Conto: Chuva de Verão

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gay

Eu nunca irei esquecer o meu primeiro beijo. O instante em que meus lábios se desgrudaram da boca contorcida, repuxada para dentro, devido à timidez. Momento no qual o céu encheu-se de nuvens. Afoguei novamente meus lábios na boca daquela pessoa. Com o rosto colado no dele, respirei fundo. Logo senti meus pés trêmulos, uma mão agarrada a minha dizendo “Você está nervoso, calma”. Uma gota escorreu em meu rosto. Vem – eu disse- Vamos logo, está começando a chover. Estávamos atrás de um muro coberto por trepadeiras. O sol forte e o calor fez surgir gotículas de suor na minha testa. Quando me dei conta disso, sequei-a disfarçadamente com a manga da camiseta. Tem aranhas aqui, disse-me olhando para a calçada de grama verde escura. Não tem não, respondi. Corremos beirando todo o muro de pedra coberto por cortinas de folhas das trepadeiras. Paramos na esquina. Um corredor de luz formado pelo espaço entre uma nuvem e outra criou um efeito especial naquela rua cheia de flores roxas espalhadas pelo vento. Começou a chover. Eu sentia que a força daquele momento aumentava a cada estalo de vento que batia em meu peito. Olhamos um para o outro e sorrimos um riso de cumplicidade. O caminho de volta era longo. Fizemos questão de esconder nosso primeiro beijo da mesma forma como escondíamos nosso sentimento, longe, distante de qualquer pessoa.

 

A enxurrada já transbordava a guia. Fomos nos abrigar na garagem de uma mansão sem grades, só mais uma no meio de tantas no condomínio onde estávamos. O lugar chamava-se Bosque dos Eucaliptos. Um bairro vizinho do nosso, com a única diferença de ser um bairro de ricos. As ruas daquele local sempre estavam vazias, como se as pessoas que ali moravam viessem de vez em quando ou viviam viajando. Olhei para ele. A água escureceu o seu cabelo, de castanho ele ganhou uma tonalidade voltada para o preto. As barras de nossas bermudas gotejavam como a beira de um guarda-chuva. Percebi que ele estava um pouco tímido, não conseguia olhar no meu rosto. Ficou durante todo o tempo vislumbrando o céu, a chuva, ou qualquer outra coisa que não fosse eu. Eu não sabia o que dizer. Fingi não ter acontecido o que aconteceu. Nós tínhamos quinze anos. Há um ano antes nem nos conhecíamos. Ele mudou-se para a minha rua. Desde o começou senti algo diferente. Não era como meus outros amigos. O ser humano sente, sente quando é atraído sem vontade própria. Ele falando dos jogos que tinha zerado, eu com a bola de vôlei na mão. As meninas fascinadas por seus olhos verdes com contorno laranja. A minha fascinação, o meu desejo, não cabiam em mim. Saia de perto, ia até o muro e ficava fazendo paredão com a bola. Tempos depois nos aproximamos, mas sempre com aquele olhar de estranhamento um com o outro. Tentava me mostrar superior, mas não a ele. Era apenas uma forma de tentar conquistá-lo, na verdade eu não sabia exatamente o que sentia. Até que um dia, no banco de madeira em frente a casa dele, surge a pergunta: Você já fez troca-troca? Levantei sem saber o que responder, agarrei a bola jogada na sarjeta, disse tchau e corri para minha casa. Fui direto pro meu quarto. Apaguei a luz subi na cama e o espiei pela janela. Naquele exato momento fechava o portão da sua casa. Deitei. Passei a noite acordado olhando as estrelas de plástico fluorescente grudadas na parede no teto. Tentando entender o motivo daquela pergunta. Eu pareço gay? Questionava a mim mesmo. Tudo, ou talvez parte da minha vida fez sentido naquele noite. Na manhã do dia seguinte, como de costume, fui chamá-lo para ir à escola. No caminho, não me contive e soltei: “Eu não entendi porque você disse aquilo ontem”. Ele simplesmente olhou para os lados, viu que não vinha ninguém e me deu um beijo no rosto. Fiquei parado, atônito. Ele voltou a andar, fez uma pausa um pouco a frente e disse – Você vai entrar atrasado, vamos logo. Calado, continuei o caminho.

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