O Domínio Brutal da Indiferença em ‘O Estrangeiro’, de Albert Camus

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Como Albert Camus desenvolve a casualidade e a indiferença de Mersault em O Estrangeiro.

Albert Camus
Albert Camus

PARTE 01: O homem que não amava

“Amarás ao Senhor teu Deus acima de todas as coisas e amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Esse é o único ensinamento de Jesus que poderia delimitar quando alguém é cristão e quando não o é, o resumo e a superação de todos os mandamentos antigos que o hebreu colocou nas pedras do deserto.

Todavia, estava-se em 1942, no auge da Guerra total no mundo, o nazismo já colocava em voga a “solução final”, confiscando, estuprando, deportando e matando centenas de milhares de judeus, negros, gays, ciganos e comunistas. No front, a França havia caído e estava sob o domínio implacável de Hitler. Quase toda a Europa estava ocupada e sob o domínio nazista. Portugal, sob o fascismo de Salazar, Espanha, sob o de Franco, a Itália, sob o de Mussolini, o Japão expandindo-se na Ásia oriental, estuprando, matando e roubando chineses.

Os Einsatzgruppen seguidores de Himmler, já haviam matado a queima roupa 218.250 (duzentos e dezoito mil duzentos e cinquenta) judeus só naquele ano, na Ucrânia, Bielorrússia e Hungria; os EUA tergiversavam sobre entrar na guerra porque a opinião do público norte-americano, que era extremamente racista, entendia-se bem com as pregações de Hitler. Quase toda a América Latina arrastava-se sob ditaduras comandadas ou financiadas pelos respectivos exércitos, que tinham inclinação claramente fascistas, e tudo isso, após a avalanche da crise de um capitalismo que pregava riqueza e prazer, aquele american way of life.

Muitos analistas de literatura esquecem, mas assim estava o mundo quando Albert Camus escreveu “O Estrangeiro”, que foi lançado na França em 1942. O livro, que retrata um trecho da vida de Mersault, francês habitante da Argélia, numa época em que aquele país era uma mera colônia francesa, e, portanto, estava sob supervisão nazista, é um clarividente retrato de um mundo absurdo, à época da ascensão do fascismo e do ultra-direitismo.

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’ Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”

Eis a abertura que Albert Camus apresenta seu livro, ao retratar de forma desinteressada a morte da mãe e a preocupação do personagem com a exatidão do tempo no qual ela se deu, com o “quando”, e não com o “por que” – que é geralmente a pergunta que comumente se faz em tais ocasiões.

O narrador-personagem vai demonstrando os seus desconfortos com o “dever” de ter de ir ao enterro da mãe, com o “dever” de ver seu rosto morto no caixão, com o “dever” de seguir a caravana do velório até o efetivo enterro, sob o sol de rachar da Argélia. Portanto, com o “dever” de cumprir um papel social específico: o de filho. E registra, mais tarde:

“É claro que amava mamãe, mas isso não quer dizer nada. Todos os seres normais tinham em certas ocasiões desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam”

O Estrangeiro
“O estrangeiro”, Record: 2016

À primeira vista absurdo, é assim que se delineia o pensamento de Mersault, a sua normalidade da vida. Para ele, com habitual frequência, tudo, absolutamente tudo, tanto fazia. A vida que se desenrola diariamente para o ser era simplesmente um apagar e reacender de velas, de luzes, de claridade e de escuro, portanto um mar de sensações numa ausência completa de sentidos.

Não havia lugar, no fundo do coração, para aquele cristianismo de amor a Deus e ao próximo com calorosa veracidade. Essa é, não nos enganemos, a genialidade camusiana ao tomar por emprestada, para a construção da personagem, característica típica do mundo “real” que se delineava à vista nua à época, aquele em que o cristianismo era mera fachada massageadora de egos.

