Luiz Ruffato e Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira: a totalidade fragmentada

No Litercultura, Luiz Ruffato e Figueiredo Ferreira falaram sobre fragmentação nos textos literários, sobre dar voz aos indivíduos brasileiros anônimos e, consequentemente, representá-los por meio da literatura

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Houve no Litercultura a presença dos escritores Luiz Ruffato e Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, ambos discutiram sobre a questão da fragmentação na literatura, como estilo e até mesmo método de escrita, bem como a sua função.

Antes de mais nada, apresentações. Ruffato é autor do premiadíssimo Eles eram muitos cavalos, da pentalogia Inferno provisório, De mim já nem se lembra, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores Artificiais, entre outros livros de poemas e crônicas, além de ser organizador de coletâneas e de ter participado de antologias. Figueiredo Ferreira, por sua vez, é autor do livro de poemas Peixe e míngua, do romance As visitas que hoje estamos, obra que consumiu quase dez anos de trabalho, e O amor pega feito um bocejo, obra infantil.

Os dois autores brasileiros reforçam o time de escritores que representam a totalidade a partir do fragmento na literatura. Em Eles eram muitos cavalos, de Ruffato, há uma metrópole estilhaçada, apresentada por pequenas histórias fragmentadas, bilhetes, cardápios, trecho de horóscopo, anúncios de empregos, orações etc; o mesmo painel multifacetado da população brasileira é apresentado em Inferno provisório. Na obra As visitas que hoje estamos, de Figueiredo Ferreira, há um coro de vozes expressas entre o rural e o urbano, o público e o privado, o arcaico e o moderno, tudo isso também se dá por um mescla de gêneros textuais.

Durante a mesa, Ruffato mencionou algumas vezes que escolheu escrever sobre o universo da classe-média baixa, sobre os proletários do país, que quase nunca são representados na literatura brasileira. No entanto, essa fatia da população não é retratada pelo autor por meio de uma estrutura fixa, com começo, meio e fim, pois, de acordo com o escritor, essa modalidade de construção do texto literário costuma apresentar uma identidade. Para ele, aqueles que são pobres no país não têm uma identidade em si, o fato de serem esquecidos, ignorados e até aniquilados corrobora para uma falta de identidade própria. Portanto, representar essa classe com uma forma fixa seria uma contradição, somente por meio da fragmentação é que ela pode ser representada na literatura.

Sobre a fragmentação, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira mencionou que ela é um meio de dar voz a vários personagens, os quais representam a vida do brasileiro que é anônimo e excluído, ou seja, que não tem vez e nem voz.  O texto fragmentado, para ele, é um meio de apresentar histórias sobre aquilo que é o que não é o povo. Destacou que sua intenção com a fragmentação do texto literário é dar vozes a vozes nunca ouvidas, dar destaque a elas.

Luiz Ruffato nomeou suas narrativas como coletivas, no sentido de ser uma espécie de local onde os indivíduos são ouvidos, são representados. Ressaltou, ainda, que nessas narrativas tudo é real e não é real, pois embora as histórias sejam inventadas, elas existem e aconteceram efetivamente em algum canto do país. Figueiredo Ferreira asseverou que a diversidade de vozes apresentadas em fragmentação pode ecoar na existência dos leitores, de modo a fazer com eles pensem em sua vida, na vida no outro, no futuro que está por vir.

Ambos autores demonstram, por meio de suas falas e literatura, que uma totalidade pode ser apresentada fazendo uso de fragmentos. A totalidade, nesse sentido, é referente a parte da população brasileira, a qual comporta os excluídos, os esquecidos, os anônimos, os marginalizados e os oprimidos, os quais raramente são lembrados e representados na literatura brasileira. Essa totalidade é apresentada sem a estrutura do romance burguês, sem a estrutura tradicional que tem início, meio e fim, sem o uso da norma culta na boca dos personagens, sem o rigor estético e formal.

Entre as outras temáticas abordadas, os autores falaram sobre seus outros livros e temas neles existentes, sobre projetos futuros e causos comuns no cotidiano. Além de terem demonstrado o tempo tudo um olhar preocupado com o outro, o que é raro nos dias atuais.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela