A misteriosa geração de escritores que não querem ler

Muitos autores estreantes passam cada vez mais tempo escrevendo e publicando do que na exploração de um livro novo

Antes de continuar, é preciso esclarecer – a leitura literária não é obrigatória. Defende-se o direito de todo cidadão ter acesso a livros, sobretudo livros de qualidade. A partir daí, se a pessoa vai se transformar numa leitora ou não, é escolha dela. O hábito de ler não torna um indivíduo necessariamente mais sensível e desenvolto do que alguém que prefira outras coisas. Todavia, é de se pensar que a leitura literária seja obrigatória em duas ocasiões: quando você é um estudante/ profissional de Letras ou quando é escritor.

O primeiro caso é simples. Não faz sentido escolher uma carreira que trabalha com a Literatura sem gostar do contato com ela. No entanto, é impressionante a quantidade de pessoas que acreditam que podem escrever um romance (ou mesmo uma trilogia) sem sequer lerem quatro livros por ano.

Se um estudante de Letras precisa ter certo entendimento de conceitos e recursos literários, o mesmo vale para o escritor. Ele trabalha com a criação de pequenos mundos, e precisa ser muito consciente durante esse processo.

É claro que não necessita de doutorado em Estudos Literários, mas o escritor deve ter o domínio do seu ofício: como construir o enredo, como imprimir ritmo à narrativa, como desenvolver os personagens, organizar o processo criativo. Sem falar dos quesitos mais básicos, entre eles coesão textual, ortografia e estilo do autor.

Acontece que a melhor maneira de se familiarizar com esses aspectos tão caros à escrita é justamente ler. E ler textos bem construídos, que tenham algo a ensinar em termos de “fazer literário”.

Como os maiores autores dos séculos XIX e XX escreviam tão bem, mesmo sem cursos de escrita criativa? Porque eles liam, trocavam material entre si, estavam sempre aprendendo a fazer Literatura com a própria Literatura. Ao perceber como um autor trabalha determinados aspectos da narrativa, o escritor pode levar esse know-how para sua própria produção.

Já que escrevo, é comum que eu leia a mesma página várias vezes, faça anotações, analise como a história se desenrola. A leitura não é apenas lazer ou uma atividade que me põe para pensar/sentir. Ela é também inspiração. Aprendizagem.

Mesmo que tudo isso pareça básico, uma piada circula entre os editores: “Se todo mundo que diz que quer ser escritor lesse o tanto que precisava para escrever, os problemas do mercado editorial brasileiro acabavam”. E é verdade.

Aposto que você conhece muita gente que sonha em ter um livro publicado, mas não seria surpresa se essas mesmas pessoas lessem muito pouco ou tivessem uma experiência literária um tanto limitada (ler um único gênero/autor, apenas narrativas previsíveis ou pouco trabalhadas, etc).

Não que o hábito da leitura necessariamente transforme alguém em escritor. É possível ser um ávido leitor sem ter vocação para a escrita criativa. Mas é impossível ser um bom escritor sem ler. Cria-se até um paradoxo: como o autor espera que as pessoas leiam e comprem seus livros se ele mesmo não lê nem fomenta o mercado pelo qual mais deveria se interessar? Como sabe que está sendo original, se não tem base para comparação?

É visível que muitos autores têm investido em cursos de “aprenda a consolidar uma carreira literária”. Isso é ótimo. O problema é que, quando você lê os textos da pessoa, eles são mal escritos, pouco desenvolvidos, repletos de clichês e até com erros de ortografia.

Do que adianta aprender a promover sua imagem e engajar leitores se o principal – ou seja, a produção literária do autor – é fraca? É até mais danoso, porque ele vai se divulgar por meio de textos ruins. Isso afasta não apenas leitores, mas também oportunidades.

Talvez essa situação venha da crença de que a escrita é um dom que, justamente por sê-lo, não deve ser estimulada além de si mesma. Algumas pessoas de fato possuem uma inclinação maior para a criação literária que, nas circunstâncias ideais, pode ser desenvolvida à excelência. Mas entre essas circunstâncias ideais estão o acesso a livros, a leitura crítica, o aprimoramento constante da própria escrita. E, acima de tudo, qualquer um tem a capacidade de escrever melhor do que já escreve.

Qual é a maior aliada desse processo? A leitura. De livros, quadrinhos, artigos, matérias e ensaios capazes de inspirar. Nesse universo das letras, uma coisa é certa: por trás de um único texto estão muitos e muitos livros. Antes de ser escritor, é preciso, sobretudo, ser leitor.

