Por mais leituras sinceras

Se o texto tem verdade, a leitura também precisa ser honesta: afinal, você quer mesmo ler esse livro?

Ilustração: Iker Ayestaran

Entre autores, é comum se referir à verdade do texto. Não importa o gênero ou o estilo, o livro deve ser verdadeiro no que diz respeito aos sentimentos/conflitos explorados e ao empenho dedicado à construção da obra. Pensando nesse conceito, cheguei à conclusão de que ele também pode ser aplicado à leitura.

Antes de ser um divertimento, estudo ou hábito, ler é uma atividade consciente. Entre todas as opções disponíveis para o leitor (o que aumenta bastante em tempos de redes sociais e internet móvel), ele escolheu abrir um livro.

Só que muitas vezes essa escolha acaba sendo pressionada. Aquele autor que a professora recomendou, o livro extraclasse, a HQ que ganhou de presente, o romance que todo mundo diz que é a sua cara, o mais vendido do mês, o vencedor de um grande prêmio… na enorme lista de livros que temos a oportunidade de ler, acabamos nos prendendo a obrigações e urgências literárias.

Claro que, quando a leitura é necessária para um trabalho, pesquisa ou prova, ela precisa ser feita – dentro de um determinado período, visando um fim específico. Quando o leitor escreve, então, parte-se do princípio que lê a maior quantidade (e qualidade) de livros que pode. O ponto é que entre esses prazos e cobranças existe uma lacuna que deveria ser preenchida por leituras sinceras.  Ou seja, algo que o leitor se sinta entusiasmado e preparado para ler.

Ultimamente tenho usado um critério muito simples para escolher a leitura da vez. Passo os olhos por cada prateleira da estante, percebendo qual título mais me atrai. Este será meu próximo companheiro de horas vagas e transporte público. De um jeito mais poético, deixo que o livro me chame.

Eu quero mesmo ler isso agora? Estou pronta para embarcar nesse universo, nessa linguagem?

Se o chamado não for forte o suficiente, passo para outras estantes, listas de interesse no Skoob, canais e blogs literários, acervos de livrarias físicas ou virtuais. O importante é me deparar com um livro cuja história/estilo eu esteja realmente disposta a ler.

Essa estratégia não apenas aumentou a quantidade e o prazer das minhas leituras, mas me fez ter contato com gêneros, autores e estilos que, de outro modo, talvez eu não lesse.

A lista de cânones literários é enorme, sem falar dos lançamentos, premiados, presentes, esquecidos na estante, garimpos do sebo. Não pretendo deixar de ler os títulos mais importantes dos melhores autores dos séculos XIX e XX.  Muitos menos negligenciarei os contemporâneos. Até porque, acho que alguém que trabalha com a escrita (sobretudo a literária) deve conhecer o cenário em que atua e o que veio antes dele. Mas isso não significa que eu devo engatar um clássico atrás do outro, nem um título relevante atrás do outro, mesmo sem vontade de ter contato com determinado enredo ou estilo naquele momento.

Ser um leitor sincero é olhar para suas metas de leitura do ano e dizer “não estou mais empolgado para ler essas obras” ou “esses livros não têm nada a ver comigo agora”.

É perceber, sem peso na consciência, que não ficou interessado pela nova criação do seu autor favorito.

É admitir que, mesmo com todo o material de apoio, você ainda não entendeu aquele livro.

É lembrar que reconhecer a importância ou a qualidade literária de uma obra não significa necessariamente gostar dela. E que gostar de um livro não o torna automaticamente uma obra primorosa.

É entender que não há nada errado em fechar um expoente da Literatura que não está funcionando para você. Aliás, não há nada errado em pausar qualquer leitura. Depois, se der vontade e achar que está melhor preparado, você tenta outra vez.

Ser um leitor sincero é assumir que não está a fim de ler coisa alguma e passar o dia (a semana, o mês) sem chegar perto da estante. Assim como é concluir que você quer ficar o sábado inteiro agarrado a algum calhamaço.

Se a leitura nos dá asas, não vamos restringir nosso voo a gaiolas. No fim das contas, ler é uma atividade como outra qualquer. E, como em outra qualquer, sempre vale a pergunta: eu estou a fim de fazer isso?

Ana Carolina Memória Author

Estudante de Direito pela UNIR e amante de Ciência Política. Lê para escrever, escreve para viver, vive por ler. Prefere Bernard Manin, Rudholph Von Iherin, Stanley Kubrick e Graciliano Ramos. Contista no blog Noah e Hadassa (https://noahehadassa.blogspot.com). E não, minha memória não é tão boa assim.