A lenda de Tristão e Isolda: um périplo para a imortalidade

Em terra, Tristão e Isolda viveram o seu amor na medida que lhes pareceu possível; viveram tão intensamente que ultrapassaram os limites do que é terreno e partiram, juntos, num périplo para a imortalidade.

Kevin Reynolds
Cena do filme Tristão e Isolda (2006), direção de Kevin Reynolds.

Qual a importância dos caminhos percorridos ou dos mares navegados por um personagem? Dependendo a obra, pouca. Essa premissa, porém, pode ser muito relevante para elucidar a trama de uma narração. Caso não seja, talvez sirva para se analisar um texto, tantas vezes interpretado de maneiras semelhantes, sob um viés, digamos, não muito usual a ele.

Quando a obra escolhida é a lenda de Tristão e Isolda, cuja origem se perde no tempo, é inevitável falar da relação de amor-paixão do casal, que sofre com a inviabilidade de concretização desse sentimento. E por que não fazer isso através das várias viagens realizadas pelo herói da história, Tristão? Construir a análise dessa relação, interpretando o percurso feito pelo personagem, desde o seu início até o seu fim. Ver até que ponto as paisagens, que compõem o cenário das viagens, em suas maiorias marítimas, interferem, acrescentam, enriquecem as personagens e, consequentemente, a narrativa.

É preciso lembrar que a obra Tristão e Isolda teve inúmeras versões, a versão aqui abordada é do troveiro anglo-normando Béroul Thomas. Esse troveiro, do século XII, reconta esta lenda, de origem celta, através de um olhar bem característico da época, a Idade Média. A narrativa, portanto, é riquíssima em elementos recorrentes da literatura desse tempo: a questão do amor cortês, a religiosidade, a mobilidade medieval, a natureza, a busca pela eternidade, entre outros.

Esse artigo não pretende recontar minuciosamente a história de Tristão e Isolda, mas sim selecionar as viagens (prática do homem medieval) e analisá-las; ver o papel fundamental delas dentro da narrativa; contemplar a importância das viagens na construção do enredo. Além disso, é válido interpretar o amor através dos elementos naturais que cercam o casal, estudar a simbologia dos mesmos, que é recorrente na literatura medieval e, principalmente, traçar o perfil do personagem Tristão.

Sobre a lenda Tristão e Isolda, o escritor Pierre Brunel diz: “O mar orienta o destino do herói de um lado a outro do mundo celta, entre a Cornualha, a Irlanda e a Pequena-Bretanha”, ou seja, o mar permeia toda a história, é através dele que Tristão e Isolda unem-se, separam-se e unem-se novamente. O ponto de partida é a primeira viagem realizada por Tristão, itinerário que o leva até seu tio, o Rei Marcos. Tristão, o herói órfão, é criado por Rohald e confiado ao sábio Governal, que lhe ensinou as artes e as manobras bélicas. Quando menino, é sequestrado por mercadores noruegueses. Lê-se: “Dessa forma, o mar levantou-se furioso, envolveu o navio de trevas, e por oito dias e oito noites o lançou ao léu. Por fim, os marinheiros perceberam, através da bruma, uma costa cercada de arrecifes e rochedos, onde o mar os queria jogar…” (pág. 17).

O primeiro aspecto a ser destacado é a simbologia do mar. Nesse trecho, o oceano é um defensor de Tristão. A água reage em prol à vida do herói. O elemento água se personifica, auxiliando o guerreiro, que deve sobreviver e encarar seus futuros infortúnios.

Após salvar-se, Tristão chega à Cornualha e passa a viver com o seu tio, o Rei Marcos. O tio sofre com o tirano Morholt, representante irlandês, que cobra pesados tributos à corte da Cornualha. Em defesa do soberano, o jovem ruma para a sua segunda viagem. Em tal empreitada, ele luta contra um gigante. Nesse combate, elimina o representante da Irlanda e, mais uma vez, o mar o auxilia nessa aventura.

Apesar de ter vencido o gigante, Tristão é ferido. Cabe salientar que, na citação acima, a aparição do elemento marítimo (terceira vez) é bastante relevante. Tristão acredita que irá morrer por causa dos ferimentos. Pede então ao rei Marcos que lhe dê um barco, remos e uma harpa para ficar assim em alto mar, à espera da morte. Lê-se: “Sete dias e sete noites levou-o o mar, suavemente. Às vezes, tocava Tristão a harpa, a fim de esquecer sua desventura. Por fim o mar, à revelia dele, o acostou em uma praia” (pág. 27).