Nesse mesmo sentido (de cristianismo de fachada), Götz Aly, o celebrado historiador alemão, fez constar em um de seus mais importantes livros a situação da família alemã Böll que, embora cristã católica e não integrante do partido nazista, se beneficiava da política de “roubo e extorsão da Europa ocupada” levada a cabo por Hitler e seus asseclas e, no fundo, sentia-se grata por tantas dádivas:

“O calculado enriquecimento individual em prejuízo de outros povos fez surgir um sentimento de alívio, o sentimento da pequena felicidade na grande guerra. ‘Ah! – escrevia Böll à sua mulher – acreditas se te disser que me sinto feliz de cada vez que te posso enviar algo?’ Ou ainda ‘Provocou-me uma alegria indizível poder enviar-vos manteiga’ Isso deu origem a milhões de felicidades, no caso de Böll indubitavelmente passiva. A família Böll, católica e politicamente distante dos nazis, mostrava-se satisfeita. O seu dinheiro não ficava mais improdutivo, antes pelo contrário, convertia-se, em França, embora com preços cada vez mais elevados, em coisas úteis e agradáveis”

Vê-se, portanto, que a derrocada dos princípios ante à passividade dos prazeres proporcionados pelo absurdo da guerra estava em voga, sobretudo para aqueles que, gozando de uma realidade não espancável, deportável ou matável pelo regime, podiam viver suas vidas, como se nada de muito estranho estivesse acontecendo no reino da Dinamarca.

E é assim que, tão logo se viu livre da forçada cena do enterro materno, Mersault encontra uma ex-colega de trabalho, por quem tinha uma “tara”, Marie Cadorna, e flerta com ela, vão ao cinema e fazem sexo.

A cena, que parece trivial, demonstra uma espécie de robotização da vida humana, uma espécie de apatia diante dos fatos aterradores do mundo – no caso, a morte da mãe –, e, sobretudo, a destruição do sentido simbólico do amor. E tanto é assim, que questionado, por Marie sobre casamento, e sobre amor, Mersault responde, na cena que se segue:

“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava”.

A contradição entre não amar alguém, mas estar disposto a casar com essa pessoa, se ela assim o quisesse, demonstra o universo do protagonista de Camus, que, todavia, e como aqui se mostra, era tipicamente o universo de um mundo onde todos os sentidos se perderam, um mundo dominado pela aniquilação do humano, ou, nas palavras de Hannah Arendt, pela “banalização do mal”.

Isso porque para o estrangeiro, nessa teia de absurdos que passa a ser o mundo humano, não importa ou interessa se algo faz sentido, ou mesmo se existe verdadeiro sentimento sobre algo ou alguém, importa-se um contínuo e insignificante agora, um mecânico viver, fechado em si mesmo e sem influências ou interferências, quaisquer que sejam, dos outros, como se os seres humanos de fato fossem tão somente as mônadas de Leibnitz.

No entanto, a contradição, mais uma vez, típica do absurdo, passa a ser a desconstrução da individualidade humana. Isso porque, o ser que não ama e para quem tudo “tanto faz”, mas que pode estar com alguém se esse alguém assim o quiser, é o mesmo ser que faria isso com qualquer outro ser. Ou seja, a ação não é condicionada à percepção da individualidade ou originalidade do outro, mas justamente ao pensamento de que o outro é qualquer coisa que é igual a qualquer outra coisa que existe. E esse é o martírio de Marie diante de Mersault:

“– Nesse caso, por que se casar comigo? – perguntou ela.

Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, nós poderíamos casar. (…) Observou, então, que o casamento era uma coisa séria.

– Não – respondi.

Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio. Depois falou. Queria simplesmente saber se, partindo de outra mulher com a qual tivesse o mesmo relacionamento, eu teria aceitado a mesma proposta.

– Naturalmente – respondi.

