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7 de Fevereiro de 20148 de Fevereiro de 2014
 

Prefiro Rosa a Machado

Crônica

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O mundo que rodeia os escritores e os leitores parece, de longe, refinado, tranquilo e comportado, certo?

Bem, não é bem assim que a banda toca.

Um dia, conversando com amigos literatos, ocorreu um evento um tanto espinhoso, eu diria.

Falavam sobre a precisão cirúrgica de Machado de Assis. Sobre a infalibilidade de seus textos e outras características atribuídas a ele. Éramos seis.

Eis que chegou a minha vez de render homenagens a Machado. E foi aí que o encontro de amigos ficou realmente peludo.

“E então Daniel? O que você acha do fato de Machado de Assis ser o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos?”, me perguntou Aninha.

Demorei um pouco para responder. O suficiente para gerar desconforto.

Engoli um pouco de saliva e respondi, “Não concordo”.

Olharam-me todos com olhos de lula irritada. Em cada olhar, a pergunta, “Como é que é?”.

“Prefiro Guimarães Rosa. Para mim, ele sim é o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos. Quem há de superar Grande Sertão Veredas? Que personagem há de superar Diadorim? Não, não, prefiro Rosa a Machado”.

Formou-se a confusão. O debate tornou-se acirrado. Felizmente não estávamos no Texas, caso contrário eu provavelmente teria levado uns balaços no peito e na cabeça.

Enquanto o pau comia, eu chegava à conclusão óbvia. Eles eram Flamengo, e eu estava tendo a ousadia de ser Vasco. Sim, há flamenguistas e vascaínos na literatura.

Depois de trinta minutos, a discussão esvaziou-se, mas o olhar de cada um deles não me enganava. Eu estava marcado. Acabara de me tornar, aos olhos deles, uma pessoa perigosa.

Tentei argumentar que eu não achava que os textos de Machado de Assis eram ruins, assim como não acho que Tolstoi tenha sido um péssimo romancista. Isso seria uma insanidade. Mas, devido às forças ocultas, quem sabe, preferia Rosa a Machado. Isso só piorou as coisas.

Então, disse-lhes, como último recurso, “Tem uns contos dele que eu gosto…”.

Foi como transformar água em Coca-Cola. Felicidade geral da nação. Chegamos a um acordo. Selamos a paz. Mas… Só entre nós. Não sou vascaíno, mas prefiro Rosa a Machado.

Posted in Crônica
Tagged escritores, Guimarães Rosa, literatura brasileira, machado de assis
3 Comments
Daniel Yn Silva

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Tagged autores, chatos, chatos literários, Ensaio, J.D. Salinger, Nelson Rodrigues, rubem fonseca, Salinger, Thomas Bernhard
1 Comment
Antonio Munró Filho
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  • olivia

    de fato, essa é uma discussão eterna nas letras. mas machado está longe de ser unanimidade no quesito melhor autor da literatura brasileira. o “team” Guimarães é pesado também! eu, como defensora do Grande Sertão como grande obra prima da literatura brasileira, te digo que você precisa de amigos literatos melhores… ?

  • Márcio Ahimsa

    Olá Daniel, li sua crônica e vejo que, de certo modo, a discussão se faz necessária. Opinião sobre determinados assuntos é muito subjetivo. Pois trás à tona uma particularidade intrínseca de cada um, quanto ao gosto, ao estilo, àquilo que é de bom grado, etc. Nomear nossos favoritos como melhor, também é muito normal. Mas o termo “melhor” também é muito subjetivo, pois é um ponto de vista individual, e mesmo que coletivo, pode se tornar num clichê. Eu também tenho a minha, rs. Machado de Assis tem sua importância muito relevante para a literatura brasileira, com seu estilo refinado na organização das ideias e a exploração do caráter psicológico de seus personagens, universalizando assim, sua escrita, por contextualizar o leitor na história. Guimarães, como é sabido, renovou o modo de escrever, com sua lexicografia moderna na criação de neologismos. Alguns são tão apegados
    à escrita de Rosa, quanto outros o são de Machado. Mas quem é o melhor? Eu me atrevo a dizer que os dois são importantíssimos, cada um em sua época, para a disseminação da literatura brasileira, para a notabilidade. Mas há tantos outros escritores que são tão importantes, seja na prosa, na poesia que fica difícil nomear um que seja o melhor. Talvez o compêndio de todos juntos se reflita na verdadeira literatura do Brasil.

    Abraços.

  • Jean

    Parada dura essa. Prefiro Machado, mas também acho que “Grande Sertão: Veredas” é o melhor romance. Para mim Machado ganha de Rosa, mas só por um tiquinho.

Autor

Daniel Yn Silva

Radicado em São Paulo, Y.N. Daniel é um escritor dedicado, basicamente, à ficção. Além da literatura, à qual se dedica há sete anos, o autor também se dedica ao estudo de tecnologia, artes marciais, religiões e história. Seus romances, em estilo hard fiction, são resultado de longa e intensa pesquisa, e misturam fato e ficção, muitas vezes, sem que o leitor perceba.
Livros lançados: Um Sol e Dois Olhos Âmbar, Rumo as Colinas de Aço e 2363.

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