É preciso reparar nas expressões “suavemente” e “à revelia dele”. Tais palavras indicam que as águas compactuam para que o guerreiro se salve. Essa pequena passagem é também riquíssima em simbologia e abre um caminho interpretativo bem vasto para o entendimento subjetivo da obra. Segundo Jean Chevalier, “barca” significa um meio de passagem para outro mundo, assim como “harpa” também significa algo semelhante (instrumento que toca o modo do sono eterno) e o número “sete” indica a passagem do conhecido ao desconhecido.

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Cena do filme Tristão e Isolda (2006), dirigido por Kevin Reynolds.

Nesse itinerário, Tristão chega à Irlanda, terra onde conhece Isolda. A jovem, sem saber que o guerreiro era o homem que matara seu tio, o gigante; ajuda-o, tratando de seus males. Tristão, já curado de seus ferimentos, e com temor de ser reconhecido, foge fazendo o percurso de retorno à Cornualha (quarta viagem).

No reino, em Tintagel, Marcos é pressionado para se casar e ter filhos. Como solução de seu problema, o soberano resolve unir-se a dona do fio de cabelo loiro que um pássaro deixara em seu castelo. Tristão reconhece aquele loiro fio, é o da bela moça que o salvara. Assim, o jovem diz ao tio que trará a ele a sua futura esposa. Então, o herói parte para sua quinta viagem: “Equipou uma bela nau; guarneceu de trigo, vinho, mel e todas as boas provisões. Nela fez embarcar Governal e cem jovens cavaleiros de alta linhagem…” (pág.31).

Chegando à Irlanda, o guerreiro vence um temido dragão. Como recompensa de tal disputa, confiam a Tristão a jovem Isolda. Ocorre aqui o segundo encontro do casal e, atendo-se aos símbolos da passagem acima, ver-se-á quão significativos são. A união de Tristão e Isolda sempre remete à simbologia da morte ou da vida eterna: o trigo evoca a morte e o renascimento; o vinho significa poção de vida e imortalidade; o mel é um elemento que simboliza a doçura, a fecundação, a imortalidade e também o esperma do mar. Tudo leva a crer que se narrará uma história de amor e morte, uma paixão levada às últimas consequências, transgredindo todas as regras sociais de uma época. Ressalta-se que na Idade Média o mundo animal era, sobretudo, o universo do mal. Por isso, a questão da luta com o dragão é importante. Segundo o historiador Jacques Le Goff, “todos os animais fabulosos, como o áspide, o basilisco, o dragão e o grifo são satânicos, verdadeiras imagens do diabo”.

A sexta viagem do guerreiro é o elo de todo o périplo realizado na obra: é o trajeto de retorno à Cornualha. Nessa rota, porém, Tristão não está sozinho, com ele está Isolda, a futura esposa do monarca. Lê-se: “Só Isolda ficara, a bordo, com uma pequena serva. Tristão aproximou-se da rainha, procurando sossegar-lhe o coração. O sol estava ardente, ambos ficaram com sede e pediram de beber… achei vinho! Mas não era vinho: era a paixão, era a cruel alegria e a angústia sem fim, era a morte…” (pág. 42).

A mãe de Isolda, antes da filha partir, havia preparado uma poção, o filtro do amor. Tal veneno era para fazer com que o rei e a futura rainha da Cornualha gozassem de um afeto recíproco. Tristão e Isolda, desconhecendo o fato, ingerem inocentemente o líquido. O efeito do filtro tem validade de dois anos e, a partir do momento em que os dois bebem o veneno, ver-se-á que o amor-paixão entre Tristão e Isolda irá muito além do prazo estabelecido pela magia. Sobre o efeito do filtro, eis: “Por dois dias ela (criada) os espiou e os viu rejeitar todo alimento, toda bebida, todo conforto e buscarem um ao outro como cegos que andam as apalpadelas. Eram desgraçados quando definhavam longe um do outro, e mais desgraçados ainda quando juntos, tremiam diante do horror da primeira confissão” (pág. 43).