Ana Luiza Figueiredo Author

Graduada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ, é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFF. Atua como produtora de conteúdo, revisora, copidesque e redatora publicitária. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. Possui material publicado em sites, revistas e periódicos acadêmicos. É autora do livro infantil "O Mirabolante Doutor Rocambole", finalista no Prêmio Off Flip de Literatura e recentemente musicado em CD. Também foi finalista no Concurso de Contos Paulo Leminski, Menção Honrosa no Concurso Literário Felippe D’Oliveira e 2º lugar no Concurso Paulo Setúbal, Categoria Poesia.

Comments

    Maria Rachel

    (Janeiro 23, 2017 - 10:39 pm)

    Isso aí. Na Terapia da Palavra é sempre esse meu primeiro questionamento: como pretender ser um bom escritor se não lê? Impossível.

    Muito bom!

    Manlei Santeoni

    (Janeiro 24, 2017 - 1:59 am)

    Concordo com tudo, Hoje muitos querem se tornar escritores mas poucos se dedicam de fato ao ofício. O status está sobrepondo o conteúdo.

      Fernando Cavalcante

      (julho 25, 2017 - 6:44 pm)

      Não só escritores. Eu fui durante muito tempo monitor de matérias na faculdade, e responsável pela instrução de novos estagiários na defensoria, quantas vezes não ouvi “mas não tem jeito mais rápido de aprender essa lei não? Ler isso tudo gasta tanto tempo…”. Querem se tornar especialistas em tudo, sem custo, sem dedicar tempo nenhum. Ai leem meia duzia de artigos da wikipedia e já acham que são possuidores de mais conhecimento e habilidade que Scott Fitzgerald.

    Caio Freitas

    (Janeiro 24, 2017 - 9:39 am)

    Sou escritor. Não leio 4 livros por ano. Tenho dificuldade para ler desde criança. E aí?

      Zito Reis

      (Janeiro 24, 2017 - 1:09 pm)

      Caio, onde posso ler seu trabalho?

      Luiz Felipe Barreto

      (Janeiro 25, 2017 - 4:29 am)

      Mas se você não gosta de ler, por que resolveu ser escritor? É tipo querer ser confeiteiro e detestar doces. Ou sei lá, querer ser jogador de futebol e detestar futebol.

        Caio Freitas

        (Março 17, 2017 - 9:43 am)

        Luiz, em momento nenhum falei que não gosto de ler. Gosto. Adoro. Gostaria de conseguir ler mais. Disse que as vezes não consigo. E resolvi ser escritor porque existem histórias que precisam ser contadas e repassadas, independente de quem esteja contando. Bons livros, boas histórias funcionam como se estivessem vida própria, um universo de matérias e emoções que transcendem a bolha de vivencia de cada pessoa. Esse contato com outras formas de consciência é transformador para a mente de cada pessoa. Não cabe a mim negar e privar a existência de algo, mesmo que criação minha, que consegue ser maior do que eu. Isso responde sua pergunta?

      O_RPGista

      (Janeiro 25, 2017 - 10:15 am)

      Se não gosta e não lê nada, está se chamando de escritor por sua conta, contrariando o que todos os “escritores, realmente” dizem.

        Caio Freitas

        (Março 17, 2017 - 9:49 am)

        Copiando e colando o que coloquei no comentário anterior: em momento nenhum falei que não gosto de ler. Gosto. Adoro. Gostaria de conseguir ler mais. Disse que as vezes não consigo.

        Se pra voce nao sou um escritor de verdade ou sou incapaz de escrever, não vou me esforçar para convencer você do contrário. Agora, pra quem lê tanto, você demonstra dificuldade em diferenciar o que está escrito de uma interpretação aleatória e sem base que surge na sua cabeça.

          Ana Luiza Figueiredo

          (julho 31, 2017 - 8:02 pm)

          Também gostaria de poder ler mais. Acho que qualquer apaixonado por livros pensa assim. Porém, quando algo é prioridade na nossa vida, devemos fazer um esforço por isso.
          Independentemente da quantidade de afazeres dos quais eu tenha que dar conta, sempre planejo um intervalo para a leitura. Afinal, eu trabalho com a escrita, preciso estar em contato com ela para poder me aperfeiçoar.
          Por mais atarefada que uma pessoa seja (sobretudo um escritor), é possível ler pelo menos um livro por mês. Há ótimos livros com menos de 200 páginas, inclusive clássicos e obras premiadas.
          1 livro por mês somam 12 livros por ano. Já é alguma coisa.
          Acho que a quantidade de leituras que fazemos depende da importância que damos à leitura na nossa rotina.

      Sam Chambela

      (Janeiro 31, 2017 - 1:08 am)

      Também fiquei curioso para ler suas publicações. Se não se importar em compartilhar. Sem querer duvidar do seu potencial, só por curiosidade mesmo.

