Retratos da resistência – Uma página sobre filosofia africana num país racista

“A academia é um dos mais importantes baluartes do racismo”, Wanderson Flor do Nascimento, professor de Filosofia da UnB, em entrevista ao Homo Literatus

Manchetes como “jovem negra é acusada injustamente de roubar um casaco que era seu” e “motorista é confundido com assaltante e denuncia loja por racismo”, podem causar espanto a quem crê fielmente na tal democracia racial brasileira, mas, acredite, retratam casos recentíssimos envolvendo preconceito racial no Brasil.

Enquanto a primeira (de 20/05/2017), divulgada pela página Geledés, Instituto da Mulher Negra, trata do caso da jovem Karine, que entrou numa loja para provar uma peça de roupa e, ao sair, foi acusada de furtar o próprio casaco (que já portava ao entrar), a segunda, (de 22/01/2017), divulgada pela Rádio Jornal, do Jornal do Commercio de Pernambuco e outros veículos de imprensa nacional, relata o caso do motorista Mario José, que teria ido à loja “Casa dos Frios”, num bairro de classe média do Recife, para fazer as compras de seu empregador e, mesmo tendo pagado tudo e estando completamente desarmado, foi acusado de ser um assaltante.

Nos dois casos, ambas as vítimas eram negras, e apenas demonstram como ainda está vivo o velho determinismo racial que entupia as faculdades de direito e medicina do Brasil na época do Nina Rodrigues. A conclusão dos comerciantes demonstra um raciocínio bem simples e aviltante: negros são assaltantes em potencial.

Diante de um país construído tijolo por tijolo por negros, mas extremamente racista, que, contudo, se propaga para o mundo como uma democracia racial, são bons (e não raros) os momentos em que nos deparamos com a resistência, a luta pelo reconhecimento dos direitos do povo negro. Um desses momentos é a descoberta da página “Filosofia Africana”, gestada por Wanderson Flor do Nascimento, professor adjunto do Departamento de Filosofia da UnB e especialista no tema dos pensares do povo negro.

E é o professor Wanderson Flor o entrevistado da vez do Homo Literatus:

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HOMO LITERATUS – A África é um continente. Se considerarmos a evolução humana, a África ganha posição de incontestável destaque na marcha do homem pelo povoamento do planeta. No entanto, após séculos de colonização política e, sobretudo, de subjugação econômica, relegou-se ao continente africano uma imagem desprovida de significância, sobretudo na mentalidade invasora, como que na tentativa de legitimar as atrocidades das potências invasoras. Prova disso é que muita gente, quando fala da África, ainda a vê como um país, quando não como um quintal. No seu ponto de vista, essa mentalidade de “ignorância institucionalizada” também existe no Brasil?

WANDERSON FLOR – Sem dúvida alguma nosso país mantém uma imagem estereotipada e redutora acerca do continente africano. Muito embora o Brasil tenha sido formado com elementos culturais advindos desse continente, de modo decisivo, uma das dinâmicas das maneiras como lidamos com as imagens das culturas que nos construíram consiste em fazer hierarquias entre o que é mais importante e o que é menos importante. E exatamente o que herdamos dessas “potências invasoras” ocupa o lugar de mais importante, o que faz que reproduzamos imagens pejorativas de África. Entretanto, não estou convencido de que esse fenômeno seja bem uma ignorância. Não é um desconhecimento o que motiva isso, mas, em minha interpretaçã, é mais um conjunto consistente de valores e jogos de poder que tem como efeito e ponto de partida a inferiorização do continente africano e das populações negras. Isso é uma mostra da força do racismo na constituição dos imaginários modernos dos quais somos herdeiros. Isso é diferente de desconhecer: é imprimir no continente uma imagem que desejamos que opere. Mesmo quando sabemos da origem africana das civilizações, quando notamos que é muito mais um estereótipo que o continente seja uma terra de miséria, doenças e barbárie, quando temos elementos suficientes para saber que as culturas, saberes e valores produzidos no continente africano são tão eficazes e válidos como quaisquer outros, essa inferiorização persiste, pois é pautada pela imagem racista por meio da qual percebemos o vasto continente africano.