A partir dessa viagem, a vida do casal muda totalmente. Ambos começam a vivenciar o sentimento de amor-paixão; a relação de Tristão e Isolda para sempre estará condenada a tempestades. A paixão dos jovens vai oscilar entre o recuo e o avanço, ou seja, entre a culpa (traição ao rei) e a coragem (assumir o amor). Essa relação é pertinente àquilo que o autor Octavio Paz, em seu livro A dupla chama, diz ser recorrente na literatura:

“A ideia do encontro exige, por sua vez, duas condições contraditórias: a atração que experimentam os amantes é involuntária, nasce de um magnetismo secreto e todo-poderoso; ao mesmo tempo, é uma escolha. Predestinação e escolha, os poderes objetivos e subjetivos, o destino e a liberdade se cruzam no amor. O território do amor é um espaço imantado pelo encontro de duas pessoas.”

Ainda nessa viagem há o seguinte trecho para se destacar e comentar: “No terceiro dia, Tristão veio para a tenda levantada no convés da nau, onde Isolda estava sentada… – Amiga, repetiu ele, o que vos atormenta? Ela respondeu: – O vosso amor. Então ele pousou os seus lábios sobre os dela (pág. 43). E quando a noite caiu sobre a nau, que corria velozmente para a terra do Rei Marcos, eles se entregaram ao amor” (pág. 44).

Em tal citação, nota-se que os apaixonados consomem em todos os aspectos os seus sentimentos, isto é, eles se relacionam sexualmente, antes mesmo de Isolda ser entregue ao rei. O número três é um tanto significativo em tal passagem, uma vez que no terceiro dia o casal se declara. Ao mesmo tempo, o número três aponta para o futuro triângulo amoroso entre Tristão, Isolda e o Rei. Cabe também lembrar que, para os irlandeses, a palavra “noite” significa eternidade. Isolda, embora seja a futura esposa do soberano, para sempre sentirá seu amor por Tristão. Ainda sobre magias e poções, bastante recorrentes na Literatura Medieval, cabe mencionar o historiador Le Goff, que escreve: “Afrodisíacos e excitantes, filtros de amor, especiarias, beberagens que produzem alucinações, há disso para todos os gostos e para todos os meios. Todos viviam em busca de visões, de aparições, e eram em geral favorecidos com elas”.

Após esse percurso, interrompe-se a vida marítima de Tristão. Os amantes, já em terra firme, mais precisamente em Tintagel, deparam-se com a realidade: Isolda casa-se com Marcos. O amor por Tristão, porém, é enorme e Isolda torna-se amante do guerreiro. Essa é a fase dos encontros perigosos, dos apaixonados que se arriscam a todo o instante. Isolda e Tristão não resistem à forte atração que sentem um pelo o outro. É preciso lembrar que essa história se passa em uma sociedade medieval e, nesse período, em que vivem como amantes no castelo, os apaixonados representam uma situação social muito bem descrita pelo escritor Octavio Paz: “O casamento não era baseado no amor, mas sim em interesses políticos, econômicos e estratégicos… Nessa época era muito popular a lenda dos amores adúlteros como a desgraça de Tristão e Isolda”.

Isolda, infeliz em sua união com o Rei e não resistindo ao amor de Tristão, trai seu marido e, para isso, vale tudo, como: encontros secretos, mentiras e dissimulações. Várias aventuras e desventuras acontecem na sequência de capítulos, até os amantes serem descobertos e banidos do reino. Quando isso acontece, Tristão e Isolda vão viver na Floresta de Morois, um lugar primitivo, de espaço hostil e de total desconforto. Em seu livro A Civilização do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff escreve: “Na floresta se refugiam os adeptos voluntários ou involuntários da fuga mundi. Eremitas, amantes, cavaleiros errantes, malfeitores, foras-da-lei. De sua opacidade temível surgiam os lobos famintos, os malfeitores, os cavaleiros saqueadores”.

TRISTAN AND ISOLDE...Title: TRISTAN AND ISOLDE Pers: FRANCO, JAMES / MYLES, SOPHIA Year: 2006 Dir: REYNOLDS, KEVIN Ref: TRI059AI Credit: [ EPSILON/20TH CENTURY FOX / THE KOBAL COLLECTION / TORRES, RICO ]
Cena do filme Tristão e Isolda (2006), dirigido por Kevin Reynolds.
Levando essa vida precária, Tristão e Isolda resolvem, em nome do amor, afastarem-se. A mulher volta a morar com o Rei e Tristão sai em viagem. E já separados, Tristão realiza sua sétima viagem, chegando às terras do Duque Girlain. Nesse lugar, o herói luta contra o gigante Urgan, livrando Gales do temor. Como recompensa, pede o cão de guizo encantado. Faz isso pensando em Isolda, pois ainda está mortificado pelo amor que o atormenta. Assim, manda para a amada o guizo, para que ela tenha uma lembrança dele.

