Série Postais – Rejunte // Remetente: Diego Moraes, Destinatário: Paulino Júnior

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Na série ‘Postais’, um autor envia um cartão a um outro autor, cuja imagem este terá de se inspirar para a escrita de um conto. ‘Rejunte’, de Paulino Júnior, foi baseado na fotografia de Diego Moraes.

Postais Diego

 

Rejunte

 

Quanto mais precisamos dos outros, mais nos consideramos independentes. Lembro bem de você papagaiando isso lá do seu curso de Humanas. E eu dizia que se você quisesse mesmo saber sobre economia, que fosse fazer Exatas, lidar com números, não com abstrações.

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Feminismo isso, feminismo aquilo, mas não pensava duas vezes em fazer piada sobre minha masculinidade quando eu não sabia trocar uma coisa como o sifão da pia. Ouvi inúmeras vezes que a vantagem do apartamento, além da segurança, é o zelador, o jardineiro, o síndico. Jamais moraria comigo em uma casa, já que eu não servia nem para ir atrás de um serviço de conserto.

Assim você também se eximia, justificando que podia não fazer, mas contratava alguém. E eu contra-argumentava que já não se pode confiar em ninguém, que vivemos a crise dos serviços, que o sujeito cai de pára-quedas em uma função e pula para outra sem nem esquentar o banco, que ninguém tem mais compromisso com nada e que todos odeiam seus empregos. Sei, assim como odeio o meu.

E você ficava furiosa por eu sangrar em público em vez de ficar quieto e lamber minha ferida. Eu só enxergava o meu problema. Era assim que você dizia para quem quisesse ouvir e logo já tava todo mundo se metendo na nossa relação, dando conselhos de terapias e receitando simpatias. E as dívidas que você me convencia a contrair e instaurava a chantagem de que eu não podia pedir as contas…

Veja só aonde a coisa chegou: quero te agradecer, do fundo do coração, por ter me mantido no emprego. Foi tudo que me sobrou. Agora eu conto com os serviços de Maridos de Aluguel e Garotas de Programa. Na verdade, tenho um fixo em cada categoria. O nome do cara é Gabriel, mas lhe botei o apelido de Maguila, sem que ele saiba, porque se parece com o próprio. Ele demonstra gostar do que faz, fala com ar de autoridade e se concentra no serviço. Também pudera! Não sai barato. Aliás, se eu não fosse tão sem presteza – como você dizia –, talvez gostasse de ser autônomo nesta área de pequenos ajustes, reparos e instalações nas residências alheias. Muito provavelmente esquentaria menos a cabeça do que no meu bendito emprego.

E eu que apostava comigo mesmo que você seria incapaz de sair fora. “O sujeito pode ser um mata-moscas e a mulher vê nele um Napoleão.” Acho que foi o cara do A vida como ela é… quem disse isso. E eu ainda me achava um nível acima de um mata-moscas… Além do mais, minha confiança era reforçada pelo juízo de que mulher tem medo de ficar sozinha e se importa com o que os outros dizem – mesmo uma mulher dita independente. Por isso que minha tática napoleônica era me fazer de bobo, desentendido, quando você pegava no pé e me cobrava.

Ah, sim, eu disse que tinha uma Garota de Programa. Mirella – “com dois ‘eles’, um encoxando o outro”, como ela diz. Eu acho que tá rolando alguma coisa mais forte entre nós, digo, eu e ela. Você pode até rir, zombando que virei namorado de puta e coisa e tal. Mas, veja bem, não é pra qualquer um! Além do mais, ela tá pra começar de balconista numa farmácia. Enfim, ela é uma graça. Do escorpião tatuado na bunda eu até gosto, não me agrada é o cifrão na nuca – me faz lembrar você com todo aquele papinho de Humanas.

É, rolou tudo isso… “Sozinho a gente não é nada” – lembra? Pois é, tive que contar com a ajuda de mulheres: minha mãe, minha irmã e a Sílvia – pode tirar da cabeça se acha que é outra Garota de Programa, é minha psicanalista. A Mirella veio só depois, quando eu já tava mais ou menos de boa. E ela pode ter lá os seus defeitos, mas não viaja na ego trip de deusa pagã que pensa merecer sacrifícios de um homem só porque o julga premiado em dispor de sua disputada beleza feminina. Você se acha tanto e não foi capaz de me levantar quando eu não conseguia mais reagir. Cobrava, mas não chegava junto. Tá, já era…

Ah, sabe o que eu fiz com aqueles problemas que você tanto pegava no pé? Nada! Mas o Maguila fez tudo do jeito que você ia gostar. Na última vez, eu e ele conversamos mais do que das outras. Acabei confessando que não presto pra nenhum desses serviços domésticos e ele foi bem camarada e disse que graças a Deus tinha um monte de serviço, inclusive nos fins de semana, e que não sobrava tempo para fazer na própria casa o que faz na dos outros. Olha só! A mulher dele vive cobrando e até brinca com isso. “Quer uma prova?”, ele perguntou e tirou de dentro da maleta de ferramentas uma fotografia. Peguei e sorri aliviado quando reparei que não era só no meu banheiro que precisava de reparo no rejunte.

 

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Paulino Júnior nasceu em Presidente Prudente/SP e, desde 2005, vive em Florianópolis. É graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela UNESP/Assis. Tem contos publicados em diversos periódicos e em antologias de concursos literários. Foi premiado no Edital Elisabete Anderle 2013 (Fundação Catarinense de Cultura) pelo livro Todo maldito santo dia (Nave, 2014), ganhador na categoria Contos pela Academia Catarinense de Letras (2015). Seu único trabalho fixo é de ficcionista, e nisso inclui as crônicas que assina às segundas-feiras no Caderno Plural do Jornal Notícias do Dia (Florianópolis).

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