HL – Seguindo o gancho, é tão forte o eurocentrismo no mundo ocidental ainda nos dias de hoje, que o próprio nome da plataforma online que você acaba de lançar causa espanto a quem não tenha contato com nomes do pensamento continental africano. Como podemos construir a compreensão de uma filosofia africana?

WF – A filosofia é entendida como uma das mais sofisticadas formas de pensar. E o continente africano ainda carrega o estigma de manter em seu interior pessoas sub-humanizadas, inclusive intelectualmente. O que causa espanto, portanto, é colocar na mesma expressão essa imagem sofisticada do pensamento e um adjetivo que, para nossa mentalidade eurocêntrica e racista, aponta para uma suposta impossibilidade de um pensamento sofisticado. Articular a expressão “filosofia africana” implica, portanto, em um desafio duplo: assumir que as pessoas africanas são tão capazes quanto quaisquer outras a produzir esse pensamento sofisticado – o que implica em desconstruir o imaginário que a modernidade nos legou delas – e, também, romper com uma suposta universalidade da filosofia que afirma que ela, paradoxalmente, não conhece fronteiras geográficas, o que impossibilitaria a existência de uma filosofia marcada por um lugar. Curiosamente, frente a esse último desafio, tal problema só se coloca, quando falamos de filosofias de lugares geopoliticamente subalternizados. Não temos problemas em falar de uma filosofia “ocidental” (autores importantes para o cânone da filosofia produzida na Europa, como Anthony Kenny, Bertrand Russell e Richard Tarnas utilizam essa expressão, sem maiores assombros) ou de uma filosofia “europeia”. O problema surge quando queremos falar de uma “filosofia africana”, “filosofia latino-americana” etc. Portanto, compreender a filosofia africana passa por desconstruir imaginários sobre o que entendemos ser a filosofia (e quem está habilitado a produzi-la) e o que entendemos por continente africano (e o que entendemos que as pessoas africanas são capazes de fazer e pensar…).

HL – Quais filósofos africanos você indicaria para a iniciação dos leitores do Homo Literatus?

WF – É muito difícil indicar apenas alguns nomes, pois, apesar de as filosofias africanas serem um campo razoavelmente recente em nosso país, têm uma imensa produção já consolidada tanto no continente africano quanto em diversos países europeus e, também, nos Estados Unidos. Eu falarei, então, desde minhas afinidades, coisas que tenho lido e que podem servir de uma entrada introdutória nessa vasta e fascinante bibliografia. Como a ideia de ubuntu tem sido bastante divulgada aqui no Brasil – embora mal divulgada, na maioria dos casos – a leitura do filósofo sul-africano Mogobe Ramose, um dos principais sistematizadores dessa ideia, pode ser um bom começo. Ainda pensando em relação ao ambiente banto, os moçambicanos Severino Ngoenha e José Castiano têm boas abordagens introdutórias e, ao mesmo tempo autorais, sobre o contexto de produção das filosofias africanas, além de apresentarem uma preocupação em historicizar o cenário de construção contemporânea do pensamento filosófico desde o continente africano, com um forte engajamento político. Jean-Godefroy Bidima, filósofo camaronês, traz em suas abordagens uma preocupação em apresentar a filosofia africana e, também, propõe estratégias poéticas para buscar uma aproximação com os pensares africanos, por meio do que ele chama de paradigma da travessia. Séverine Kodjo-Grandvaux, da Costa do Marfim, além do belíssimo trabalho de divulgação da produção intelectual e artística africana, construiu um impressionante livro, que inspira um convite para a proximidade com aquilo que nomeia a obra As filosofias africanas. A epistemóloga e socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí é também uma interessante autora para nos introduzirmos ao contexto no qual as tradições africanas pensam suas relações entre corpo, política, família e outros conceitos importantes para as relações humanas, questionando a universalidade do conceito de gênero e as relações cotidianas de poder. Outra interessante introdução ao pensamento filosófico do continente africano foi escrita pelo filósofo Eugénio Nkogo Ondó, da Guiné Equatorial, com uma vigorosa e instigante problematização do eurocentrismo e revisão dos principais debates sobre a historiografia das filosofias africanas. Se nos atentarmos às referências bibliográficas trazidas por tais pensadores/as, teremos um bom leque de leituras iniciais sobre o contexto filosófico do continente africano.

