Conto bom é aquele que perturba – O IV Festival Nacional do Conto

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Nem mesmo os contos premiados desses escritores citados nasceram prontos. Segundo suas falas no festival, algumas narrativas foram trabalhadas arduamente por meses, talvez anos, antes de merecerem a publicação.

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Festival do Conto: Contofantasma (23 de maio de 2014), com Márcia Denser (SP), Noemi Jaffe (SP), Cíntia Moscovitch (RS) e Luísa Geisler (RS). Mediação de Katherine Funke. Foto de Henrique Pereira

Imagine uma reunião de contistas premiados – premiadíssimos, aliás – em um palco iluminado, em um teatro lotado, mas não muito grande, de apenas cem lugares. Lotado. A plateia absorta. A conversa, mais uma troca informal de ideias do que um debate acadêmico, é franca. Tanto que, numa fileira obscura dos fundos, alguém de quem só se consegue ver os olhos brilhantes levanta a mão e pergunta, com incrível delicadeza na voz trêmula, qual é o segredo de um bom conto.

Agora imagine o silêncio de depois dessa pergunta, os quatro contistas no palco se entreolhando para ver quem se arrisca a responder. E imagine a repetição da cena por cinco noites seguidas. Foi exatamente assim, recorrente, a angustiante impossibilidade de comunicar o suposto “segredo” da construção de um conto reconhecidamente bom, um conto genial, durante o 4. Festival Nacional do Conto (iniciativa idealizada por Carlos Henrique Schroeder), que aconteceu no Sesc Prainha, em Florianópolis (SC), de 19 a 25 de maio.

Participei como mediadora do evento em duas noites e fui plateia virtual nas demais. Observei a pergunta noite após noite, em diferentes elaborações. De tanto ouvi-la, ela ficou mesmo é me cutucando por dentro, como uma gripe mal curada. Depois de ler tudo quanto é texto teórico, ensaio e declaração sobre o tema, já faz alguns dias que penso nisso. E aí vão algumas tentativas de resposta.

 

Conselhos práticos

Os convidados do festival responderam à pergunta sempre com alguns conselhos práticos importantes. Ler muito é a primeira dica, óbvia e repetida desde Sérgio Sant’Anna, que abriu o evento, a Cintia Moscovich, umas das convidadas da última noite de debates. Ler muito: os clássicos e também os contemporâneos. Mas só ler o que é bom. Descartar o ruim. Não perder tempo.

É uma dica simples e concreta: ler os outros. E ler pelo menos um conto de cada um dos 16 convidados do festival. O.K., essa parte sou eu quem digo. Vale a pena, pois entre os convidados havia grandes nomes, entre eles – para citar os que ocupam as notícias literárias do momento – Sérgio Fantini, cujo livro de contos Novella acaba de ser indicado ao Portugal Telecom, ou Cintia Moscovich, já citada, ganhadora desse mesmo prêmio ano passado, na categoria contos (e três vezes ganhadora do Açorianos, e uma vez do Jabuti, e outra do Clarice Lispector; entre muitos outros prêmios).

Outro consenso entre os convidados do festival é que buscar oficinas de criação literária ou grupos onde a sua produção fique à disposição de leitores críticos também faz parte do caminho para a criação de um bom conto. Especialmente os gaúchos defenderam essa prática: Cintia Moscovich e Luisa Geisler foram alunas de Assis Brasil; Altair Martins dá oficinas em que ele mesmo se desafia e produz junto com os alunos.

Sobre a questão de compartilhar sua produção em andamento para ouvir opiniões, em geral, todos os convidados do festival disseram que todo contista deve ouvir a intuição, em primeiro lugar, para saber se o que fez ficou bom ou não; só depois, pode-se pedir para outra pessoa ler.

O também muito premiado contista (e romancista) Altair Martins puxou o assunto da valorização dessa outra pessoa, desse “proto-leitor”, alguém de confiança qualificado como conselheiro, juiz, editor e leitor exigente. Contou que de vez em quando vem para Santa Catarina para encontrar um desses proto-leitores por aqui: uma viagem que vale a pena, porque o que o outro diz serve-lhe de parâmetro, bússola, termômetro. É uma etapa de imersão na edição do texto pelo próprio autor, antes de torná-lo disponível para o mundo.

Nesse sentido está também o conselho prático do paulista Rafael Gallo: em vez de publicar seus contos no Facebook, em blogs, e-zines ou similares, guarde-os, mantenha-os inéditos, junte-os em um volume coeso e envie para um prêmio como o Sesc Literatura (que premiou Gallo por Reveillon e os outros dias).

