Contos de Minas: uma interpretação do conto A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida

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A Caolha é um conto sobre o desassossego de ser mãe

ilustração de Alex Trimurti
ilustração de Alex Trimurti

Júlia Lopes de Almeida monta com as peças do realismo brasileiro a composição da vida ordinária, e com uma lente de aumento descreve detalhes inquietantes no conto A Caolha, publicado em 1922. O conto expressa uma necessidade de contribuir para a construção ideológica do Brasil República enquanto dá voz ao seu pensamento feminista.

A personagem principal é uma mulher, que possui uma chaga no olho esquerdo da qual escorre pus. Sua aparência é descrita como grotesca, e Júlia escancara uma pobreza e simplicidade resignadas. A caolha sequer possui um nome, já que a alcunha parece fazer jus a sua pessoa. Embora seja uma mulher forte, que criou seu filho com o pouco que o trabalho de lavadeira lhe proporcionava, transparece uma mulher que se reprime e tolera tudo. A devoção ao seu filho é uma característica que pesa em sua desenvoltura, em seu ser: ela é toda amor e sua maior fonte de alegria é o filho que a beija, quando lhe dá carinho.

O filho tem nome e apelido (Antonico é “filho da caolha”), é fonte de todo bem e todo mal da sua humilde genitora. E ele vive um dilema. A pessoa de quem ele mais recebe afeto, cuidado, respeito se torna cada vez mais objeto de seu desprezo. Aos poucos, as injúrias que recebe das pessoas na escola, no trabalho e na rua se tornam maiores do que a injúria que goteja pus em sua mãe. Sua felicidade parece impedida por aquela criatura. E, no momento em que recebe um ultimato de sua amada, que exige ele abandone sua defeituosa mãe, o desesperado Antonico, na ânsia de ser aceito, prefere se afastar.

Ao analisar a literatura de Júlia Lopes de Almeida, que debate o papel de cuidadora e única responsável pela criação dos filhos atribuído à mãe, que apela pela instrução, utilizando, por vezes, de uma argumentação comum à época, que era justificando o acesso ao conhecimento das mulheres pela educação que elas precisavam dar aos filhos, é possível entender que a descrição desta personagem sofrida é a caricatura de um papel então imposto (e ainda o é) a várias mulheres. É permissível também compreender o caráter conciliador da postura da escritora.

O que se sente é que A Caolha é um conto sobre o desassossego que é ser mãe, é um pouco daquele ponderar sobre os reais aspectos do desafio da maternidade. É sobre uma mulher que não é aceita na sociedade por um “defeito” que a torna repugnante. É sobre uma mulher que recebe ódio e ingratidão de um filho que projeta nela as frustrações causadas pela rejeição da sociedade. É sobre a mãe que, além de ser rechaçada pelos outros, é enjeitada também pelo seu único filho. Mostra uma explosão indignada e até arrependimento digno do santo sentimento que a maternidade pode proporcionar. A conformidade que a personagem carrega em relação a sua situação sobre a própria condição é tanto um arquétipo de uma época quanto o reflexo de uma postura moderada da autora.

A Caolha é também sobre os filhos que reconhecem nos pais defeitos que, de fácil julgamento, são declarados passíveis de culpa e penalidade. A Caolha faz o leitor olhar bem pra o olho murcho que falta e escorre pus de quem gera, acolhe e dá amor. Olhar bem e analisar com mais compaixão, com gratidão e empatia. É sentir a imperfeição da genetriz, sua fragilidade e compreender. Esse caráter doutrinário transparece também uma autora preocupada com os valores da sociedade brasileira.

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida, nascida no Rio de Janeiro em 1862, demonstrou desde cedo interesse para a escrita e, apesar de a sociedade não considerar adequado esse trabalho para mulheres, ela teve o privilégio de receber o apoio do pai e, mais tarde, do marido.

Figura menor no criticado cânone da academia brasileira, que ainda inviabiliza muitas escritoras, publicou seu primeiro texto na Gazeta de Campinas, em 1881. Trabalhou como jornalista, dramaturga, cronista, romancista, além de escrever contos, inclusive infantis. Participou das reuniões para formação da Academia Brasileira de Letras, mas ficou de fora por ser mulher. Seu marido, Filinto de Almeida, diz-se, foi eleito em sua homenagem.

Nas peças que escreveu, o drama das personagens femininas aponta para a falta de perspectiva e resignação do casamento e as possibilidades de realização na vida de solteira. Isso é representado através do abandono ou impossibilidade dos estudos da futura esposa, o sonho de realização profissional que lhe é proibido.  E, na mulher que foge do casamento arranjado, faz-se sentir a esperança. Também mostra o papel da própria mulher que reproduz o machismo se imbuindo do poder opressor, representando o controle que possui e a humilhação que proporciona.

Quando descreveu cidades como Santos e Rio de Janeiro em suas crônicas, é possível sentir o clima de um Brasil recém-república no qual as concepções urbanas higienistas (física e moral), que se espelhavam em padrões europeus, somados com um quê de  belle époque brasileira, davam um tom de encantamento com uma urbanidade produzida e excludente. Ecos de crítica também acabam ressoando em seus textos, contudo há sempre uma limitação latente: Júlia Lopes de Almeida possuía claras demarcações em seus escritos.

Pode-se pensar em concessões que se obrigava a praticar para garantir seu lugar, mesmo que diminuído, entre os escritores da época. Contudo, é importante refletir sobre qual tipo de mulher Júlia representa: uma mulher branca, privilegiada e letrada, que, embora defenda a educação e vida profissional das mulheres, muitas vezes associa a necessidade destas conquistas ao papel que a mulher deveria exercer na época. O caráter restrito de sua crítica reflete um posicionamento que evita o enfrentamento direto, utiliza um discurso que pode até ser considerado atenuado, porque tenta se inserir num meio hostil, podendo falar de suas reflexões, vez por outra, por suas personagens e narrações, como em A Caolha.