HL – Dando um salto da filosofia para a literatura, pode-se observar facilmente que quem fizer a simples busca no Google por “escritores africanos”, encontrará um séquito de pessoas brancas. Nomes como Mia Couto, J. M. Coetzee, José Luandino Vieira, Nadine Gordimer, Pepetela, etc. Embora haja, de fato, escritores negros como Chimamanda Ngozi Adichie, Wole Soyinka, Paulina Chiziane e outros, são claramente minoria na rede. A que você reputa esse fenômeno?

WF – Quando se construiu a imagem inferiorizada do continente africano, o que se tinha em mente era sua população negra. Autores como Kant e Hegel, ao destilar suas ideias sobre a inferioridade africana, se referem especificamente aos “negros” como incapazes intelectualmente. Não é, portanto, de se admirar que tenham se destacado escritores e escritoras brancas oriundos no continente africano, embora hoje, por sorte, tenhamos bastante literatura africana negra circulando pelos mercados mundiais. A questão que me coloco é como essa literatura é recebida, apesar da cor de seus/suas escritores/as…

 

É muito difícil buscar um mundo mais acolhedor, tolerante, respeitoso, se mantivermos como pano de fundo de nosso pensamento sobre a humanidade que há pessoas mais humanas que outras, que há povos que sejam privilegiadamente mais humanos

 

HL – Em recente “palestra” num clube judaico carioca, o deputado ultraconservador e militar da reserva Jair Bolsonaro comparou os negros de um quilombo a gado, chamando-os, ainda, de “insignificantes”. No alto de sua tribuna propagandística, o “político” ultraconservador “alemão” Adolf Hitler chamava os negros de “perigosa peste”. Há ingredientes do discurso nazifascista no Brasil hoje? Em que parte a filosofia africana pode ajudar na reflexão sobre isso?

WF – Esse discurso sempre fez parte dos modos como os brasileiros pensam as heranças africanas. O que choca talvez seja o fato de que Bolsonaro sofra de um sincericídio. Ele não passa de uma voz que ressoa o pensamento da maior parte das sociedades ocidentais, mas que tendem a ocultar seu pensamento em função do constrangimento de torná-lo púbico, em tempos do “politicamente correto”. Uma das coisas que podemos aprender com as filosofias africanas, sobretudo aquelas que problematizaram o racismo e suas consequências coloniais, é que essas imagens inferiorizantes trazem malefícios a todo o mundo social, embora as pessoas negras os sofram de modo particular. É muito difícil buscar um mundo mais acolhedor, tolerante, respeitoso, se mantivermos como pano de fundo de nosso pensamento sobre a humanidade que há pessoas mais humanas que outras, que há povos que sejam privilegiadamente mais humanos. Os rastros dessa hierarquização opressiva perseguem nossos projetos de emancipação ou de realização de projetos de sociedades menos violentas. Enquanto a opressão fizer parte dos nossos modos de pensar (e classificar) as populações humanas, dificilmente avançaremos na construção de um mundo mais plural, mais complacente.

HL – Voltando para a literatura e agora tentando expor um pouco o ambiente acadêmico: muitos dos grandes escritores brasileiros que se tornaram clássicos de nossa literatura foram negros. Lima Barreto, Machado de Assis, Cruz e Souza são exemplos. No caso de Machado de Assis existe farto material jornalístico sobre o seu embate com o professor da Faculdade de Direito do Recife (hoje da UFPE) Sílvio Romero, onde esse último, sem ter como criticar a literatura genial do Machado, dizia que ela deveria ser ruim por “vir de gente de cor”. Há ainda rastros do preconceito racial (e da burrice que vem com ele) na Academia?