        Caio Freitas

        (Março 17, 2017 - 10:07 am)

        Estou terminando meu primeiro livro que pretendo publicar. Os outros até mandei e recebi propostas, mas não achei que estava pronto para publicação. Sou muito preocupado com qualidade das minhas obras e só vou publicar quando elas se mostrarem o mais próximo que eu Eu realmente leio pouco, mas analiso profundamente tudo que leio. Estudo os livros que pego. Quantidade de leitura é mais importante que quantidade para mim. Assim que publicar, posso mandar uma edição para você. 😀

          Sam Chambela

          (Março 31, 2017 - 12:54 pm)

          Aguardo ansiosamente! 🙂

      Alexandre_Ostan

      (julho 30, 2017 - 9:19 pm)

      Vc não é escritor. Vc se ACHA escritor. É muito diferente.

        Caio Freitas

        (julho 31, 2017 - 1:40 pm)

        Alexandre, você não tem a menor capacidade de dizer se eu sou ou não sem ter lido alguma obra minha.

          Alexandre_Ostan

          (julho 31, 2017 - 3:09 pm)

          Não tem nada a ver. Minha opinião pessoal sobre sua obra não define vc como escritor ou não. Quem tem capacidade de descobrir escritores é o editor, o agente literário. E somente depois de ter um livro impresso ou lançado virtualmente por um desses profissionais, o indivíduo pode ser considerado escritor.

    Marcelo Xavier

    (Janeiro 24, 2017 - 12:40 pm)

    Isso de escrever como um leitor eu tive um curso muito bom com o professor Gilberto Scarton na Famecos. O legal de ler e ler é que a gente pode ver influências de escritores em escritores e isso é bem comum entre os grandes escritores. Por exemplo, vejo muito do Dostoievski no Eça dos Maias e muito de ambos no Nelson Rodrigues, mas cada um mantendo a sua integridade autoral.

      Ana Luiza Figueiredo

      (Janeiro 26, 2017 - 10:29 am)

      Oi Marcelo,
      Considero que essa influência, pelo menos hoje em dia, se dá de maneira bem indireta…ao ler diferentes autores, temos contato com diferentes formas e possibilidades de narrativa, o que abre o leque para acharmos nossa própria voz literária. Evito comparar o estilo de um autor com outro porque acho injusto com ambos.
      Entendi o que quis dizer, e concordo que, em casos de influência, a integridade autoral se mantém. Mas acredito que a leitura sirva sobretudo para nos mostrar diferentes maneiras de contar uma história, falar de algum assunto ou sentimento e, sobretudo, aguçar nossa sensibilidade e percepção. A partir disso, acho que temos mais confiança para construir nossos próprios enredos 🙂

    Michel Soares

    (Janeiro 24, 2017 - 2:30 pm)

    De fato, acredito que o bom escritor é resultado do leitor ávido. E embora não goste de verdades absolutas, devo dizer que se há bons escritores que não leem, isso deve ser mesmo casos excepcionais. Sou um escritor amador, e trabalho há anos com meus textos sem ter publicado nada comercialmente, porque convivo com a nítida percepção de que ainda tenho muito o que melhorar. E apenas sei desse fato, porque muito antes de escrever, eu já era leitor. E leitor compulsivo… Quando estou diante do trabalho de um grande mestre da literatura é que compreendo o quanto sou pequeno e ainda tenho muito o que aprender. E talvez o considerável problema que o mercado editorial brasileiro vem enfrentando, é conseguir achar um bom autor no meio de milhares de indivíduos convencidos pela própria empáfia de que são escritores…

    Ótimo artigo.

      Ana Luiza Figueiredo

      (Janeiro 26, 2017 - 10:18 am)

      Oi Michel,
      A intenção não foi trazer uma verdade absoluta, mas reitero que ser um bom escritor sem ler é muito difícil. Me faltam exemplos inclusive. É como querer ser cineasta sem ir ao cinema.

      Eu acho que você faz bem em trabalhar seus textos antes de publicá-los, sobretudo quando essa avaliação é embasada por uma bagagem de leituras. Também sou muito crítica com o que escrevo e só levo a público aquilo que eu acredito ser o meu melhor (pelo menos naquele momento). Aprendi que a ansiedade é uma das grandes inimigas do jovem escritor. Prefiro deixar o texto de molho um tempinho, voltar a ele, fazer alterações…enfim, o processo é longo, mas acredito que compensa.

      Concordo que os grandes autores são professores excelentes. Com certeza aumentam seu nível de exigência com o que você produz.

      Acho que o cenário literário atual no Brasil tem excelentes escritores, muitos dos quais não conseguem ser absorvidos pelo mercado (pelo menos não com a projeção que suas obras merecem). Mas também há muitos que colocam qualquer outra atividade – marketing pessoal, gerenciamento de redes sociais, ida a palestras e eventos – na frente da escrita. Aí fica mais difícil.

