Alta Fidelidade: uma série para quem ama música

A série “Alta Fidelidade” ocupa o lugar de conforto e transformação que a música nos traz, dialogando com esse universo musical.

Imagem da série “Alta Fidelidade”: foto reprodução

Livro, filme e série

Inspirado no livro de 1995 com o mesmo nome, do autor Nick Hornby, “Alta Fidelidade” (High Fidelity) chegou às telas pela primeira vez em 2000, com o filme dirigido por Stephen Frears. Responsável por moldar o gosto musical de muitos e por uma infestação de blogs nos anos seguintes, “Alta Fidelidade” retratou a fixação pela música pop e todas as nuances apaixonantes e pedantes que envolvem a arte sonora.

Em 2020, a Hulu lançou a série “Alta Fidelidade”, estrelada por Zoe Kravitz no papel de Rob Gordon, reimaginando o romance de Hornby sob a ótica de uma mulher negra. A adaptação trouxe um universo atualizado, mais representativo, mais consciente e, sem querer criar intrigas, mais divertido — mesmo sem a presença de Jack Black. Adianto que, se ainda não conhece nada sobre “Alta Fidelidade”, vai ter uma notícia boa e outra ruim até o final deste texto.

A série

Rob, protagonista da série, tem uma loja de discos em Nova York chamada Championship Vinyl, que reúne clientes que vão desde o cantor mais pop do momento até adolescentes ladrões de discos. Ela trabalha com a excêntrica e divertidíssima Cherise (Da’Vine Joy Randolph) e o tímido Simon (David H. Holmes), que está em busca do amor da sua vida.

Ao longo da série, Rob literalmente conversa com o espectador listando os piores términos amorosos de sua vida, tentando encontrar explicações e conexões entre eles. Apesar de repassar as lembranças e reencontrar esses antigos amores, o que Rob realmente quer é tirar a pressão de si mesma, pois acredita que a culpa sempre foi toda dela. Nesse meio tempo, ela não cansa de envolver suas músicas favoritas para dar voz ao que está sentindo.

Rob tem o brilho no olhar quando fala sobre música, é de encantar. Ela é a caracterização do público-alvo da série, que vive música de qualquer jeito possível em qualquer momento da vida. Ela espera uma brecha na conversa para incluir curiosidades de uma banda B que ninguém conhece ou dar opiniões únicas sobre Fleetwood Mac. De uma forma ou outra, a música sempre vai estar lá. 

Listas, referências e mais listas

Em toda cena que se passa na loja da Rob, é quase impossível não tentar identificar as capas dos discos. Sempre surge alguma pérola, como aquela que acaba virando parte da trama, o The Man Who Sold the World, de David Bowie. Essas pérolas também entram nas conversas, como quando um cliente pega na mão um box de Os Mutantes e eles conversam sobre gravações de Caetano Veloso.

A trilha sonora é outro charme em vários momentos. Por exemplo, na cena em que Nikes de Frank Ocean ambienta uma Nova York noturna. Ou quando toca Geninha, da banda brasileira Bango, em um bar. Algumas cenas e músicas combinam de uma forma quase transcendental. Aproveito para indicar a seleção de filmes que combinam cinema e música feita por Bibiana Lucas, na coluna ao lado, com destaque para o meu favorito, Antes do Pôr-do-Sol (2004).

Além dos relacionamentos fracassados e do universo da música pop, outra raiz de “Alta Fidelidade” são as famosas listas. A cada assunto novo que surge, uma nova lista é criada: 5 músicas para ouvir sozinho. 5 bandas ruins. 5 términos de relacionamento. Ao final deste texto, vou deixar uma lista de 5 músicas que parecem um filme (ou série).

Há também as incansáveis discussões sobre gosto musical e polêmicas famosas. Kanye West é gênio ou só é transtornado? Eu responderia que ele é os dois ao mesmo tempo, mas Rob, Cherise e Simon levam a discussão muito mais a sério.

Quando a música realmente toca

Além das referências, músicas, artistas, histórias e momentos, a série chama a atenção para um ponto que talvez seja o principal: a relação dos personagens com a música. Todos eles encontram algo diferente. 

Cherise quer ser uma revolucionária da música, mesmo sem compor nenhuma. Rob, além de querer vender — afinal, ela tem uma loja de discos e precisa sobreviver —, também encontra nas músicas as respostas para se livrar de traumas. Já o Simon planeja uma playlist para impressionar um crush. O que torna tudo ainda mais bonito é a forma como a música os acolhe. Em algum momento, Rob está passando por uma crise e simplesmente surge Debbie Harry (Blondie) em sua sala, dando-lhe conselhos amorosos. 

É a sensação que temos quando somos amparados por uma música no chão da sala, lidando com algum problema emocional. É como se Lou Reed estivesse ao seu lado no chão. Como se Hendrix balançasse a cabeça junto. Como se Fiona Apple quisesse fugir contigo de uma conversa esquisita. É como se tudo fosse a mesma coisa.