(…) murmurou que eu era uma pessoa estranha, que me amava certamente por isso mesmo, mas que talvez um dia, pelos mesmos motivos, eu a decepcionaria”

Note-se que, mesmo na construção da identidade do amigo, Mersault desenvolve o mesmo raciocínio. É assim, por exemplo, que se dá com sua amizade com Raymond, que se desenrola ao acaso, pelo fato de esse último pedir que Mersault, após ouvir sua lamuriosa história de amor com uma moura, lhe escreva uma carta de indignação. Carta escrita, Raymond declara e Mersault analisa:

“– Agora você é um verdadeiro amigo.

Repetiu a frase e eu disse:

– Está bem.

Tanto fazia ser ou não amigo dele, e ele parecia realmente ter vontade disso”

Mas o fato é que, demonstrando ou não interesse, Raymond e Mersault tornam-se amigos, duma espécie de amizade estranha, do apreciar simples conversas e companhia, nada mais. Aquela que estaria pronta ao seu encerramento com facilidade, como a que se pode desenrolar entre um taxista e um passageiro que solicita o serviço para percorrer uma longa distância. Há cordialidade, troca de informações, companhia, mas não profundidade, nem interesse nessa profundidade.

O que Camus está a fazer é claramente um retrato de um mundo sem sentido que se confundia com o ficcional. Nesse retrato, o homem é apenas um ser que existe sobre a Terra e constrói (ainda que sem saber) a sua própria realidade; no entanto, essa por vezes não tem sentido, por vezes é absurda, e aí nessa ausência de sentido e nesse absurdismo é que se encontra a naturalidade da vida, como ele mesmo diz:

“Por um lado era inverossímil. Por outro lado era natural”.

Em outra palavras, pode-se dizer que Mersault e Marie são, enquanto casal, a destruição total do mito de Romeu e Julieta. Não há amor romântico possível num mundo caótico onde a vida humana não vale uma moeda de cobre.

Veja-se que outros artistas que viviam sob a mesma época já retratavam, a seu modo, esse mundo de chumbo onde vivia Mersault. E isso nos remete às telas “O túmulo de Julieta” e “As chamas chamam”, feitas por Salvador Dalí em 1942.

“Túmulo de Julieta”, Dalí

A primeira tela demonstra claramente o enterro do amor romântico, num portal perfeitamente triangular (que era o hábito de perfeição geométrica da época) o rosto de Julieta chora. A cripta é um grande globo rachado (o mundo?), ladeado por seres mortos e animais esqueléticos; ao fundo, em perspectiva, um bosque sombrio.

Na segunda tela, girafas incendiadas se afileiram em perspectiva, sobre uma delas um homem coberto agarra-se cabisbaixo, com rosto de chumbo, ao fundo e centro, uma mulher e uma criança correm em direção das girafas, ao fundo e à esquerda, dois homens brigam. Por mais que a imagem da girafa pareça empática ao universo infantil, aquelas estão incendiadas e, certamente, levarão qualquer um que as cavalgue ao fogo e à morte. Essa lógica, inclusive, se repetiu nos campos de concentração e extermínio nazistas onde, após viagens exaustivas de trem, apinhadas como escravos em navios negreiros junto a adultos incontáveis, as crianças judias eram chamadas para “tomar banho” (algo bom e reconfortante) e, assim, levadas à morte nas câmaras de gás.

“Las llamas, llaman”, Dalí

Esse universo dantesco típico de uma tela de Bosch é figurado por Camus, no enfoque do subjetivismo de Mersault, através da alegoria do sol.

A Argélia arde sob o sol. A brisa do mar, que sobe do porto, não é suficiente para aplacar o calor. E esse calor que cobre as ruas e inunda as casas é o mesmo que acompanha Mersault aonde ele vai. O calor e o sol implacável:

“Hoje, o sol transbordante, que fazia estremecer a paisagem, tornava-a deprimente e desumana”

“Não pensava em nada, porque estava meio adormecido por este sol na minha cabeça descoberta”

“O sol estava agora esmagador. Ele se desfazia em pedaços sobre a areia e sobre o mar”

Ao que parece, para Mersault, o sol potencializava a natureza implacável do homem, sua desumanização. Como se, no reino solar, o homem-Mersault, que já naturalmente se robotiza diante de um mundo caótico, ganhasse ainda maiores gestos mecânicos e irracionalizados.