Protegido pelo anonimato, só o que vale nesse tipo de concurso é o conto em si. O conjunto de contos, no caso do Sesc, ou um conto específico, como 25. Concurso de Contos Paulo Leminski[1]. Os convidados do festival foram claros em suas recomendações: guarde seus inéditos, organize-os, inscreva-os nos concursos (mas evite os que cobram taxa de inscrição) e aguarde.

Você pode se surpreender com o resultado, como aconteceu com Gallo e com a jovem gaúcha Luisa Geisler, esta premiada por Contos de Mentira e, no ano seguinte, pelo romance Quiçá. Tudo bem, mas voltamos à mesma tecla: por que foram premiados? O que faz esses contos serem tão geniais?

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Festival do Conto: Contofantasma (23 de maio de 2014), com Márcia Denser (SP), Noemi Jaffe (SP), Cíntia Moscovitch (RS) e Luísa Geisler (RS). Mediação de Katherine Funke. Foto de Henrique Pereira

 

Classificações

A resposta não está pronta. Nem mesmo os contos premiados desses escritores citados nasceram prontos. Segundo suas falas no festival, algumas narrativas foram trabalhadas arduamente por meses, talvez anos, antes de merecerem a publicação.

Seus autores não tiveram pressa em se verem lidos e elogiados. Antes se perceberam perturbados pelo que escreviam. E no final produziram contos que perturbam. Então, são Contos que não passam despercebidos, porque perturbam.

Visto assim, pode-se dizer que um conto genial não precisa ser um conto clássico com mistério e o velho final surpreendente de Edgar Allan Poe, aquela revelação e resolução da história secundária no final, com a presença de duas histórias que se relacionam, num texto breve, com alguma tensão e intensidade, como ensinam Ricardo Piglia e Julio Cortázar.

Um conto genial pode nem mesmo parecer um conto, a olhos desavisados.

Em muitos dos contos contemporâneos premiados, a tensão não se resolve, mas não mais tanto como em Ernest Hemingway e já de um novo jeito, ainda mais sutil, leve e ao mesmo tempo tenso (vide Enquanto água, de Altair Martins, ou A verdadeira história do alfabeto, de Noemi Jaffe).

Não à toa, o livro atual que Noemi está lendo e nos indica é o de Lydia Davis, Tipos de Perturbação, apresentado no site da editora Companhia das Letras como um conjunto de 57 narrativas breves “de difícil classificação, trafegando na fronteira entre o conto, o ensaio, a poesia e a filosofia.”

Mesmo nesses contos que não parecem contos, continua a ocorrer que o pior (ou melhor!) dos casos é que se trata de uma narrativa breve que conta algo e que perturba – e depois derruba por nocaute, assim: só uma sopradinha final depois de ter desconstruído toda sua noção de mundo enquanto desfiava a história.

E um, dois, três, dez, a gente ali com o livro na frente, totalmente deslocado do tempo-espaço, a mente tentando entender as mudanças provocadas lá por dentro, no coração inclusive, ou quem sabe no pâncreas, sabe-se lá onde as palavras foram bater.

Quem já não sentiu isso com Kafka, com Auster – ou, para citar um contista brasileiro que é ótimo nocauteador, com André Sant’Anna?

 

 

Paradoxos

O bom conto é aquele que perturba e que encontra ressonância no leitor aberto a ser perturbado. Encontrei nos escritores contemporâneos reunidos no festival essa mesma impressão, agarrada com força ao se falar sobre o conto, quase como se fosse uma das únicas e últimas certezas do universo.

Já na primeira noite do festival, as falas de Sérgio Sant’Anna remetiam exatamente ao que ele disse (ou não disse) no texto “Conto (não conto)”[2] : se não há o que dizer, então o conto diz o que não há para ser dito, ou não diz o que não se deve contar. Entendeu?

Pois é assim. Perturbadores, ambíguos, vagos, os contistas gostam desses paradoxos contudentes e não saem à rua sem eles. E, apesar de ser esta a verdade, saí bastante leve do 4o. Festival Nacional do Conto, porque alguém lá disse (que se pesquise a autoria nos arquivos do youtube, depois) que o segredo do bom conto é não ter segredo. Que conto é uma narrativa que perturba, ponto final. Perturbe, e fará uma boa história.

***

Katherine Funke é viciada em café com cardamomo, acorda cedo mesmo depois de uma madrugada criativa. É autora de Viagens de Walter (romance, 2013) e “Notas mínimas” (contos, 2010). Publica no blog Histórias da Katherine.

 

[1]    Concurso de Contos Paulo Leminski

[2]    Conto (Não conto) – Sérgio Sant’Anna