Depois do período em Gales, Tristão parte para a sua oitava viagem:

“Pelos mares, as ilhas, as terras, Tristão gostaria de fugir ao seu sofrimento. Reviu Loonnois, sua terra natal, onde Rohald o recebeu como filho, com lágrimas de ternura. Porém, não podendo viver no repouso de sua gente, Tristão prosseguiu por ducados e reinos, procurando aventuras. De Loonnois a Frísia, da Frísia a Gavóia, da Alemanha a Espanha, serviu a muito senhor, muitas façanhas realizou. Mas, durante dois anos, nenhuma notícia lhe chegou da Cornualha, nenhum amigo, nenhum mensageiro” (pág.103).

O herói revela-se um homem sem terra, sem identidade. Vive entre a busca e o distanciamento daquilo que mais almeja: a companhia de Isolda. Por ser frágil diante do amor, conclui-se que o único “porto seguro” de Tristão é a presença da mulher amada.

Gaston Bachelard, no livro “A Água e os Sonhos”, escreve sobre um tipo de perfil que se enquadra bem às atitudes de Tristão. Para o escritor, “é necessário considerar uma valorização dos devaneios inconfessados, dos devaneios do sonhador que foge da sociedade, que pretende tomar o mundo como único companheiro”. O herói Tristão é assim, foge da sociedade – porque essa não lhe comporta mais e tem apenas o mundo como seu companheiro, embora ele deseje algo mais, o amor de Isolda.

Nota-se que sua viagem durou dois anos, o número dois representa simbolicamente a oposição, o dualismo. Conclui-se então que, nesse período, Tristão vive um conflito e reflete sobre ele: ter ou não ter Isolda?

Retornando às terras da Bretanha (nona viagem), Tristão conhece Kaherdin, homem que será sempre seu amigo. Kaherdin tem uma irmã que, coincidentemente, chama-se Isolda, porém, de Mãos Alvas. Com fortes laços de amizade e gratidão, Tristão casa-se com a moça. Todas as tentativas de amá-la, todavia, são frustradas, pois continua apaixonado por sua Isolda de Cabelos Loiros, tanto a ama que nem sequer consegue consumar seu casamento com a irmã de Kaherdin.

Sua tristeza e sua angústia são tão grandes que Kaherdin resolve auxiliá-lo em sua décima viagem rumo a Tintagel, atrás de Isolda. Lê-se: “Tristão levou Governal, e Kaherdin levou um só escudeiro. Secretamente equiparam uma nau e navegaram para a Cornualha. O vento foi-lhes favorável; navegaram tanto que uma manhã, antes do nascer do sol, surgiram, não longe de Tintagel, em angra deserta, vizinha do castelo de Lidan” (pág. 111).

O apaixonado chega a Tintagel, mas suas investidas não dão certo. Tristão faz-se passar por leproso e não é reconhecido por Isolda. Essa o escorraça do castelo. Decepcionado, o guerreiro faz sua décima primeira viagem, retornando para a Bretanha. Porém, quando está ao lado da esposa, Tristão sente-se infeliz. Passa suas horas definhando de amor por Isolda, sua antiga paixão. Numa loucura persistente, o homem parte para a sua décima segunda excursão, regressando a Tintagel, sua última tentativa e seu último périplo em busca de Isolda. “Embarcou. Vento propício encheu a vela e a nau singrou sobre as águas. Cinco dias e cinco noites navegava rumo à Cornualha; no sexto dia surgiu no porto de Tintagel” (pág. 119).

É importante ater-se na simbologia da passagem citada. O vento, na tradição druida, está relacionado ao veículo mágico; já o número cinco é o símbolo da união, um número nupcial, significando harmonia e equilíbrio; o número seis (sexto dia) significa o número do destino místico. Por tais interpretações, espera-se que Tristão tenha mais êxito nessa viagem. Tristão, fazendo se passar por louco, consegue aproximar-se de Isolda e ser reconhecido por ela. Fica a seguinte promessa: “–Sim, eu vos levarei à Terra Feliz dos Vivos. O tempo se aproxima; não sorvemos já toda a miséria e toda a alegria? Chega o tempo; quando for cumprido, se eu vos chamar, Isolda, vireis? – Amigo, chamai-me! Vós sabeis que irei!” (pág. 126).

