E se ‘O mágico de Oz’ não fosse o que pensamos? ‘Maligna’, de Gregory Maguire

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Com sua releitura macabra de O mágico de Oz, Gregory Maguire conquistou uma legião de fãs – um grupo apaixonado pelo livro e pelo musical da Broadway, em breve no Brasil

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Cena do musical Wicked

A peça musical Wicked chegará às terras brasileiras no próximo ano – a novidade já foi confirmada pela página It’s On: Broadway e pelo site da MTV. A montagem, que faz sucesso desde 2003 e já foi encenada em treze países, é inspirada no livro homônimo de Gregory Maguire.

Traduzido para o português como Maligna, o romance joga nova luz na história do Mágico de Oz. O autor explora a vida de Elphaba (a Bruxa Má do Oeste) muito antes da chegada de Dorothy à estrada dos tijolos amarelos. E, apesar de não contradizer a obra original (de L. Frank Baum), a narrativa de Maguire traz um tom denso e obscuro. Nós descobrimos que na terra de Oz as coisas não são tão doces como imaginamos, e mesmo personagens queridos do público infantil se revelam problemáticos (a delicada Glinda, por exemplo, aparece como uma garota mimada e preconceituosa). Aliás, a obra está longe de ser uma leitura para crianças. O gancho principal da história é político e social, e o romance é pontuado com cenas de sexo bastante explícitas e momentos de violência. Traição, preconceito e sofrimento completam a trama.

Essa não é a primeira investida do autor no mundo das releituras; Maguire começou a adaptar obras famosas no final da década de 70. Nessa primeira fase, ele retrabalhou fábulas e textos shakespearianos para o público infantil. Maligna, publicado originalmente em 1995, foi seu primeiro romance adulto. E, se obra tem um tom de conto de fadas, não é de uma versão Disney e amena, mas de um original dos Irmãos Grimm, com todo o sangue que convém às macabras historietas medievais. Um bom pano de fundo para uma protagonista subversiva.

A Bruxa Má do Oeste idealizada por Maguire não é assim tão má, mas é destemida e certa de seus valores, e o leitor se vê obrigado a concordar com sua luta. Elphaba é enjeitada desde pequena por ter nascido com a pele verde. As parteiras que a trazem ao mundo tentam matá-la (“Vamos afogar a coisa. A mãe nunca saberá”). O pai, um homem religioso, a enxerga como “um bebê desgraçado”, e a mãe, como “uma pilha de folhas de repolho lavadas e deixadas para enrugar sobre a mesa”. A garota cresce escondida do mundo.

Ela é, no entanto, corajosa e inteligente e, com muito esforço, abre caminhos para estudar na universidade de Shiz. Lá, a jovem se envolve com uma importante questão política: os direitos dos Animais. Nessa versão da história, há animais e Animais. Os primeiros, com letra minúscula, são os mais variados bichos, como conhecemos, enquanto os segundos são criaturas com aparência animal, mas dotados de inteligência, consciência e valores iguais aos dos humanos, além da capacidade de falar. À época, membros do governo querem acabar com os direitos dos Animais e transformá-los em animais: mudos e domesticados.

Quando seu querido mentor, um Bode, é assassinado, Elphaba passa a integrar um grupo reacionário para tirar do poder o déspota do lugar, Oz. Ao lermos a obra, é impossível não fazer um paralelo entre a bruxa e os Animais. Todos inteligentes e absolutamente capazes, porém isolados, renegados por sua aparência. O esforço colocado por ela nessa luta é compreensível: de certa forma, essa é também a sua luta particular.

Ao perceber a força de Elphaba dentro da revolução, Oz decide matá-la, e dá a missão a Dorothy. Há, aqui, um encontro entre os dois livros. O mais interessante é que nós já começamos o romance conscientes da morte da bruxa – afinal, todos lembramos como, na história de Baum, ela é derrotada com um balde de água. No entanto, Maguire tece diversas surpresas até o assassinato.

Em Maligna, nenhuma cena de O Mágico de Oz é inviabilizada, porém passamos a enxergar cada passagem sob um viés totalmente novo. Uma releitura inusitada, bem estruturada e cheia de detalhes, que se estende por quatro volumes. O segundo título da série, O filho da bruxa, já foi traduzido para o português, e é publicado no Brasil desde 2008 pela Ediouro. Ainda não há previsão para o lançamento nacional dos próximos livros, A lion among men (Um leão entre homens) e Out of Oz (Fora de Oz).