De famosos a anônimos: o jornalismo “raça pura” de Fred Melo Paiva

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Em Bandido Raça Pura, o jornalista Fred Melo Paiva retrata, através de seu olhar peculiar para contar histórias, personagens famosos e anônimos, indo do cinismo pelo banal à crítica social

Fred Melo Paiva. Crédito: Yuri Andreoli/Divulgação/Gazeta

Fred Melo Paiva não tem papas na língua – ou melhor, na escrita. Cutuca aqui, provoca um tantinho ali, sempre dando um jeito de mostrar que por trás de seus perfis também bate o coração de um jornalista. Bate subjetivamente, importante frisar. Não há medo de se mostrar no texto – este, devido ao estilo, assemelha-se frequentemente ao tom de crônica. Suas frases provocam o riso facilmente; por vezes quase sentimos seu olhar cínico sobre nós, por ora é o nosso olhar que se encanta com a versatilidade deste jornalista em contar histórias, em relatá-las a partir de um ângulo tão inusitado.

No livro Bandido Raça Pura (2014), Paiva, conhecido pela série O Infiltrado, do History Channel, reúne 36 perfis publicados em veículos por onde já escreveu, a maioria para o Estado de S. Paulo, no qual integrou a equipe de editores. A primeira parte se volta para figuras famosas (“ilustres mais ou menos virtuosos”), como Oscar Niemeyer, Dorival Caymmi, Cauby Peixoto e Ronaldo Fenômeno. Na segunda, ele traz os “notáveis anônimos”, como, por exemplo, quem está à frente de uma casa de swing e alguns rostos somente famosos dentro do extinto presídio Carandiru. Ao final, traz personagens tão relevantes quanto os anteriores: “cães, ratos, urubus e coisas supostamente inanimadas”.

fredO autor, tal como um chargista, sempre deixa em evidência uma característica marcante de seus personagens, seja a boca, seja a bunda, seja o sotaque, seja que for. Quando se trata de Oscar Niemeyer, Paiva enfatiza uma frase do arquiteto – este tendia em acabar com suas opiniões com um “é uma merda!” e outras variantes do uso dessa palavra tão prática, aplicável para qualquer merda. Se o personagem fala de modo caipira ou em uma língua estrangeira, o jornalista também adota termos semelhantes ao longo do seu texto, incorporando em si o perfilado. Outro caso: ao falar sobre Ronaldo “Fenômeno”, Paiva não evidencia uma característica do jogador, e sim algo que marca o personagem. Assim, sua escrita se desenvolve, por vezes, como a narração de um jogo de futebol, utilizando este recurso para tornar a leitura mais atrativa, divertida e até mesmo irônica. Usou isto, inclusive, para satirizar o episódio polêmico em que Ronaldo levou travestis para um hotel pensando serem prostitutas:

Lá vai ele, livrou-se do medo em que vive, conduz seu Ford Fusion, ninguém na marcação, tem agora uma avenida inteira pela frente, a Avenida Sernambetiba, na Barra, quer evitar o cinco contra um, por isso cadencia o jogo, levanta a cabeça, tenta encontrar um caminho alternativo para o gol, lá vai Ronaldo, precisa extravasar, atenção, parece ter achado uma saída, quer dizer, uma entrada, hummm, quanto? ‘Oral é R$30, no carro é R$ 50, no motel é R$100’, que beleza, bora Ronaldo, um joelho é suficiente, simbora garoto, ele conduz a menina, é a Andréia, vai com tudo, ela chama as amigas, agora são três, ele vislumbra uma laranja mecânica, um frango assado que seja, simbora Ronaldo, ele abre agora pela esquerda, chega ao Motel Papillon, atenção, vai sair para o abraço, vai rolar o cruzamento, penetrou, bateu, no travessããããão!!! Mas o que é isso?? Bateu no paaaau!!! Ronaldo está confuso…Não tinha aquela trave ali…Quem foi que mudou a trave de lugar?… (Fred Melo Paiva sobre o Ronaldo Fenômeno, p. 40-1).

Um dos espaços em que um jornalista pode ser mais criativo em sua escrita é o perfil, pois ali ele pode se soltar, utilizar recursos literários. Não existe o distanciamento do autor, tão presente em outros gêneros jornalísticos. São textos que procuram elevar o sentimento e criar empatia com o leitor, afinal, o que está retratado em palavras são nada menos que histórias de vida, experiências humanas. Para o jornalista Sérgio Vilas Boas, é preciso se expor à arte constantemente, principalmente à literatura e suas técnicas narrativas, pois a arte trata o personagem como exemplar para o conhecimento da natureza humana. Fred Melo Paiva sabe ser delicado, principalmente quando o perfilado também o é. Trata a família que sempre sofre de enchente, o pai que foi socorrer o filho morto, a deficiência, e a desigualdade entre ricos e pobres com o tom que tem que ser: crítico e respeitoso. A morte, segundo alguns personagens perto do fim da vida, é apontada como algo simples, leve, uma conformação que a idade trouxe. Com essa mesma simplicidade, o texto de Paiva flui: divertido ou sério, sempre leve e impactante. Um texto-arte.

Referências:

MELO, Paiva Fred. Bandido Raça Pura – e outros 35 perfis de ilustres mais ou menos virtuosos, notáveis anônimos, cães, ratos, urubus e coisas supostamente inanimadas. Porto Alegre: Arquipélago Editoria, 2014.

VILAS BOAS, Sérgio. Perfis: e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003.