WF – A academia é um dos mais importantes baluartes do racismo. Durante muito tempo, pouco se discutia isso, pois além de se apresentar como uma das instituições Ilustradas, a academia contava com poucas pessoas negras em seu interior. Sobretudo com as políticas de ações afirmativas – e, em específico, as cotas raciais –, com o aumento da presença das pessoas negras na academia, esse monstro que operava em silêncio começa a ranger em voz alta. Não mais com a indiferença, mas com um forte ataque contra essa presença, que é acusada de “diminuir a qualidade da universidade”. Ora por meio de uma espécie de benevolência inferiorizante, que trata as pessoas negras na academia como “pobres coitadas” que devem ser acolhidas, mas sempre sem reconhecer seu pleno potencial, ora por meio de agressões que mostrem que a academia “não é seu lugar”, os vários discursos contra a presença das pessoas negras na academia mostram seu elitismo e racismo. Muito de seu pensamento é tido como concreto, sem o refinamento da abstração ou, ainda, meramente militante, ou seja, distante da prática da teoria, “típica do fazer acadêmico”. De um modo geral, a academia é inóspita para as pessoas negras.

HL – Se, de um lado, a “ignorância” do brasileiro em relação a diversos campos da cultura dos países africanos é histórica, de outro lado há quem sequer tolere a ideia de que essa cultura seja ensinada. Um caso famoso é o da Escola Estadual Senador João Bosco Ramos de Lima, em Manaus/AM, no qual um grupo de alunos evangélicos, estimulados por seus pais, teria protestado diante da escola contra um projeto de ensino da cultura africana dentro da sala de aula, sob o argumento de que a cultura africana e a literatura afro-brasileira evocariam o “satanismo” e o “homossexualismo” (sic.). Quais os desafios do ensino da cultura africana no Brasil, hoje?

 

A academia é um dos mais importantes baluartes do racismo.

 

WF – O grande desafio é mudar a mentalidade que temos sobre o continente africano e suas populações, sobretudo as negras. Nossa mentalidade é completamente arraigada de racismo, que exala por cada poro pensante que projeta nossas ideias… Kabengele Munanga insistentemente diz que, no Brasil, o racismo é um crime perfeito, do qual só vemos (quando vemos) a vítima, mas não conseguimos ver o ato criminoso e nem mesmo o autor de tal ação. Encontramos as mais diversas desculpas para não tratar com nossas heranças africanas, a não ser quando quisermos folclorizá-las e exotizá-las, tirando, com isso, algum proveito delas. A esperança é que, com algum tempo, formemos outras mentalidades sobre as pessoas negras, sobre o continente africano. Mas isso leva tempo, e esbarra na falta de vontade política de insistir em transformações estruturais nas dinâmicas de ensino que tenham de se haver, conjuntamente, com o enfrentamento do racismo, misoginia, homofobia e a forma do racismo que entendemos como intolerância religiosa. É um desafio complexo, mas que precisa ser enfrentado, se de fato queremos uma sociedade mais democrática e menos opressiva.

HL – Voltando para a política, Fernando Holiday é o vereador negro que diz à Folha de S. Paulo: “Somos todos brasileiros e dane-se a cor da pele e se você se sente ou não parte de um determinado grupo”. De outro lado, obras de arte como os livros Tenda dos milagres (1969), do baiano Jorge Amado e The help (2009), da estadunidense Kathryn Stockett (ambos levados ao cinema com êxito) demonstram como é necessária a luta e o movimento político negro para o alcance de direitos. Nesse mesmo sentido, líderes como Martin Luther King e Malcom X, demonstram a pequenez de discursos como o do mais novo vereador de São Paulo. Até que ponto o aparecimento de personagens contraditórios como o vereador do MBL pode prejudicar a luta pelo reconhecimento do negro no Brasil?

