O voo eterno de Ana Cristina Cesar

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Três décadas depois de sua morte, musa da geração do mimeógrafo retorna às prateleiras em edição caprichada

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Ana Cristina César em fotografia tirada nos anos 70.

A pequena grande poeta

Considerada um dos principais nomes da geração do mimeógrafo no Brasil,  Ana Cristina Cesar foi dona de um talento precoce, que, desde muito cedo, a enveredou ao universo das letras. E, agora, trinta anos depois de sua morte, retorna às livrarias em edição caprichada que reúne seus trabalhos mais significativos, dentro do campo da prosa e da poesia, em Poética (Companhia das Letras).

Carioca nascida no dia 2 de junho de 1952, a menina de pele branca, olhos azuis e cabelos lisos aloirados, antes mesmo de saber escrever, já ditava os seus primeiros versos para a mãe, que os registrava no papel (como podemos conferir na imagem abaixo).

Poema datilografado de Ana Cristina Cesar, em agosto de 1958. (Arquivo Instituto Moreira Salles)
Poema datilografado de Ana Cristina Cesar, em agosto de 1958. (Arquivo Instituto Moreira Salles)

No fim dos anos 60, viajou para Londres, onde entrou em contato com obras de autoras como: Katherine Mansfield, Emily Dickinson e Sylvia Plath. De volta em seu país, matriculou-se no curso de Letras, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e logo depois fez Mestrado em Comunicação, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ).

Retornou a Inglaterra, onde estudou Tradução Literária, na Universidade de Essex. Começou a traduzir livros de autores estrangeiros como também a publicar seus próprios textos, em revistas e jornais alternativos, na década de 70; além de ter sido jornalista e uma grande pesquisadora  na área de literatura.

 

Dona de um verso livre

A produção de Ana C. mescla autoanálise, ficção, ensaio e elementos da cultura pop. Sua versificação transita pela prosa poética; sendo assim, a poesia se liberta da tessitura clássica, tornando-se quase um testemunho epistolar, uma narrativa introspectiva que, por vezes, beira ao terreno confessional.

Em Poética, encontramos a reunião de suas produções autônomas publicadas em vida, tais como: Cenas de Abril (1979), Correspondência Completa (1979) e Luvas de Pelica (1980); seguido de A Teus Pés (1982), único lançado por editora, a Brasiliense. Além disso, o livro conta com o volume póstumo Inéditos & Diversos (1985), organizado pelo poeta Armando Freitas Filho, entre  outros trabalhos nunca antes publicados; e fortuna crítica sobre a autora.

A poeta marginal se destacou como uma grande figura feminina dentro da literatura brasileira do século 20, ao abordar temas como a liberdade sexual, a emancipação feminina e a representatividade intelectual da mulher na sociedade.

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Ana Cristina Cesar foi um dos maiores nomes da geração do mimeógrafo da literatura brasileira.

Morreu de forma prematura, em 29 de outubro de 1983, aos trinta e um anos de idade, atirando-se do sétimo andar na janela do apartamento de seus pais, na Rua Tonelero, no bairro de Copacabana.

“Ao fechar o livro que contava sua própria história, em 29 de outubro de 1983, Ana C. provocou uma comoção geral. Um acontecimento dessa ordem não afeta somente o que você escreve, mas a vida inteira; ainda mais quando com alguém de sua intimidade”, palavras do poeta Armando Freitas Filho, um de seus melhores amigos, e com quem Ana C. se confidenciou ao telefone, quarenta minutos antes de sua morte.

Afirmando seu total desânimo de viver, ela teria confessado ao amigo estar se sentindo emparedada, e que gostaria que o médico a receitasse algo que lhe fizesse chorar. O amigo tentou reanimá-la e achou que o tratamento médico e a presença do enfermeiro ao seu lado lhe ajudaria a superar a depressão, sem pressentir que aquele seria o último dia em que ambos se falariam.

Com a reunião de seus escritos, reacende-se o eterno brilho, a beleza e a jovialidade da grande musa da poesia marginal, que teve como um de seus contemporâneos o poeta curitibano Paulo Leminski. É um resgate essencial para a nossa literatura, sem dúvida. E não poderiam ter dado título melhor ao livro, que resume bem o espírito sensível e libertário da grande poeta carioca nascida desde berço: poética.

Poética
Ana Cristina Cesar
Editora Companhia das Letras
504 págs.

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