Escritos da devassidão nos conventos brasileiros e portugueses

0
2310

Livro Que seja em segredo, de Ana Miranda, apresenta escritos da devassidão nos conventos brasileiros e portugueses dos séculos XVII e XVIII

ana miranda
Ana Miranda, a autora de “Que seja em segredo”

Que seja em segredo não é apenas um livro de poemas devassos, trata-se de uma pesquisa da escritora sobre o tempo em que o desejo sexual transpôs os limites da espiritualidade. Segundo Ana Miranda, houve um tempo em que os homens profanaram os conceitos de virtude opressores, espiritualizaram o corpo e erotizaram a alma. Para isso, buscaram o prazer nas escuras celas dos conventos.

Ana Miranda estudou em um colégio dirigido por religiosas dominicanas e diz que não imaginava o que se escondia atrás dos muros dos conventos. Ao estudar para sua obra Boca do inferno, tomou conhecimento de poemas de Gregório de Matos dedicados às freiras. Os poemas falavam do incêndio nas camas devido ardor da paixão por uma freira e falavam sobre as freiras terem preferência por frades franciscanos e não leigos.

Entre os séculos XVII e XVIII, não era a vocação religiosa um dos motivos importantes para se mandar uma mulher aos conventos brasileiros e portugueses. Os motivos que levavam a uma mulher ser trancada em uma cela úmida eram, na maioria dos casos, a rebeldia, a sensualidade, o interesse intelectual, uma personalidade excessivamente romântica e apaixonada e ter um corpo muito atraente; também iam parar em conventos as filhas bastardas, as amantes, as filhas que perdiam a virgindade, as estupradas e as que se apaixonavam por homens que tinham condições inferiores ou até mesmo má reputação.

Nos conventos, distantes da opressão familiar, as mulheres desfrutavam da liberdade intelectual. Quanto à liberdade sexual, inicialmente privadas da presença masculina, tinham sonhos românticos e fantasias sexuais. Consequentemente, casos amorosos – platônicos e consumados – surgiam em abundância. Os “freiráticos”, isto é, os homens que frequentavam os conventos e celas das freiras, não eram apenas os descompromissados, mas também homens de cargos altos na magistratura, na milícia, na igreja e na nobreza; até mesmo o rei Dom João V era um “freirático”.

que seja em segredoA aproximação entre freiras e os “freiráticos” se dava a partir de cerimônias religiosas, quase sempre os homens eram sonhadores e, enamorados, sofriam e suspiravam entregues ao amor. E, deste modo, começam as correspondências amorosas. As freiras inicialmente não respondiam às cartas, mas alguns insistentes recebiam bilhetes recortados e logo estava instaurada a aproximação.

Nem sempre os amores eram platônicos e ficavam só do lado de fora dos conventos num jogo de amor lírico, sem resultados. Havia padres que usavam seu poder de transitar entre os conventos para levar e trazer correspondências dos “freiráticos”, com certos tratos ilícitos. Era na calada da noite que portões eram abertos e os amantes entravam, muros eram escalados, fugas aconteciam, e quem tentasse impedir era ameaçado com facas.

A partir dos acontecimentos, resumidamente expostos acima, poemas luxuriosos, românticos e até mesmo sarcásticos foram escritos pelas freiras e outros para as freiras, em plena Inquisição, época em que a interdição sexual era afrodisíaca. Os versos tinham, também, certo caráter político, pois criticavam o poder monárquico que era sustentado pela igreja. A obscenidade desempenhava uma função mágica nestes versos, bem como a profanação da santidade. Há, ainda, os poemas que falam sobre a repressão sofrida pela mulher e sobre a repressão sexual no geral.

Nos conventos surgiram escritoras como Mariana de Alcofarado, autora das apaixonadas Cartas portuguesas; a soror¹ Violante do céu, intelectualizada dominicana; a sensível poetisa soror Maria do Céu; soror Maria Madalena Eufêmia da Glória.

***

¹Soror: Tratamento dado às freiras que correspondente ao feminino de frei.

***

Referência: MIRANDA, A. Que seja em segredo: escritos da devassidão nos conventos brasileiros e portugueses dos séculos XVII e XVIII / Pesquisa e introdução de Ana Miranda. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.