E é nesse contexto do sol e dessas relações humanas sem sentido, que Mersault se leva (e é levado) ao homicídio do árabe. A morte do árabe na praia de Argel é completamente sem sentido. O árabe e seu grupo de asseclas perseguia Raymond, porque este havia espancado a irmã daquele, num ato típico de machismo. Na praia, sob o sol, Raymond, Mersault e seu colega Masson brigam com o grupo de árabes, mas tudo se acalma e ambos os grupos vão embora. Mais tarde, todavia, Mersault volta à praia com o revólver de Raymond no bolso.

“Quando Raymond me deu o revólver, o sol refletiu nele”

“Eu caminhava lentamente para os rochedos e sentia a testa inchar sob o sol”

“O queimar do sol ganhava-me as faces e senti gotas de suor se acumularem nas minhas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que enterrara mamãe e, como então doía-me sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam juntas debaixo da pele”

E é assim que, encontrando o árabe deitado tocando flauta, Mersault, após hesitar sem saber por que, o mata (também sem saber por que), com cinco tiros à queima roupa.

O assassinato do árabe perseguidor de seu colega como um ato desproporcional, covarde e absurdo, por assim dizer, é ao mesmo tempo o ápice da indiferença de Mersault. A ausência de valores eleitos e divisados pela personagem camusiana teria sido preponderante para o ato? O que é o homicídio num mundo em guerra? Qual valor tem a vida humana quando os estados totalitários ultra-direitistas ditam quem vive e quem morre?

E o fato é que Mersault é um estrangeiro. Não somente por ser francês na Argélia, pied-noir, como se dizia. Mas porque a ele absolutamente tudo no mundo é indiferente. Não existe sensação de pertencimento senão a si mesmo e, ainda assim, não existe o menor sentido também nisso. O árabe sem nome, morre gratuitamente, assim, submetido à lei da total indiferença.

E existe o sol. O sol sempre a pino e o calor insuportável a atravessar a pele. O mundo de Mersault seria, portanto, essa mistura de sol e indiferença. O não-valor e o não-lugar são circunstâncias atreladas ao viver no mundo. No entanto, a criação do valor faz parte do dever do homem na vida gregária. Todavia, num mundo regido pelo preconceito e ideais tirânicos, o ser é nada, a vida é o contínuo repetir da peça de teatro já gasta e o homicídio é apenas mais algo que se pode fazer debaixo do sol.

 

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Referências da Primeira Parte

ALY, Götz. O estado popular de Hitler. Como o nazismo conquistou a Alemanha. Alfragide/Portugal: Texto, 2009.

CAMUS, Albert. O estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, 2018.

COGGIOLA, Osvaldo. O ciclo militar na América do Sul. Disponível em https://blogdaboitempo.com.br/2014/03/24/o-ciclo-militar-na-america-do-sul/, Acesso em 11/03/2019.

DESCHARNES, Robert. Salvador Dalí, das malerische Werk. Köln: Taschen, 2016.

Lucas, 10-27, Bíblia King James.

 

Recomendações do Autor:

Sobre os Einzatsgruppen:

https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/einsatzgruppen

https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/einsatzgruppen-grupos-exterminio-nazistas.htm

http://www.wikiwand.com/en/Einsatzgruppen

https://en.wikipedia.org/wiki/Judenfrei

Algumas obras de Dalí:

https://www.salvador-dali.org/en/artwork/catalogue-raisonne/1940-1951/

Um olhar sobre a Argélia de Camus:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1302201015.htm