        Michel Soares

        (Janeiro 27, 2017 - 10:18 am)

        Ana, eu estou de acordo contigo. De fato, a produção textual, como instrumento de obtenção substancial, tem como resultado um trabalho diminuto ou meramente aceitável. Acredito que as grandes obras literárias surgem da ação puramente criativa, cujo intento nada mais é do que a própria arte com meta. Obviamente seria hipocrisia se eu dissesse que não gostaria de lucrar com meus trabalhos, mas penso que o foco não pode ser esse, ou o desenvolvimento textual será comprometido…

        Mas sem fugir do assunto, comungo de sua opinião quanto à autores serem derivados de leitores. E quanto maior for esta proximidade com a literatura, maior tende a ser a excelência dos resultados.

        Obrigado pela agradável prosa. E parabéns pelo artigo.

    Lana

    (Janeiro 24, 2017 - 6:24 pm)

    Concordo plenamente com seu texto. Não me acho uma escritora excelente, mas vejo progressos na minha escrita desde a primeira história. Vejo essas evoluções através do tempo, dos livros que eu leio, dá prática e de tudo mais. Infelizmente vejo muitos profissionais, em diversas áreas que precisam de leitura, sem querer ler. É decepcionante, em qualquer área.

      Ana Luiza Figueiredo

      (Janeiro 26, 2017 - 10:22 am)

      Oi Lana,
      É verdade, quanto mais lemos e trabalhamos nossa escrita, mais ela melhora e fica “com a nossa cara”.
      Infelizmente também sinto falta de mais leitores, em todos os sentidos.

    Karen Soarele

    (Janeiro 24, 2017 - 11:35 pm)

    Ana, você não entendeu… O que acontece é que essa é uma geração de GÊNIOS, pessoas especiais que já nasceram sabendo tudo. Só falta o mundo reconhecer isso.
    -_-

      Ana Luiza Figueiredo

      (Janeiro 26, 2017 - 10:05 am)

      Nossa, falha minha! Hehe.
      E aí entramos numa outra questão: se ninguém lê esses autores além deles mesmos, qual é o sentido de se dizer escritor?

        AUGUSTO GARCIA

        (julho 27, 2017 - 1:32 pm)

        Essa é uma boa questão… Um autor ou uma obra se mede pela quantidade de leitores?

        Luiz da Motta

        (julho 27, 2017 - 4:18 pm)

        E não ser lido hoje não quer dizer que não vai ser lido nunca.

        Luiz da Motta

        (julho 27, 2017 - 4:19 pm)

        Alguém pode também escrever para promover um diálogo interno. Não é proibido.

          Ana Luiza Figueiredo

          (julho 31, 2017 - 8:16 pm)

          Oi Luiz,
          No texto, eu me refiro a pessoas que têm ou desejam ter obras publicadas, que se dizem escritores. Ninguém publica um livro para não ser lido. Se a intenção é essa, ao invés de salvar um original numa plataforma ou enviá-lo para a avaliação de uma editora, a pessoa vai escrever um diário ou algo do gênero. Certo?
          Se você pretende trabalhar alguma questão pessoal por meio da escrita, sem compartilhar esse material com mais ninguém, claro que tem todo direito de fazê-lo. Mas não é a esse perfil que me refiro quando utilizo o termo “escritor”. As criações de um escritor vão além de si mesmo, ultrapassam seu reflexo. Atingem mais pessoas, sejam 50, 15 mil ou 10 milhões. Acredito que sejam conversas, não monólogos.

    Lyra Siqueira

    (Janeiro 24, 2017 - 11:50 pm)

    fato. lacônico assim mesmo: fato.

    Djane Fernandes

    (Janeiro 25, 2017 - 4:52 pm)

    Texto perfeito. Antes os escritores mantinham relações estreitas entre eles. Compartilhavam ideias, Trocavam figurinhas, como é o caso dos amigos Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e de Machado de Assis que tinha grandes nomes da literatura como amigos, como Manuel Antônio de Almeida, seu protetor, Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar, Gonçalves Dias, entre outros. Não à toa, Machado é um expoente da Literatura Brasileira.

      Ana Luiza Figueiredo

      (Janeiro 26, 2017 - 10:21 am)

      Oi Djane,
      Acho que essa rede entre autores ainda existe, mas ficou muito mais ramificada e ganhou novos agentes. O que não é ruim, pode criar várias oportunidades. Só que como se destacar nesse oceano diário de informações é difícil, alguns autores acabam priorizando a autopromoção ao invés da própria escrita e seu aprimoramento (o que inclui, a meu ver, o hábito da leitura). Considero que deve haver um equilíbrio entre essas atividades.

