Paulo Gustavo: a comédia como crítica à hipocrisia

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Como o ator Paulo Gustavo, recentemente morto aos 42 anos, por complicações da Covid-19, reconstruiu a comédia brasileira no teatro e no cinema

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Foto: divulgação

Interpretando a própria mãe

É muito triste saber que, apenas alguns dias antes do dia das mães, perdemos uma figura tão carismática como Paulo Gustavo. Ele soube interpretar tão bem as mães desse Brasil, com muito humor e sarcasmo, mas também com muito afeto e empatia. 

Não há brasileiro que não tenha reconhecido a própria mãe em pelo menos uma – ou várias – fala(s) de Dona Hermínia. Essa foi a personagem-mor do ator, tanto no teatro, quanto no cinema, onde interpretava a sua própria mãe (Déa Lúcia) na peça/filme Minha Mãe é uma Peça.

Uma das melhores estratégias para se criar uma comédia é explorar as falhas de suas personagens. E, logo em seguida, colocá-las em situações de conflito onde elas tenham que lidar e expor essas falhas para conseguirem alcançar o que querem.

Paulo Gustavo sabia traduzir tão bem a essência das falhas dos brasileiros em suas comédias que isso justifica o motivo por ter conseguido tanto sucesso e ser amado por tantos. Ele fazia isso com maestria, tanto como ator quanto roteirista.  

Interpretando uma senhora absurda!

Podemos ver seu talento excepcional em Senhora dos Absurdos, personagem na qual ele trabalhou muito bem a crítica às elites brasileiras, entrincheiradas em seus prédios de luxo, repletas de preconceitos e ressentimentos de toda sorte. O ator fazia sua personagem gritar o jargão: “Sou branca, rica, perolada e heterossexual, nada acontece comigo”.

Paulo Gustavo, com seu humor ácido, reconstrói uma socialite fascista bem estilo bolsonarista-armada, que liga para a prefeitura para propor a construção de um muro, ao estilo de Berlim, que separe o Leblon do resto do Rio de Janeiro pra evitar “ver pobre” e e que paramenta a própria empregada, não para a proteção desta contra a Covid, mas para poder não vê-la.  

CHAMADA] 220 Volts - Especial Fim de Ano | Senhora dos Absurdos | (22/12/20) Globo. - YouTube
Foto: divulgação

A comédia como crítica à hipocrisia

O comediante brinca com a hipocrisia de comportamento e discurso de suas personagens. Em A Fumante, a personagem nega os fatos comprovados cientificamente para defender o uso do cigarro.

Desse modo, o ator apresenta uma crítica ao negacionismo científico que domina o pensamento de alguns, além também de criticar os antigos hábitos criados pela indústria do tabaco que, no passado, fazia as pessoas acreditarem que fumar era algo chique e de status.  

Paulo Gustavo mostrou sua genialidade na comédia de muitos modos. É preciso ser muito bom para fazer alguns rirem e melhor ainda para fazer milhares rirem. Mais do que isso, ele fez nos fez rir usando a nossa própria complexidade, nossos próprios traumas e defeitos, nossos próprios jargões do dia a dia.

Através do cômico e do chiste, ele denunciou escancaradamente o que é motivo da nossa revolta, como o preconceito, o negacionismo, o mau-caratismo, entre outros.   

O poder do trabalho de Paulo Gustavo

Eu acredito no poder do trabalho de Paulo Gustavo. Porque analisando todos esses seus personagens, me pareceu que o melhor jeito de atacarmos os defeitos na nossa sociedade é realmente pelo riso.

Por outro lado, quando olhamos para Dona Hermínia vemos empatia, amor, união, preocupação. A personagem ensina milhares de famílias o poder que o amor tem de transformar pessoas, trazendo como mensagem a importância de acolherem seus filhos e filhas LGBTs, pois uma mãe ama sua cria incondicionalmente, simples assim.

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Paulo Gustavo com toda sua genialidade revolucionou a comédia brasileira. Ele deixou pra trás aquela ideia das “besteiragens”, desenvolvendo uma comédia crítica e inteligente que ecoará sempre.