias. O comportamento foi comparado ao lançamento de Harry Potter.

Norwegian Wood alcançou tal sucesso de vendas no Japão que foi anunciado mundialmente que: “todo lar japonês tem um exemplar deste livro de Murakami”. Afinal, calculou-se que foi vendido um livro para cada quatro pessoas na terra do sol nascente.

Haruki Murakami correndo

O Apanhador no Campo de Centeio japonês

Se no clássico americano o leitor confere um final de semana na vida de Holden Caulfield, um estudante de dezesseis anos, no livro de Murakami, lançado em 1987 no Japão, acompanha-se o jovem Toru, mas numa trajetória completamente diferente.

Capa de Norwegian Wood na edição brasileira, da editora Alfaguara

O que poderia se abastecer dum clichê, um triângulo amoroso, torna-se uma fidelidade à dureza com que se trata a realidade, algo muito frequente na literatura japonesa. Kizuki e Naoko, o casal perfeito, inseparável desde a infância, tem a amizade de Toru. E então este Kizuki se suicida e seu ato vira um fantasma para estes dois amigos, ela de coração machucado, ele sem entender a atitude tomada.

O tempo passa, Toru entra na universidade, e por mais que ele seja alguém quieto, que geralmente fica no seu canto lendo romances, torna-se amigo de Nagasawa, um dos rapazes mais populares do campus. Toru reencontra Naoko e eles passam a caminhar juntos, tendo conversas em que investigam o passado, mas que passam a moldar o futuro dos dois. Surge também a figura de Midori, uma estudante espontânea e que não economiza nos comentários sádicos, mas que acaba se apaixonando por Toru.

Daí para frente, entram em cena o terror das memórias, inúmeras relações sexuais, o fantasma do suicídio, e as diferentes formas como cada um destes personagens concorda com seus dramas. Até que o suicídio separe alguns, e una outros.

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Do livro para o cinema – e a difícil tarefa de adaptar algo assim

Naoko e Toru

Noruwei no mori, no Japão; Tokio Blues, nos EUA; e Como Na Canção dos Beatles: Norwegian Wood, no Brasil (podem rir de nossa tradução); o livro de Haruki Murakami foi levado ao cinema por Tran Anh Hung, em 2010.

Para quem está “colonizado” pelos filmes hollywoodianos, certamente a obra japonesa não agradará. As cenas são longas, sem os constantes cortes dos blockbusters americanos, ou explosões, ou finais de “felizes para sempre”. A  steadycam  (a câmera móvel que acompanha os personagens) do cineasta Tran Anh Hung segue pelo filme inteiro, permitindo detalhes que vão compondo uma estética refinada, em cenários deslumbrantes.

A escolha dos atores também não decepciona. Ken’ichi Matsuyama faz muito bem o papel de Toru Watanabe. E os dois maiores alvos do protagonista, Naoko (interpretada por Rinko Kinkuchi) e Midori (interpretado por Kiko Mizuhara) terminariam num empate técnico, caso estivessem num concurso de beleza.

Mas comparando a obra literária à cinematográfica, percebe-se algo interessante.

Midori e Toru

As possibilidades narrativas

De forma geral, os leitores sempre dizem: “o livro é bem melhor que o filme”. E quando a adaptação não segue o livro ao pé da letra, se discute a fidelidade do cineasta, etc.

Mas Como Na Canção dos Beatles: Norwegian Wood peca justamente por sua fidelidade. Ao se assistir este filme, feita a leitura do livro de Murakami, tem-se a sensação de que o diretor deveria ter sido menos fiel à obra literária. Quando buscou levar à tela toda melancolia do livro, acabou por tornar o filme lento e pesado.

A temática do suicídio, por si só, dá um peso à história que poderia ser mascarada pela juventude dos personagens, seus sonhos, seus desejos. Porém até mesmo nas relações sexuais, o filme é sombrio, como se a vida nada significasse.

O interessante nesta obra é notar que a fidelidade cinematográfica trai a própria essência do livro, que se não é uma mensagem de esperança, pelo menos é uma ânsia por continuidade, por lidar com os desafios de forma diferente.

O filme não passa nada disso.

Naoko, Toru e Reiko (segurando o violão), quando interpreta Norwegian Wood, dos Beatles, em meio ao filme

Vilto Reis Autor

Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.