    Chico Lopes

    (Janeiro 27, 2017 - 6:48 am)

    É tão óbvio…Mas o óbvio vive sendo esquecido pela moçada. Há muita preguiça por um lado e muita pressa de ser publicado por outro. O resultado: um país inundado de livros ruins ou medíocres.

      Fernando Cavalcante

      (julho 25, 2017 - 6:42 pm)

      É a geração do instantâneo. Leitura requer tempo, dedicação, investimento; eles só se interessam no que é instantâneo. E é uma geração criada na base do “meu filho é especial, mais inteligente que todo mundo na sala”; “meu filho escreve desde os 4 anos, é um verdadeiro gênio, vai se tornar um escritor”; e as versões piores “meu filho tirou nota baixa em português, mas é incompreendido pelo professor, tadinho, um gênio. Einstein também tirava notas ruins!”. Crescem todos achando que são especiais, possuidores de habilidades acima de toda a média da humanidade (e mesmo que alguns, de fato, possuam, talento natural nunca foi nem nunca será substituto para estudo e treino). É uma geração triste, que quando bate a cara no muro e tem que entender que não são tão especiais assim, entram em depressão.

        Ana Luiza Figueiredo

        (julho 25, 2017 - 7:59 pm)

        Oi Fernando,
        Realmente, ainda há muita ingenuidade no que diz respeito ao trabalho e à rotina do escritor, em todos os sentidos. Precisamos despir as idealizações e arrogâncias para exercer a inventividade e o talento.

          Fernando Cavalcante

          (julho 25, 2017 - 8:58 pm)

          Pois é, eu escrevo, por mais amadoramente que seja, desde os 12 anos de idade, constantemente, e mantenho uma média de leitura de pelo menos 10 livros por ano, sendo que quando eu era menor e tinha tempo livre era bem mais, e ainda não me sinto preparado pra escrever um romance, mesmo já tendo sido publicado no ramo da não-ficção. As pessoas parecem que pensam que você só senta e começa a escrever, sem parar pra pensar que existe uma ciência por trás dos arcos narrativos, da coesão lógica da narração, e acabam produzindo livros com claros lapsos de lógica entre os momentos, e falhas nos arcos narrativos que você percebe claramente que advém da falta de leitura. Ou mesmo a hiper utilização de determinados clichês que alguém que lesse livros o bastante perceberia que já não são mais o bastante pra fazer uma obra se destacar.

    Fábio

    (Janeiro 27, 2017 - 4:58 pm)

    Trabalho com audiovisual e percebo situação equivalente: vários pseudo-geniozinhos do cinema e da tv que não assistem nada.

    José Carlos Dos Santos

    (Janeiro 31, 2017 - 6:42 pm)

    Cara…francamente, eu vou dizer uma coisa sobre isso. É besteira.

    É besteira, pois, no Brasil de hoje, principalmente quando falamos em mercado literário (e indo mais além, da vida de um escritor mesmo) ter bons conhecimentos literários não é garantia de nada. Basta perguntar à Kefera o que ela acha de Homero, Virgílio, Kafka, Machado de Assis, ou seila…Shakespeare? Num país onde Ivo Pitanguy e José Sarney são imortais da ABL, ao lado de tantos titãs, só prova que pra ser publicado, basta ser famoso em alguma outra coisa primeiro, não ter um bom texto. A internet é cheia de blogs esquecidos de bons escritores que conhecem de Dante à Jorge Luis Borges, cujos textos infelizmente vão permanecer apenas assim; como postagens.

    Agora tem uma outra questão, que são esses malditos cursos de escrita criativa…é tapeação, eu sou roteirista e passo muito por esses dois problemas, por dois motivos.

    1 – Escrever é relativamente fácil, a ideia que você precisa de um talento oculto como parte de um gênio, infelizmente só existe no nosso imaginário popular cotidiano do cinema, da TV. No mundo real, pra escrever basta ordenar uma letra após a outra de acordo com as convenções ortográficas e ordena-las de acordo com a gramática da língua portuguesa. Pronto. Sabemos que no fundo é preciso muito mais que isso, mas, essas duas coisas já são suficientes pra todo mundo se achar um roteirista, um autor, um escritor…o que faz a profissão da escrita no Brasil, algo no minimo ingrato, e não valorizado, já que se você não redige um artigo por 10 ou 15 reais, vai ter alguém que faça por 5. Sem falar dos contratos do tipo “pagamento depende da aprovação da verba do edital” ou “Publique seu livro conosco, mas se ele não vender está sujeito a receber as 200 cópias do seu livro e arcar com o nosso prejuízo” etc etc

    2 – Não bastasse essa ingratidão o caminho até os louros do reconhecimento é pavimentado de diabos vestidos de Prada…se eu te contasse a caralhada de cursos de oficinas de roteiro, “script-doctoring” “escrita criativa” ou de manuais disso e daquilo que prometem tudo e não entregam nada. Não existe um jeito de ser escritor, realmente escrever é algo que se aprende lendo. Mas, infelizmente hoje em dia, conhecer os clássicos da literatura (ou apenas ler em si como é o caso) é mais uma escolha pessoal do autor que ele faz em juízo, do que uma necessidade mesmo. Até por que, pra se ler precisa de tempo, e é o que menos andamos tendo nesses dias, onde a ociosidade tem um custo muito caro.