Essas conexões me fazem pensar nos motivos pelos quais a música é tão importante para mim. Nos momentos em que ela esteve presente, me deu conselhos, me abraçou, me expulsou. É como um ser vivo que habita nossos silêncios e nos afeta como qualquer pessoa com quem interagimos, às vezes até de forma mais intensa.

A notícia ruim

Como anunciado no início, a notícia boa é que você tem uma nova série deliciosa para se apaixonar, mas cuidado com a notícia ruim: a série “Alta Fidelidade” foi cancelada e não terá mais de uma temporada. Infelizmente, sem explicações, a Hulu decidiu não dar sequência e estragou um sonho.

O interessante, se você ainda não conhecia “Alta Fidelidade”, é que, além da série, você ainda pode assistir a um filme e ler um livro com conteúdos diferentes do mesmo universo. Inclusive, Walter Bach já entrevistou o tradutor do livro, Christian Schwartz, para o Homo Literatus — vale a leitura.

Zoe Kravitz, que criticou o cancelamento da série em uma entrevista, sentiu que Hulu não entendeu o poder de identificação que a produção gerava nos fãs, visto a quantidade de cartas e mensagens que recebiam em geral, especialmente de mulheres não brancas. Sim, Zoe, foi um grande erro. O que nos resta é planejar uma playlist com músicas ruins e enviar para eles por correio.

Contudo, mesmo com apenas uma temporada, vale a pena assistir aos dez episódios, pois é um prato cheio para quem ama o mundo da música. Rob é apaixonante, o universo é aconchegante e as músicas são a cereja do bolo. Atualmente, o filme e a série “Alta Fidelidade” estão disponíveis no streaming Star+, aproveite.

5 músicas que parecem filmes

Como prometido, a lista das músicas que parecem filmes, seja pela letra, vibe ou história por trás dos amplificadores:

  1. Conversa de Botas Batidas (Los Hermanos)

    Dois corpos em meio aos escombros de um prédio. Seria um filme de terror, um suspense ou um drama muito triste, mas, nas mãos de Los Hermanos, vira um romance. Em setembro de 2002, um hotel no Rio de Janeiro começou a apresentar rachaduras e barulhos estranhos. Seu Raimundo, o porteiro, começou a avisar os hóspedes para que saíssem, mas um dos quartos não atendeu. O prédio desabou e, tempos depois, foram encontrados os corpos de um casal no quarto. Dois amantes secretos que não se distanciaram nem com o prédio em queda. Essa é uma história real e linda, que vale a pena ir atrás para conhecer.

  2. We Cry Together (Kendrick Lamar)

    Um casal em conflito que vai do inferno ao céu. É um drama bem forte com performances incríveis, sendo desconfortável de ouvir. Inclusive, indico o texto sobre o álbum no qual a música foi lançada. O disco inteiro daria um filme. Enquanto pensava nesta lista, Kendrick Lamar lançou um clipe/curta-metragem de We Cry Together. A música, forte nos dois formatos, realmente virou um filme. 

  3. Crosstown Traffic (Jimi Hendrix)

    Claro que a música não fala literalmente do trânsito da cidade, mas caberia muito bem. A analogia é sobre uma mulher que é tão difícil de “chegar” quanto um congestionamento que atravessa a cidade. Apesar disso, a música se encaixa perfeitamente em uma cena alá Táxi (2004). Talvez não desse um filme de duas horas, mas uma grande cena de ação? Com certeza.

  4. Corpos de Cera no Incêndio (Makalister)

    Gosto muito das músicas do Makalister pelo forte apelo visual, pelas letras, samples e instrumentais. Aos fãs de cinema, ele pincela várias referências em suas músicas. Além disso, cria suas próprias cenas e conflitos poderosos. E essa música é uma das que mais me levam pra esse lugar de imaginação cinemática.

  5. Band on the Run (Wings)

    É quase um filme pronto. Uma fuga em road movie em que acompanhamos uma banda que escapa para sempre da confusão que os cerca. A música tem até as divisões de vibe, como as sequências de um filme. Me remete muito a Almost Famous (2000).

Assistindo aos personagens Rob, Cherise e Simon criando listas aleatórias, parecia muito mais fácil, mas agora vi que é realmente complicado. Se tivesse que encaixar Alta Fidelidade em alguma lista, com certeza seria em: melhor série para quem ama música.

Créditos HL

Esse texto é de Igor Amarante para nossa coluna Cinemateca HL. Ele teve revisão de Raphael Alves e edição de Nicole Ayres, editora assistente do Homo Literatus.

Igor Amarante
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
Igor Amarante
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
Revisão por
Raphael Alves
Graduado em Letras-bacharelado. Escreve por trabalho e diversão. A curiosidade um dia o matará; enquanto isso, escreve sobre a agonia e o prazer das últimas descobertas.
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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