‘Só faltou o título’ é o livro com o nome mais falso do mercado editorial brasileiro

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Em Só faltou o título, de Reginaldo Pujol Filho, personagem faz crítica ao mercado literário, aos escritores e editoras

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Reginaldo Pujol Filho | Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Edmundo é o personagem principal de Só faltou o título (Record, 2015). Revisor, escritor frustrado, habita um casamento falido, envolve-se com adolescentes, odeia circuitos literários hipsters, entra em sites de pedofilia, curte gasolina para resolver os seus problemas e, acima de tudo, acredita ser um gênio incompreendido.

Morador da cidade Porto Alegre, acompanhamos a vida de Edmundo a partir de duas perspectivas: a) o que ele chama de “memórias”, uma narrativa em primeira pessoa no formato do que poderia ser um diário b) a transcrição de um julgamento em que ele é o réu. E assim conhecemos a atual (permanente) situação de sua carreira como escritor, a vida familiar e o seu refúgio predileto, uma espelunca chamada Tinoco’s Bar.

Edmundo leva uma vida na linha da mediocridade aceitável para quem não alcançou o sucesso que julgava merecer. Insatisfeito, ele tem dimensão que o ápice de sua carreira no meio literário não passa de uma publicação quase independente, desconhecida e que ainda o faz peregrinar de porta em porta para que seja exposta em alguma vitrine comercial.

Sua frustração só aumenta quando precisa revisar livros de jovens autores e teses para conseguir sobreviver financeiramente – considera isso como a degradação final no campo profissional da literatura. De forma diária, e crescente, ele se transforma numa metralhadora social, investindo contra tudo e contra todos sem nenhum filtro que divida a sinceridade da inconveniência – o politicamente correto vai pro espaço…

Um de seus alvos preferenciais é Tatiana Fagundes, editora que incorpora a vilã do filme que passa na cabeça de Edmundo. Ela é tudo aquilo que ele odeia, pois transforma a escrita em negócio, em marketing e publicidade, pouca interessada no conteúdo – quer mesmo é tratar os “seus autores” pelo primeiro nome, e buscar “v-e-r-o-s-s-i-m-i-l-h-a-n-ç-a”.

A vida familiar do escritor é um caos, mais por inércia do que por qualquer tipo de atitude (inércia é uma atitude, ok). Embora houvesse tentativas e gestações mal sucedidas, o casal não teve filhos. E a falta desse terceiro elemento parece satisfazer os desejos de Edmundo, mas não os de Babi, que nunca deixa de expor seu descontentamento com a situação – o que se acentua quando entra em jogo a carreira fracassada do companheiro.

O elo consanguíneo mais próximo é o irmão, com quem mantém uma relação baseada na palavra “problema”. Toda vez que Edmundo liga, o irmão já sabe que terá que resolver alguma coisa ou emprestar dinheiro.

Somam-se ao casamento fracassado e a relação com o irmão, as aventuras sexuais do protagonista, que nunca aparecem diretamente, mas sempre por recortes que irão conectar as duas estratégias narrativas e, aos poucos, criam um perfil nada saudável de suas preferências. No acumulado, Edmundo é o que podemos chamar de “chave de cadeia”.

Reginaldo Pujol Filho cria um personagem pré-comentarista de internet, que ainda não pratica a criação de blog para despejar ressentimento – um tipo que o livro recente de Bernardo Carvalho, Reprodução, abordou de forma tão interessante. Edmundo ainda prefere esbravejar ao vivo, interagindo realmente com a sua plateia, como faz com Tatiana Fagundes no café que fica na Casa de Cultura Mario Quintana, momento em que exalta o auge de seu rancor com o mercado editorial brasileiro.

O autor dá a Edmundo um repertório de referências vindas da própria literatura, o que o faz citar de forma corrente Dostoievski, Melville e Tolstói, parindo uma criatura que dialoga diretamente com a composição de uma espécie de herói. O “mocinho” de moral duvidosa e oblíqua, que faz disso não uma fragilidade, mas sim a forma de reivindicar o seu protagonismo a partir dos seus desvios de caráter, e também ser a falha o elo humano que conecta ele ao público.

(Arrisco a pensar que, na atualidade, a linguagem que mais tem explorado esse tipo de personagem é a dos seriados, entregando arcos como o de Tony Soprano, Walter White, Don Draper, Al Swearengen e outros menos populares)  

O uso da primeira pessoa irá eliminar qualquer tipo de alteridade, não há espaço para uma representação de mundo que não seja a de Edmundo – que invariavelmente sai vitoriosa na relação com o leitor. Somente a linguagem judicial, usada para transcrição do julgamento, irá experimentar uma liberdade de sua persona dentro do texto, pelo menos até ele sentir-se a vontade para fazer do julgamento um novo palco.

Por tudo isso, não há meio termo: ou seguimos os passos do protagonista no seu pacto de sincericídio social ou iremos odiar ele ao ponto de largar o livro por achar que tudo não passa de um longo exercício de egotrip que está destinada a ecoar, justamente, o que tanto critica ao longo do livro – o que não deixa de ser um ponto de vista que o autor flerte o tempo inteiro.

so_faltou_o_tituloSó faltou o título foi escrito por Reginaldo Pujol Filho enquanto executava seu trabalho de conclusão para o mestrado de Escrita Criativa da PUC-RS. Um dos participantes de sua banca de defesa foi Ricardo Lísias, que além de escrever a orelha dessa edição da Record, também o influência no campo da linguagem- e mesmo os desdobramentos surreais (ou embaralhamento que parece forjar essa conclusão) da vida de Edmundo dão a ver uma aproximação com o autor de Divórcio.

E curioso é que, na lista de agradecimentos que faz ao final do livro, muitos daqueles que são desancados pelo protagonista estão presentes. Isso sem contar a própria Editora Record, que não se preocupou em mudar o nome da editora que Edmundo critica – Record, é claro.

Quando cheguei lá na página 317, e o autor ainda me perguntou se “a história acabou a história”, eu tinha certeza de uma resposta: não. Assim como sempre tive certeza, depois de ler a primeira página, de que nunca faltou o título.