Satisfeito com a jura do futuro encontro, Tristão retorna à Bretanha (décima terceira viagem) para ajudar seu amigo Kaherdin a guerrear contra o Barão Bedalis. Nessa luta, o heroi é ferido gravemente por uma lança envenenada. Tristão, praticamente morrendo, pede a Kaherdin que chame Isolda, a Loira. Seu amigo acata o pedido. Ao saber da grave notícia, Isolda faz sua primeira viagem em busca do amado Tristão. Lê-se:

“Logo a calma sobreveio à tempestade, o mar tornou-se doce e liso, o vento murchou as velas, e os marinheiros bordejam, para cima, para baixo, de um lado para outro. Ao longe viam a costa, mas a tempestade lhes levara a barquinha, de modo que não podiam chegar a terra. Na terceira noite Isolda sonhou que tinha no seu regaço a cabeça de um grande javali que lhe manchava de sangue o vestido, e por isso soube que não tornaria a ver vivo seu amigo” (pág. 132).

Isolda, a Loira, não estava errada, a esposa de Tristão, tomada de raiva, mente ao marido que a nave que avistara no mar (trazendo Isolda, a Loira) içava uma vela negra. Não resistindo à falsa notícia, o homem sucumbe, entregando sua alma a Deus. Chegando em terra e vendo o amado morto, Isolda a Loira, abraça-se ao corpo, beija-lhe a boca e, corpo contra corpo, morre com ele.

Fim trágico, mas esperado durante toda a narrativa. O amor-paixão do casal é descrito sempre sobre a dualidade entre a vida e a morte. Nessa última passagem, quando Isolda sonha na terceira noite, há novamente um indício de morte, pois o número três tem como um de seus significados a união do céu e da terra, assim como o javali significa o mundo solitário.

Tristão um homem de dotes artísticos e, principalmente, possuidor de grande força, não cumpre seu papel de herói. Apesar de, em suas aventuras, mostrar-se um valente, ele sempre acaba padecendo por amor. Tristão cumpre, até certo ponto, o papel do homem medieval. Usufrui de seus ensinamentos em lutas em defesa do reino em que vive. Depois que se apaixona por Isolda, suas viagens não serão de cunho guerreiro. Toda a mobilidade desse homem medieval (pelo mar, floresta e estrada) será em nome do amor. A respeito dessa premissa, alerta Le Goff:

“É preciso compreender as causas pelas quais a floresta, a estrada e o mar despertam a sensibilidade dos homens da Idade Média. Eles o comovem menos por seus aspectos reais, por seus perigos verdadeiros, do que pelos símbolos que exprimem. A floresta evoca as trevas, o mar é o mundo e suas tentações, e a estrada é a busca e a peregrinação”.

Poderia se interpretar que a peregrinação é um ato de penitência para Tristão; prefere-se, porém, acreditar que essa lenda, além de ser uma história de amor, é também uma história de reação à doutrina cristã do casamento. O adultério é uma compensação às distorcidas regras de fidelidade conjugal. Tudo indica que, no fim, a doutrina cristã vence a história, pois a violação às suas regras traz a tragédia dos amantes. Para finalizar, cabe mencionar Simone de Beauvoir, que escreveu: “sua história é a história de uma revolta”. Para Beauvoir, a paixão de Tristão e Isolda ensina que uma pessoa em total acordo com a sociedade não pode nunca conhecer o amor. O presente artigo partilha dessa ideia. Tristão e Isolda viveram o seu amor, em terra, na medida que lhes pareceu possível; viveram tão intensamente que ultrapassaram os limites do que é terreno e partiram, juntos, num périplo para a imortalidade.

 

Referências:

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

BÉROUL, Thomas. Tristão e Isolda. São Paulo: Martin Claret, 2006.

BRUNEL, Pierre. Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.

GOFF, Jacques Le. A civilização do ocidente medieval. São Paulo: EDUSC, 2005.

PAZ, Octavio. A dupla chama amor e erotismo. São Paulo: Siciliano, 1998.

Silvia Andrade Author

É Professora, revisora, cronópia, blogueira bissexta. Graduada em Letras, pós-graduada em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Arrisca uns versos, mas quase sempre os risca: considera a leitura o seu melhor momento poético.