    É claro, que o resultado é sempre destoante alias, bastante drástico, entre uma pessoa que tenha um censo literário refinado e outra cujo o ultimo livro que leu, foi uma HQ do Frank Miller à seis meses atrás (não que elas sejam ruins) mas ae eu volto a perguntar, quem realmente está ligado?

    Mesmo assim, você está certo na sua colocação as pessoas que se levam a escrita a sério tem uma bibliografia minima que é preciso conhecer. Espero apenas que elas tenham dinheiro.

      Cida Sepulveda

      (julho 26, 2017 - 2:40 pm)

      Excelente. Na sociedade letrada, muito gente escreve. Por isso, acrescento à palavra escritor a de artista, ou seja, escrever com arte. Aí o bicho pega.

      José Carlos Aragão

      (julho 27, 2017 - 10:12 pm)

      Concordo em termos, xará. Não concordo, por exemplo, com “censo” literário e “à seis meses atrás”.

        José Carlos Dos Santos

        (julho 28, 2017 - 6:54 am)

        kkkkkkkkkk lendo agora, eu mesmo não concordo.

      Witoki

      (julho 28, 2017 - 10:54 am)

      Leitura não é ociosidade e HQ de Frank Miller é biscoito fino! Hoje estou aposentado e, graças aos céus, tenho bastante tempo para a leitura. Mas, sempre o fiz, inclusive na época em que comecei a faculdade e dormia 4 horas por noite. Essa história de que não lê porque não tem tempo é balela. Há coisas que todas as pessoas não deixam de fazer em nenhuma circunstância, simplesmente porque gostam.

    Desvarios

    (Fevereiro 1, 2017 - 9:59 am)

    Disse tudo! Para bem escrever, é preciso bem ler, meus professores sempre me disseram. A escrita, assim como a leitura, não pode ser um processo apressado. A leitura não é uma lista de tarefas domésticas que precisa acabar logo.
    Já vi muitos textos de pessoas que querem ser escritoras, porém nota-se que pela pressa em aparecer no cenário, em construir a carreira que almejam, acabam não explorando todo seu potencial. A pressa faz textos que teriam tudo para ser ótimos, em mais do mesmo, em histórias mal acabadas. Uma pena. Vivemos em tempos em que parece que tudo tem de ser obtido agora e já, sucesso instantâneo, reconhecimento imediato.
    Precisamos de menos preguiça e mais dedicação.

      Ana Luiza Figueiredo

      (Março 16, 2017 - 11:54 pm)

      Com certeza. Leitura e escrita são processos que exigem atenção, entrega. Você sabe que lê um bom livro quando é capaz de sentir que cada uma das palavras que o formam não está ali por acaso, tudo foi muito bem pensado. Isso não é algo que se faz do dia para a noite. Há todo um processo de lapidação envolvido.
      Acho que vivemos um período de muita agilidade. As coisas acontecem e mudam rápido demais, e entendo que exista um anseio em saltar logo para a próxima etapa. Mas é preciso ponderar a qualidade desse pulo.

    Alexandre Ostan

    (Março 26, 2017 - 3:08 pm)

    É a velha história do brasileiro querer ser rico e famoso sem estudar ou trabalhar. Jogador de futebol, funkeiro, sertanejo, participante do Big Brohter, youtuber. Alguns acham que podem ser escritores ou artista plástico apenas porque querem.

    Ainda mais com essa onda de youtuber “escritor” (que nem escrevem, têm ghost writer) que está surgindo, as coisas parecem ainda mais fáceis.

      moony

      (julho 30, 2017 - 8:50 am)

      Que elitismo lindo. “O brasileiro.” Muita literatura e pouca compreensão da humanidade, pelo que vejo.

        Alexandre_Ostan

        (julho 30, 2017 - 9:17 pm)

        Então vc compreende a humanidade? Meu Deus, que lindo isso! Vc é muito especial!