WF – O racismo é uma tecnologia de subjetivação tremendamente sofisticada. E só funciona, como bem nos ensina o martiniquenho Frantz Fanon, se conseguir que parte da população inferiorizada racialmente trabalhe a favor da segregação racial, de alguma maneira. Nesse sentido, Holiday nada mais é do que um nefasto produto do racismo: ao mesmo tempo vítima e algoz. Essas pessoas são importantes para o discurso racista, exatamente por tentarem fazer com que pareça que o racismo não atua como quem o combate afirma. Atuam amenizando a presença do racismo como fator de estruturação do mundo social, sublinhando outras mazelas sociais como a pobreza, por exemplo. Ao mesmo tempo, essas pessoas alcançam algum destaque, exatamente por reproduzirem o discurso que a lógica social do racismo pretende: parecem mostrar que não há nada que impeça a “ascensão do negro”, já que essas pessoas “chegaram lá”, ocultando o fato de que essas pessoas nada mais são do que a exceção que confirma a regra. Por isso, é importante enfrentar o discurso de pessoas como Holiday sem, no entanto, demonizar o indivíduo, que nada mais é do que uma vítima do racismo, que executa um script que faz com que ele pense ser protagonista de uma história quando, de fato, ele apenas atua como uma marionete – mal intencionada, é verdade – de um jogo de poder do qual ele não é, de modo algum, um ator, ou autor, principal…

HL – O negro, no mundo atual, ainda tem aquela sensação de primeiro homem, ou de estrangeiro, do Camus? Ou o mundo é um lugar mais aprazível?

WF – O mundo atual constrói uma teia que faz com que as pessoas se sintam em casa e estrangeiros ao mesmo tempo. E isso é uma importante armadilha para as pessoas negras. Quanto mais aprazível é um mundo racista, mais significa que o racismo conseguiu subjetivar pessoas negras para que se sintam em casa em um cenário hostil, não percebendo sequer a hostilidade. O que me parece é que o racismo se sofistica cada vez mais em suas estratégias de criar sociabilidades que incluem segregando, que trazem as pessoas negras para o espetáculo de seu próprio martírio. E isso é um sintoma de um mundo cada vez mais adoecido.

 

O racismo é uma tecnologia de subjetivação tremendamente sofisticada. E só funciona se conseguir que parte da população inferiorizada racialmente trabalhe a favor da segregação racial, de alguma maneira

 

HL – Diferentemente da esmagadora maioria dos indígenas, o negro no Brasil passou, e ainda passa, por um extenso processo de pertencimento social, assim como os imigrantes europeus e asiáticos? Na tua opinião, haverá um futuro onde a consciência da miscigenação erradicará a discriminação racial no Brasil? Ou seja, o futuro dará razão ao Darcy Ribeiro e ao Stefan Zweig?

WF – Eu não sei se concordo com a premissa da questão. Há várias maneiras de ser inserido nos processos de pertencimento social: inclusive por meio de um extermínio queconsiga fazer parte de uma memória que se arrisca sempre, liminarmente, a apagar da história. O que se fez e faz com a população negra é uma espécie de inclusão subalternizada. E, durante muito tempo, os discursos sobre a miscigenação eram parte de um projeto eugenista de nação. No Brasil, a miscigenação era, também, uma forma de racismo. Ao contrário do que sustentaram os primeiros ideólogos da identidade nacional, a mestiçagem foi fruto de violência, ao menos em seus inícios. E não sabemos de que forma esse caráter violento dos começos se perdeu ao longo dos muitos encontros e desencontros que se deram nos desenrolares da história brasileira – e em que medida se perdeu… Ainda hoje, temos um uso dos discursos sobre a mestiçagem para restringir o acesso de pessoas negras e indígenas a direitos. Quando autores como Demétrio Magnoli – no contexto das discussões sobre as cotas raciais para o acesso à universidade – se pergunta “Como saber quem é negro no Brasil?”, ele não faz essa questão como um mero elogio à mestiçagem, ele está chamando a atenção para o fato de que os mestiços brasileiros ocupam um lugar que deveria ser mais considerado do que o dos negros.  Em minha percepção, não vejo que uma consciência da miscigenação, frente ao histórico que se deu em nosso país, se oponha à discriminação racial. Só os ideólogos de um “País do Futuro” ou de uma “Gente Brasileira”, brancos em um país racista, conseguem ver na mestiçagem algo positivo.

 

 

 

Mario Filipe Cavalcanti Author

Advogado graduado pela Ufpe, escritor, prêmio Pernambuco de literatura com o livro "Caninos amarelados" (Cepe, 2016), leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.