    Vanessa Dos Santos

    (Abril 5, 2017 - 12:55 pm)

    Hm, fico sempre ressabiada quando vejo pessoas falando que outras lêem pouco, ou não lêem. Fico mais ressabiada ainda com a crítica a que tipo de livros esses leitores estão lendo. Principalmente em termos de “narrativa previsíveis e pouco trabalhadas”. Isso porque, pra mim, soa muito como uma separação, mesmo que velada, entre alta literatura digna de leitura e portanto, que presta, e aquela outra coisa lá que a gente aqui de cima deixa eles chamarem de literatura mas fazemos questão de afirmar que é ruim. Não sei quantos escritores jovens tem a intenção de se tornar os próximos gênios da literatura brasileira. Mas conheço vários que gostariam de ser os autores do novo best seller que a criançada ta lendo por ai, então me parece lógico ler esse tipo de livro.
    Mas você me colocou pra pensar. Discordo completamente com a obrigatoriedade da leitura literária nesses termos de arte superior em detrimento da “literatura” de consumo, mas fiquei encafifada. Preciso ler mais sobre isso.

      Ana Luiza Figueiredo

      (julho 25, 2017 - 11:01 am)

      Oi Vanessa,
      O autor tem que ler o que acredita que vai acrescentar a ele e a sua escrita. Que leituras serão essas e de que modo serão aproveitadas, ele é quem vai decidir.
      Meu ponto é que não há como produzir textos sem cultivar o hábito de leitura 😉

    Ricardo Santos

    (Abril 7, 2017 - 12:21 am)

    para mim, a escrita é uma extensão da leitura. sem leitura, não há escrita. simples assim. e se vc escreve muito, leia mais ainda.

      Ana Luiza Figueiredo

      (julho 26, 2017 - 7:39 pm)

      Adorei essa última frase!

    Caio

    (julho 25, 2017 - 8:26 am)

    leem sim, soh que hj tem que ser mulher e negra para ser lida.

    Caio

    (julho 25, 2017 - 8:28 am)

    Vejo isto geralmente em universitários, em que a “pose de Cult” prevalece para estar no meio, muito gente que diz que gosta de poesia, e o que produzem e reproduzem não passam de frases de efeito, trocadilhos batidos ou dissertação em verso.

    Outra coisa que percebi que precisa ser amigo para ser ler e ser lido.

    Patrick DiPeixoto

    (julho 25, 2017 - 11:56 am)

    Antes de sermos escritores, somos leitores.
    Temos que ser discente da escrita e não doutores
    Para exportamos nossos amores e, também, pavores
    Em vezes, não menos que apaixonados inventores
    Porém, antes mesmo de sermos íntimos de papel,
    lápis, caneta, pena, tinta ou espelho de bordel,
    e escrever uma linha de mero sentimento
    temos que ler livros de largo comprimento

    Eliziane Dias

    (julho 27, 2017 - 8:49 am)

    Muito bom! Adorei!

    Paulo Rocha

    (julho 27, 2017 - 11:24 am)

    Para ser um bom escritor é preciso, acima de tudo, ser um bom leitor.

    Ismael Calliano

    (julho 27, 2017 - 12:43 pm)

    “Encontrava-se no café, sozinho, com ele próprio. John Brook – a beber café e a fumar cigarros. Ouvia Amy Winehouse, cortesia desse cafezito que exalava um odor perfumado, perto de Sta. Catarina, na Passos Manuel (a rua do Coliseu). Lia alguns contos eróticos de Pedro Juan Gutiérrez.

    É importante para um escritor ler outros autores. É deveras importante perceber como se escreve bem, e como não se deve escrever. E, para isso, é necessário ler. Ler muito. Não devorar livros desalmadamente, não. Ler com os olhos da alma. Quase todos os dias lia, nem que fosse para estabelecer uma pausa no processo criativo. Todos os dias a escrever não é pêra doce. Sim, Johnny escrevia todos os dias. Mesmo que não aproveitasse nada. Escrevia. Tinha uma máquina de escrever no cérebro e era o coração quem lhe bombeava a tinta. Enquanto não jorrava o que lhe palpitava de dentro para o exterior, ouvia um constante dactilografar ecoando nas entranhas dos seus pensamentos. «Tec tec tec, tec, tec, tec tec tec tec…». Nesses casos, independentemente de estar a ter uma conversa com alguém, ou a executar qualquer função da vida física, teria de parar, como quem para o tempo. E parava no tempo para anotar no papel rascunho que trazia nos pensamentos, ou pegava numa caneta e apontava, onde quer que fosse, e retomava o que estava a fazer. Mesmo que depois se sentisse perdido ou desnorteado. O importante era captar o que a voz interior tinha para dizer. É essa quem dá sentido à vida exterior.

    Ler, observar, analisar, estar sem fazer nada, viver intensamente e apanhar umas valentes mocas, são alguns dos exercícios necessários para um bom contador de histórias. Acima de tudo, viver.
    Na realidade não existem pausas num processo criativo. Escreve-se. Não se pode ficar à espera da inspiração. A inspiração não é domesticável. Escrever é algo a que alguém se pode obrigar. Estar inspirado é algo que se torna mais difícil quanto mais se espera por ela. Pela inspiração. Johnny conhecia os meandros do processo. Esperar pela inspiração é como “esperar por Godot”. Na pintura, no desenho e em toda a verdadeira expressão artística sabe-se disso.”

    in John dos Santos Brook, de Ismael Calliano

    AUGUSTO GARCIA

    (julho 27, 2017 - 1:35 pm)

    A maior parte das reclamações que escuto de meus colegas professores é de que os alunos não leem, mas gostam de debater superficialmente as coisas e muitas vezes se baseiam em memes

    AUGUSTO GARCIA

    (julho 27, 2017 - 1:38 pm)

    Ana Luiza, você fala em leitura literária…Pra mim a leitura é uma só, e leio o que gosto e então leio pra valer ou seja com todas minhas forças e empenho. Você acredita em diversas formas de ler?

      Ana Luiza Figueiredo

      (agosto 1, 2017 - 9:11 am)

      Oi Augusto,
      Sim, a leitura é uma atividade de várias faces. O foco do texto é a leitura literária porque ele é dirigido a pessoas que se denominam escritoras ou têm esse desejo. Como a maioria delas escreve ficção, é recomendável terem o maior contato possível com obras ficcionais escritas, também conhecidas como livros.
      Porém, como coloco no último parágrafo, ler também engloba artigos, matérias, entrevistas, entre outros materiais. Quanto mais próximo um escritor estiver das palavras, melhor.
      Até!

    Luiz da Motta

    (julho 27, 2017 - 4:22 pm)

    Eles não precisam de ler nada. Como só tratam do próprio umbigo, a obra deles já nasce pronta.

      Ana Luiza Figueiredo

      (setembro 27, 2017 - 12:52 am)

      Olha, acho que mesmo para falar do próprio umbigo é preciso ter uma bagagem literária, rs.

    Fernando Mendes

    (agosto 4, 2017 - 12:17 pm)

    Verdade esse artigo. Escrever e ler é como o Ying e o Yang: um inspira o outro.

    Luiz Fantástica

    (setembro 20, 2017 - 1:12 am)

    É uma geração da velocidade e ler se tornou algo “demorado” demais com tantas coisas velozes. É surpreendente, mas é isso mesmo… 🙁

      Ana Luiza Figueiredo

      (setembro 27, 2017 - 12:51 am)

      Também percebo esse imperativo da velocidade em vários aspectos, inclusive na escrita e na publicação. Textos mal elaborados, escritos em pouquíssimo tempo, já são logo enviados a mil e uma editoras ou então financiados para se transformarem em livro em questão de meses. Com raras exceções, geralmente os resultados deixam bastante a desejar.
      Parto do princípio de que se a pessoa não tem nem tempo ou disposição para ler, deveria reconsiderar a vontade de se tornar escritor(a).

    Cíntia Lira

    (setembro 29, 2017 - 12:57 pm)

    Apesar de não concordar com muitos comentários, e principalmente com a desqualificação deste ou daquele gênero como material importante para a formação de um bom escritor — e, no geral, formação de pessoa reflexiva (como no caso de HQs), concordo com a ideia central do texto, e também fico perplexa com a onda de “escritores” que não gosta de ler, ou ainda, que finge gostar para ganhar algum “status”, mas a falta de leitura fica óbvia em sua escrita precária, não só na questão de ortografia e gramática, mas também nas ideias batidas. Eu tento muito fortalecer o trabalho de escritores nacionais iniciantes, e fico muito frustrada com a quantidade de literatura genérica, especialmente os rip-offs de enredos norte-americanos. Me deixa triste quando um escritor brasileiro não valoriza sua própria cultura. Falo de enredos que se ambientam em países que o escritor nunca esteve e nem ao menos se deu ao trabalho de pesquisar a fundo, com nomes americanos e realidade que destoa da brasileira. Soa plastificado e patético!
    Por fim, eu mesma percebo que fico muito mais inspirada em períodos que leio mais.

    Leymar

    (Fevereiro 9, 2018 - 3:37 pm)

    O que é ler ? Somente livros ? Discordo que só será bom escritor quem ler livros especificamente. Ler é ler. Quem lê bastante, adquiri o hábito de escrever bem também. Tem gente que não tem saco pra ler livros, mas escreve excepcionalmente bem, porque pra ser um bom escritor não basta ler como você mesma disse, tem que ter algo mais. A expressão interna de cada um, é a pedagogia da escrita. Quantidade de livros lido, não faz escritor, mas ler sim. Leia notícias, leia mensagens, lei tudo e sempre. Sua expressão interna, poderá ser ou ser, seu “Best Seller”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *